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Estudo com brasileiros cria sistema para prever transtorno bipolar

Quase 10 milhões de brasileiros têm transtorno bipolar (Imagem: Neto Lima/Bem Estar/TV Globo)

Um time internacional de pesquisadores conseguiu criar um sistema para prever se, aos 18 anos, um paciente é pré-disposto a desenvolver o transtorno bipolar 4 anos depois, aos 22 anos. O estudo começou em 1993, quando 3.810 brasileiros nasceram em Pelotas, no Rio Grande do Sul. Eles permaneceram monitorados por mais de duas décadas e são base para o estudo divulgado nesta segunda-feira (14).

Os cientistas apresentam os resultados no Congresso do Colégio Europeu de Neuropsicofarmacologia (ECNP), com um artigo disponibilizado em uma versão em “pré-print” – ainda sem publicação em revistas e no aguardo da revisão por especialistas da área. O trabalho é financiado pela Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco).

“Esta pode ser uma nova ferramenta para o diagnóstico do transtorno bipolar. Isso não vai substituir o diagnóstico médico, mas pode permitir que sejam usadas medidas preventivas para retardar ou evitar o início da doença”, disse o pesquisador líder da pesquisa, Fransisco Diego Rabelo-da-Ponte, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Jovens que apresentam tendência suicida, ansiedade generalizada, evidências de abuso físico pelos pais, problemas financeiros, entre outros, são alguns dos sinais relacionados à bipolaridade. Há, ainda, a condição genética. Os pesquisadores criaram um modelo capaz de relacionar os fatores e prever as chances da doença.

“Descobrimos que podemos identificar quem irá desenvolver o transtorno bipolar cerca de 4 anos antes do início da doença, observando os indivíduos do nascimento até a idade adulta” – Francisco Rabelo-da-Ponte.

Os pesquisadores usaram técnicas de machine learning (aprendizagem de máquina, em português), área que estuda e reconhece padrões, inteligência artificial e criação de algoritmos.

Análise do estudo

Sem participar do estudo, mas com a proposta de contribuir para a análise, o professor de psiquiatria da Universidade de Barcelona Eduard Vieta apresentou críticas à pesquisa e disse que outras iniciativas semelhantes já foram criadas com a mesma perspectiva.

“Estudos de coorte (metodologia que considera uma população pré-definida) são extremamente importantes para desenvolver modelos preditivos que podem ajudar na prevenção de doenças graves, como o transtorno bipolar”, disse o especialista catalão.

“No entanto, o presente estudo tem os seus méritos, mas é relativamente pequeno e precisa da replicação em uma coorte separada e independente”.

Dois tipos do transtorno

A Associação Americana de Psiquiatria define o transtorno bipolar como uma doença que causa “alterações no humor, na energia e na capacidade de funcionamento de uma pessoa”. Existem dois tipos diferentes da condição: transtorno bipolar I e transtorno bipolar II.

Os danos são sentidos em todo o corpo e quem tem a doença sofre com inflamações até no organismo. “Pessoas com transtorno bipolar tem mais obesidade, mais infarto do miocárdio, mais alterações de pressão arterial”, explica o psiquiatra Rodrigo Bressan, ao Bem Estar. Estima-se que 10 milhões de pessoas tenham a doença no Brasil.

  • Tipo 1: é o transtorno de humor mais raro, se inicia mais precocemente, antes dos 20 anos. Pode ter poucos episódios de depressão, mas tem episódios de mania bem evidentes, que podem precisar de internação. Os episódios de mania podem ser psicóticos. É mais fácil de ser diagnosticado porque a fase maníaca é muito marcante. É uma doença crônica que apresenta episódios de depressão ao longo da vida, mas a pessoa fica intervalos longos de tempo sem doença.
  • Tipo 2: é o segundo transtorno de humor mais comum, só perde para a depressão clássica e se inicia numa faixa etária intermediária, entre os 20 e os 30 anos. O diagnóstico pode demorar 15 anos. Os episódios de ativação são leves (chamados de hipomania) e costumam ser tão sutis que se acredita que ela está acelerada porque houve uma melhora da depressão. Tem episódios recorrentes de depressão (mais de cinco episódios no ano).

G1

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