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Hanseníase (Lepra) é subdiagnosticada no Brasil

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Chamou-me a atenção à afirmação de um colega nosso, dizendo que a Lepra é “subdiagnosticada” no Brasil. Em decorrência disso, iremos escrever alguma coisa sobre este mal.

A Lepra é uma doença bacteriana de grande cronicidade e de baixa infecciosidade que ocorre no mundo todo.

O hospedeiro primário é o homem, no qual o agente causal Mycobacterium leprae se acumula, sobretudo na pele e nos nervos periféricos, levando a inúmeras lesões cutâneas e perda da condução nervosa. Podem ocorrer graves deformações, com perda de dedos e membros, as quais são o estigma dessa doença. As manifestações clínicas são ditadas, sobretudo pela capacidade do hospedeiro de criar uma resposta imunológica. Os pacientes que não conseguem gerar um ataque imunológico apresentam as lesões cutâneas disseminadas do estado lepromatoso, e os bacilos crescem de forma desenfreada. Em contrapartida, uma resposta imunológica de moderada a vigorosa leva às lesões cutâneas do tipo tuberculóide.

O tratamento/terapêutica com múltiplos fármacos leva a uma redução imediata dos microrganismos viáveis e da transmissibilidade, mas tais medicamentos precisam ser mantidos por longos períodos após o desaparecimento das lesões cutâneas e a redução da carga bacteriana.

Pouco se sabe de como o bacilo é transmitido de um indivíduo a outro. Esta falta de conhecimento está relacionada ao longo período de incubação.

As lesões localizadas da lepra tuberculóide e a distribuição generalizada da doença lepra lepromatosa estão de acordo com as possíveis vias de introdução do bacilo.

A inoculação do bacilo pode ser através de um ferimento, aparelho respiratório e aparelho gastrointestinal.

A incidência da doença num domicílio onde haja um indivíduo com lepra lepromatosa ou tuberculóide, pode ser até oito vezes maior que a da população em geral.

Pacientes com lesões na mucosa nasal eliminam grande número de microorganismos, e estes bacilos isolados de secreção nasal apresentam viabilidade por até 10 dias.

A transmissão dessa doença, a partir de uma mãe infectada, para um filho, não é rara, e deve ser levada em consideração. A experiência dos clínicos indica que a transmissão acontece somente após anos de exposição, e, por isso, é pouco provável que exista contágio numa enfermaria ou ambiente hospitalar.

A lepra ocorre no mundo todo e em indivíduos de todas as idades. A incidência é maior nos homens do que nas mulheres.

O número mundial de casos de lepra está estimado em mais de 15 milhões, e a maior incidência é na Ásia e na África, seguidas pelas Américas Central e do Sul e Oceania. A maioria dos casos de lepra é encontrada em áreas tropicais, mas pode ocorrer também nos climas frios (Tibete, Nepal, Coréias do Norte e do Sul e Sibéria).

A natureza da doença varia muito. Nos países africanos e asiáticos predomina a Lepra Tuberculóide; já no Brasil e na Venezuela predomina a Lepra Lepromatosa.

Segundo a Sociedade Brasileira de Hanseníase, os trabalhos para a identificação de casos e para que o contágio permaneça sob controle, vêm sendo dificultados pela falta de serviços de atenção básica à saúde, ensino nas universidades e capacitação dos profissionais da área de saúde.

Diversos fatores contribuem para a subnotificação no Brasil, inclusive a má formação médica nas escolas.

Para a conscientização sobre a doença, a Sociedade Brasileira de Hanseníase teve uma campanha no último janeiro: TODOS CONTRA A HANSENÍASE. O JANEIRO ROXO # TODOSCONTRAAHANSENÍASE reforça e forma parcerias com diversas entidades e empresas para a divulgação e conscientização.

A hanseníase continua presente em grande parte do mundo.

O Brasil, mesmo com a falta de diagnósticos, considerando somente os casos notificados, ocupa o segundo lugar no ranking, logo após a Índia, em número de infectados pela doença, com 11,6% dos registros mundiais, percentual este considerado excessivo, levando em conta que possui menos de 3% da população mundial.

Durante todo ano a Sociedade Brasileira de Hanseníase realiza ações de capacitação para profissionais de saúde, principalmente médicos, com treinamentos teóricos/práticos, em diversas cidades do país.

A campanha da Sociedade Brasileira de Hanseníase alerta que pessoas idosas estão mais propensas a serem transmissoras para crianças que estão aos seus cuidados ou em companhia por mais tempo. Áreas rurais e mais pobres do Brasil tendem a ter altos índices de hanseníase e podemos constatar isso nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste.

O Rio Grande do Sul, onde a hanseníase encontra-se em níveis muito baixos, atualmente é o estado da federação onde há o maior percentual de pessoas incapacitadas pela doença, o que pode ser explicado pelo diagnóstico tardio, com desmobilização das ações de identificação em decorrência da crença de que a doença havia sido controlada na região.

Aproximadamente, 90% da população têm a defesa natural contra a hanseníase e os infectados podem demorar muitos anos para apresentar os sintomas, muitas vezes quando a hanseníase já se encontra em um estágio de médio para avançado. Se o profissional médico que fizer o exame não estiver preparado para uma correta identificação, poderá confundi-la como consequência de outras doenças como o diabetes, que também pode evoluir com dormência nas mãos e pés.

Assim que a doença for diagnosticada, familiares e pessoas de convívio devem ter acompanhamento médico e realizar o exame dermatológico, a forma mais precisa para se detectar a doença.

A aplicação da vacina BCG é recomendada nos contatos intradomiciliares sem presença de sinais e sintomas de hanseníase no momento da avaliação, de acordo com a história vacinal dos indivíduos.

A BCG não é uma vacina específica para este agravo, mas ajudará a conter as formas mais graves da hanseníase.

O tratamento da hanseníase tem a duração de um ano e é doado pela Fundação Novartis e pela Fundação Nippon.

Recentemente, o Ministério da Saúde propôs diminuir o período de tratamento da hanseníase para seis meses.

Segundo o presidente da Sociedade Brasileira de Hanseníase, não há evidências científicas suficientes que comprovem a eficácia de um esquema curto de tratamento para todos os pacientes, por isso é difícil compreender as razões para discutir a utilização de um novo esquema de tratamento, com menos tempo, porém com as mesmas drogas.

Era isso que tinha a escrever.

 

Doutor Cadmo Wanderley  – cadmowanderley@hotmail.com

 

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