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A Pedra de Tué

No Jardim Guanabara de alguns anos atrás existia (e existe ainda) uma pedra que era meio que “mística para os místicos”, meio que “poética para os poetas”, meio que “romântica para os românticos”, e até meio que “gótica para os góticos”.

Era a famosa Pedra de Tuéde três ou quatro metros de altura, que ficava (fica) nas proximidades da escola Aristides Hamad Timene, e se parecia uma montanha para as crianças do bairro.

Quando se é pequeno tudo se agiganta e eu subia aquela rocha achando que estava escalando o Everest. E gritava para os demais: “O último a chegar é ‘mulher do padre’”.

Coisa de moleque buchudo.

E naquele tempo todos os moleques eram buchudos. Essa gurizada de hoje, criada com toddynho e danoninho, e que nunca “comeu uma castanhola” ou brincou de “matada”, vive uma infância muito diferente da nossa.

Tudo bem, cada época com seu charme e sua magia, e reconheço que o Harry Potter de hoje seria meu ídolo se ele já existisse na minha infância, e é claro que eu não vou discutir com uma criança dizendo para ela que os desenhos animados de Bob Esponja ou As Meninas Super Poderosas não são tão bons quanto os ThunderCats ou o Papa-Léguas, nem teimar que jogar Counter-Strike não é tão interessante quanto jogar “travinha” numa tarde de chuva, e muito menos vou dizer que ficar o dia todo em paqueras virtuais não chega nem perto da brincadeira do caí-no-poço, onde os meninos tinham namoricos reais com as menininhas do bairro.

Eu nunca soube por que a Pedra de Tué se chamava Pedra de Tué. Na minha infância existia uma brincadeira, vinda lá das bandas do oriente, trazida pelos “reis magros”, que dizia que o nome Pedra de Tué se deu por conta da famosa frase: “Pedro, “TU És’ pedra e sobre essa pedra edificarei minha igreja”. Pois é, diziam em tom de brincadeira que a Pedra de Tué fora batizada pelo próprio Jesus. É muita honra para uma pedrinha.

Como o progresso não respeita sentimentos, a Pedra de Tué fora escondida. Ela está lá ainda, mas “ocultada” pela explosão imobiliária. O profeta estava certo: “Nada de novo sob o Sol”. Sempre o velho progresso transformando árvores em guarda-roupa, transformando jacarés em sapatos, derrubando a serra para fazer paralelepípedos.

Todos nós temos uma canção psicológica para cantar, e a Pedra de Tué serve de refrão para muitas canções, pois foi parte da infância de muita gente, principalmente dos ex-alunos do Aristides e jogadores de pelada do bairro, pois ao lado da pedra ficava um campinho de futebol.

Eu sei que o bairro do Juá Doce não sabe das idiossincrasias do bairro do Jatobá, e vice-versa; sei que o Noé Trajano não sabe das particularidades do Jardim Guanabara, e “versa-vice”, no entanto, como diz aquela canção, “toda cidade é uma lenda”, e cada pessoa tem a sua historinha de vida ede saudades para contar.

E a minha já está sendo contada.

Wandecy Medeiros – wandecymedeiros@gmail.com

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