Início Gerais “A morte não quer me levar”, dizia seu Manoel. Uma vida de...

“A morte não quer me levar”, dizia seu Manoel. Uma vida de luta e perseverança

O nome dele era Manoel Joaquim da Silva, tinha 91 e era natural de Sertânia-PE. Estava radicado em Patos há muitos anos, onde se aposentou e, mesmo sendo cadeirante há 57 anos, sempre foi conhecido por exercer a profissão de pescador.

Sua mulher Djanira Ramos da Silva morreu de problemas cardíacos há 21 anos.

Seu Manoel começou a pescar com dez anos de idade. Nunca parou. E ficou conhecido por pescar camarões. “O peixe que eu pego eu vendo por aqui mesmo, até em minha casa, mas o camarão eu vendo pra muita gente, até de outras cidades. Tem gente do Pernambuco que me compra e me encomenda camarões. Para pegar peixe eu uso uma rede de pescar, e os camarões eu utilizo latas, latas com isca, uma armadilha onde o camarão entra e não consegue mais sair”, disse ele à Folha Patoense em uma reportagem feita em 2017..

Seu Manoel pescava na Barragem da Farinha, no Açude do Jatobá e também em outros açudes da região. Pelas dificuldades de locomoção e por residir no Conjunto Mutirão, perto do açude, o Jatobá era onde ele mais pescava. “Eu pesco quando o açude tem um volume bom de água, porque uso canoa”, disse ele na mesma reportagem citada acima,

Ele ficou deficiente físico no dia 06 de dezembro de 1962. Trabalhava comercializando peixes e produtos agrícolas nas feiras de Piancó e Itaporanga e, numa dessas viagens, aconteceu um grave acidente envolvendo a caminhonete em que ele viajava. “Nesse acidente eu perdi dois amigos e perdi as pernas também”, disse.

Mesmo cadeirante ele era exímio pescador e sempre impressionou a todos o fato de empurrar a sua cadeira de rodas do Mutirão para o Centro, do Centro para o Mutirão, uma distância de mais de oito quilômetros para ir e vir. “Com as mãos eu empurro as rodas da cadeira e assim eu me transporto. As pessoas ajudam muito. Já teve vez que fui ao centro e voltei praticamente sem empurrar a cadeira de rodas, porque um ajuda, outro ajuda, tem gente que passa de bicicleta e me vê e vai guiando a bicicleta só com uma mão e com a outra mão empurra a cadeira. Sempre tem gente pra ajudar, mas se não tiver eu vou e volto mesmo assim”, dizia ele.

Seu Manoel Joaquim não bebia, mas fumava muito “Nunca consegui largar o cigarro, mas beber nunca bebi, inclusive deixei a casa dos meus pais com dez anos de idade porque eles bebiam muito”, dizia.

Outra história interessante é que ele afirmava que sofrera dezenas de acidentes ao longo da vida. “A morte não quer me levar. “Com um mês de idade minha irmã deu uma queda em mim e eu passei 30 dias deitado, com uma vela acesa perto de mim, só esperando a morte, segundo minha mãe contava. Com dois anos eu caí dentro de uma fogueira e tive o corpo quase todo queimado. Com seis anos eu caí de um jumento, prejudicando as costelas. Com 33 anos perdi as pernas num acidente de carro, e outros acidentes eu também já sofri. A morte não quer mesmo me levar”, disse ele em 2017.

Ele dizia que tinha irmãos em Palmeira dos Índios-AL e Garanhuns-PE, mas não lembrava os nomes. “Não tô lembrado quantos irmãos eu tenho. Parece que são quatro. Nem os nomes eu lembro. Não tenho notícia dos meus irmãos. Eu vivo só e se a morte lembrar de mim eu vou morrer só”, dixia.

A despeito da deficiência, seu Manoel Joaquim sempre trabalhou. Não se acomodou. Era uma figura muito conhecida na Zona Sul de Patos.

Ele faleceu de causas naturais na madrugada desta quinta-feira, 17, e será sepultado na tarde de hoje no Cemitério Santo Antônio, no Monte Castelo, em Patos. Deixou quatro filhos.

Era um guerreiro, um lutador, e deixa um exemplo de luta e perseverança.

Folha Patoense – folhapatoense@gmail.com

 

 

Print Friendly, PDF & Email
Deixe seu comentário!