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Estamos cheios de brasil (texto de Edson de França)

Imagem ilustrativa/reprodução/internet
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Estamos no “brasil”. Pra quem ainda não percebeu, o Brasil, assim grafado maiúsculo como exige a ortografia oficial, é uma criação de mal gosto, um projeto malacabado, que a toda hora ameaça ruir. Uma utopia de 500 anos que quando é chamada ao basquete argumenta ser ainda criança, adolescente, inexperiente e o escambau. Cá pelo brasil é comum o improviso, a falta de profissionalismo,  a enrolação, do engodo e, principalmente, do discurso incompetente e irresponsável.  Correndo por fora, o endeusamento de celebridades, a beatificação de santos do pau-oco e o coroamento, via voto direto, de certos perifas do pensamento.

Cá por nós, um insignificante vai ao espaço, ali pertinho do mundo da lua, de carona, e na volta é considerado cientista, sendo alçado ao posto de gestor da Ciência e da Tecnologia brazilis. Viajou feito um “mochileiro das galáxias” e voltou como se em seu périplo tivesse aprendido (por osmose, creio) um conhecimento superior.

Reparem que não são os feitos científicos que o fizeram ministro, mas simplesmente o vazio que o espaço deixou nos seus neurônios. Penso até que algum vírus interestelar fez algum estrago naquelas terras improdutivas.

Pior, o astronauta é peça de um governo tantan que tenta convencer o povo de que isso é meritocracia: meritocracia do engodo, não dos livros ou do domínio de algum método válido para ler os fenômenos químico-físicos, a sociedade, a realidade e até mesmo a política. O alto escalão é constituído por essas “gentes”. Até a Paraíba pequenina deu sua parcela de contribuição para tão mal elaborado séquito.

Por falar em política, cá pelas terras do brasil ela é repleta de vícios, uns antigos, outros contemporâneos e ainda aqueles escandalosamente modernosos. Por modernoso entenda-se aquilo é tão antigo quanto a posição de kh, mas mostra-se como algo novo. Na real, nem fenômeno repaginado chega a ser.

Um desses vícios é a profissionalização da política, um mal que confere uma “ocupação” (bem remunerada, diga-se de passagem) aos políticos e, ao mesmo tempo, fragiliza, contamina e amadoriza o processo. Políticos profissionais, acredito, são comuns em todos os lugares do mundo, por aqui, porém, esse profissionalismo vira patrimônio de família, de verdadeiros clãs.

De eleições compradas àquelas marcadas pelas ameaças, nossas forças oligárquicas vestiram uma espécie de hábito monárquico, hereditário, que chafurda nas errâncias da democracia sempre adolescente. A lógica da capitania hereditária aplicada à política.

O presidente de plantão da vez é uma prova disso. Enfiou toda a família na política e ainda anexou parentes, aderentes e agregados à milícia palaciana. Cá pelas bandas do Norte essa é uma prática antiga ou, melhor dizendo, não evoluímos muito nessa área. O expediente é usado largamente  em todos os estados. Há um caso curioso de uma família lá pelas bandas do Maranhão onde o patriarca entronizou seus descendentes na política, e saiu a singrar outros mares de votos numa terra que, para ser pobre, não precisava da presença tão funesta em suas terras.

Outro vício nosso foi mostrado de forma escandalosa nas últimas eleições. Puxadas por uma personificação ideológica maligna, ancorada numa patente de capitão, houve uma profusão de candidaturas onde a “patente” apareceu mais que a persona que a exibe. Vale mais o chamariz da “patente”, um apelo barato aos valores de honestidade e seriedade, que o nome e as ideias que ela defende.

Delegada ou delegado fulano, sargento ou cabo tal, majores, tenentes e outras bizarrices tais, de repente, se acharam no direito (legítimo, afinal estamos numa democracia!) de disputar a eleição. E olhe que não falei de pastores e do pessoal da justiça. O patético é que essas candidaturas “de patente”, em verdade, camuflam o caráter, os caminhos, as ideias subjacentes dos postulantes.

   Tive a ideia para esse texto após assistir o ex-jogador Romário declarando um possível futuro voto no atual presidente. Típico do indivíduo cujo olhar só enxerga as cercanias de seu próprio mundinho. O tal jogou alguma bola, destacou-se, foi campeão do mundo e o escambau; conquistas que para quem não vive o mundo do futebol não vai nem vem, não põe ninguém para a frente. Para essas pessoas, Romário andando na rua não passaria de um ilustre desconhecido, olhariam para ele com a indiferença que as vacas para uma aquarela berrante e ele, como político, jamais terá o espírito republicano de falar por essas pessoas.

Mas, afinal, estamos no brasil e o cabra foi jogador de futebol. Isso faculta uma projeção social impressionante, até para se lançar politicamente, num país que elege palhaços, artistas de segunda linha, breganejos e arrogantes pagodeiros e milicianos. Romário não se qualificaria nem para falar em nome dos jogadores ou estar entre os membros de uma entidade representatividade séria. Sinceramente, há tempo que precisamos de uma Brasil com inicial maiúscula.

Edson de França 

 

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