Início A prescrição do “potaciu” e o dia dos cornos (texto de Edson...

A prescrição do “potaciu” e o dia dos cornos (texto de Edson de França)

Compartilhe!

Constituíssemos nós um país mais sério e estaríamos a considerar certos episódios como inusitados. Algo que não passasse de uma piada bizarra ou mais um delirium infantis da senilidade pátria.

Somos um país de mais de 500 anos, em  eterna construção, e portador de cidadãos que insistem (às vezes sem nenhum esforço) em mostrar que não evoluímos nada e, definitivamente, não temos futuro algum. Nem salvação, como diria o papa.

Se, minimamente, o avanço civilizatório tivesse arranhado a superfície de capa de nação que exibimos por aí, não teríamos que acompanhar a reprodução ad-finitum de ações que beiram as sandices típicas da adolescência mais inconsequente.

Esta semana, duas bizarrices bem características nossas assaltaram o noticiário e, claro, ganharam repercussão nacional. Uma coisa que sabemos fazer bem é expor e rir de nossas mazelas, sem vergonha ou auto-censura alguma.

Lá pelas plagas cariocas, um falso médico é desmascarado após prescrever “potaciu” ao invés de potássio. Em Santa Rita, Paraíba, um legítimo representante do povo apresenta projeto para instituir o “Dia dos Cornos” no município.

O que temos em comum nos dois casos, além do aspecto risível? O abuso da ilegitimidade, óbvio, e a escandalosa insensatez.  Explico.

Temos um tendência contumaz, quase um decalque colado na alma brasilis, que nos impulsiona a querermos ter ou ser aquilo para o qual não nos preparamos, nem por talento, muito menos por formação.

De outro lado, quando nos é dada a oportunidade de sermos ou assumirmos determinada função/posição não sabemos bem qual o nosso papel e atribuições e, bem menos, o alcance de nossas proposições.

Pensando no Dr. Aleksandro Gueivara (sic), um “importado” português que, aqui instalado, entre outras coisas, aprendeu a reproduzir nosso apreço pelas coisas falsificadas. Porque não se passar por médico numa terra que os santifica, mesmo quando mal formados.

Ser homem da medicina é um sonho bem acalentado historicamente por aqui. Infeliz da família que não contasse, entre seus sucessores, com um médico, um padre e um engenheiro.

Mesmo para os médicos menos capacitados, a exibição de um diploma significa ser prático de uma profissão capaz de oferecer trabalho certo (no setor público), remuneração considerável (se bem que meio decadente ultimamente) e, sobretudo, status. Nos tempos sombrios que atravessamos, muitos outros afazeres entraram para esse rol de enrolões, um mix de formação discutível e luta pelos holofotes para celebridades.

Para o nosso desastroso personagem, o escorregão na língua é só um detalhe indicativo da imperícia vocabular de quem não tem formação. Desde as primeiras séries, um aspirante a médico deveria conviver o termo e, na faculdade, se a tiver frequentado, passou por overdoses de potássio para jamais esquecer a grafia.

Vamos ao caso do pândego e galhofeiro parlamentar mirim de Santa Rita. A cidade, enorme em extensão e segunda em arrecadação no estado, está longe de ser a mais estruturada ou generosa com seus cidadãos. Melhor, é uma cidade rica, concentradora de riqueza, excludente e muito dada aos ranços oligárquicos e coronelescos que marcam o nordeste, afora a corrupção endêmica e sequências de más administrações.

Claro que é também famosa por escândalos. Num dos últimos episódios, 11 vereadores foram presos na volta de Gramado/RS, após uma farra com diárias. Uma viagem de turismo puro, foi esfregada na cara da população como a participação de seus valorosos representantes em uma capacitação para parlamentares. Não quero nem imaginar o conteúdo programático.

O Dia dos Cornos é só mais o expediente de vereadores que não sabem bem o que estão a fazer nas casas legislativas. Segue a tradição protocolar do expediente desses representantes mirins. Na sequência,  propor nome de rua ou outro logradouro, cessão de título de cidadania e instituição de dias festivos.

Talvez, quem sabe, nosso inventivo vereador quisesse com seu histriônico projeto homenagear o Rei do Brega, o pernambucano Reginaldo Rossi ou o legítimo filho da terra, o cantor Maurício Reis, ambos falecidos.

Estrategicamente, entrementes, queira só instituir mais um dia de festa ou simplesmente inflamar os chifres cívicos da população. Ou seja,  rivalizar com a vizinha cidade de Bayeux que detém, por hora, o título informal de cidade dos cornos.

Aberta a guerra.

Brasil, mostra-me tua cara, tua língua, teus vícios, teus cornos!

Edson de França – edsondefranca@yahoo.com.br

Print Friendly, PDF & Email
Compartilhe!
Deixe seu comentário!