Enquanto Jair Bolsonaro não se pronuncia sobre o resultado das eleições e os apoiadores fazem protestos bloqueando estradas, um eleitor do presidente viralizou no TikTok ao reconhecer a vitória do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva. O diretor de fotografia e videoclipes Márcio Torrez, de 41 anos, foi gravado em vídeo pela filha enquanto retirava os adesivos de Bolsonaro e Onyx Lorenzoni (candidato derrotado ao governo do RS) do carro da esposa, em Torres, no Litoral Norte do Rio Grande do Sul.
Dezessete horas após a postagem, o vídeo original tinha mais de 1,3 mihão de curtidas e 53,7 mil comentários, além de ser compartilhado por perfis famosos. A maioria dos elogios, segundo o próprio Márcio, vinha de pessoas alinhadas à esquerda do espectro político.
“Eu sempre agi deste modo. Eu nunca xinguei um petista. Eu subia petistas na minha live. Eu converso com o adversário de igual para igual, desde que tenha respeito”, afirma.
Críticas ao presidente e seus seguidores
A altivez na postura destoa do que muitos seguidores do presidente fazem desde o anúncio da vitória de Lula até a tarde desta segunda-feira (31). Rodovias estaduais e federais foram bloqueadas por manifestantes que queimam pneus e atravessam veículos de carga para impedir a passagem de carros. Por quê, nem Márcio sabe dizer.
“Eu sou uma pessoa totalmente contrária ao MST [Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra] e do MTST [Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto]. Sempre critiquei atitudes de invasão. Não vai ser eu neste momento que vou fazer o papel daquilo que critico”, assevera.
A crítica se estende ao próprio presidente, que, para Márcio, deveria se posicionar o mais breve possível e encerrar o clima de insegurança no Brasil.
Descolamento do ‘bolsonarismo’
Márcio conta que, desde criança, participa de comícios em cima de caminhões com a avó. Ele se reconhece como um homem de direita, mas apressa-se em descolar — além do decalque do carro —, o rótulo de “bolsonarista”.
Como trabalha com marketing político, realizou 24 campanhas de diversos partidos em âmbito local e nacional. A projeção que ganhou em 2018, ao comprar o projeto de Bolsonaro e fazer transmissões ao vivo defendendo o plano bolsonarista, trouxe alguns incômodos e até problemas graves. Além de ser confundido com radicais, precisou ouvir ofensas de outros extremistas aos filhos menores de idade.
“Sempre disse para as pessoas que nunca me veriam na rua gritando ‘mito’. Não acredito que seja o correto. Continuarei sendo de direita, meus pensamentos não mudaram nada”, afirma.
Uma das frustrações dele ainda foi não conseguir fazer com que boa parte dos partidários enxergassem fora da bolha. Ele entrava em embates para admitir que a disputa era acirrada, que Bolsonaro não ganharia no primeiro turno, e que até poderia vencer no segundo, mas a diferença seria de 500 mil votos. Errou por 1,5 milhão para o outro lado.
“Muitas pessoas me chamavam de pessimista. Mas ganhei relevância porque acertei no primeiro turno. Vim até o fim dizendo que ‘Lula tem uma capilaridade de votos muito grande’ e que ‘não subestimem que a eleição vai se definir em uma vírgula'”, relata.
Quando viu, durante a apuração, que Bolsonaro não abriu mais de 1 milhão de votos em Minas Gerais, começou a preparar a família para a derrota. Por isso, com o resultado adverso, orientou os filhos a irem para a escola e parabenizarem os partidários do futuro presidente pela vitória.