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Hipátia de Alexandria, a mulher que viveu pela ciência e morreu pela ignorância

Em 1977, as Nações Unidas reconheceram o dia 8 de março como “Dia Internacional da Mulher”. É uma data que celebra a luta das mulheres pelas igualdades de direitos e condições de trabalho. Mas 8 de março já era adotado como o dia da mulher desde 1917 na Rússia, quando cerca de 90 mil operárias protestaram contra as más condições de trabalho, a fome e a participação russa na guerra. Seis anos antes, também em 8 de março de 1911, trabalhadoras de uma fábrica têxtil de Nova York, declararam greve em protesto pelas más condições de trabalho. 129 mulheres foram mortas nos eventos que se sucederam a essa declaração. Há uma controvérsia sobre como isso ocorreu, mas segundo Victória Sal em seu livro “Dicionário Ideológico Feminista”, durante um dos protestos, todas as saídas da fábrica foram fechadas e o prédio foi incendiado, matando carbonizadas as mulheres que ocupavam o local.

Caros leitores a história que vou contar hoje fala de uma mulher que fez a diferença no seu tempo, mas como sempre sofreu e infelizmente morreu por conta da ignorância e do preconceito, em um mesmo 8 de março, mas no ano de 415. A história é triste e confesso que relutei em escrever a respeito, porque ela é polêmica e meu ponto de vista pode ser mal interpretado. Entretanto acho que se essa história fosse sempre lembrada, talvez ela não se repitisse tanto como no caso de Nova York em 1911.

Conto aqui a história de Hipátia de Alexandria, que na sua época foi uma das mulheres mais influentes no Egito. Era uma cientista que trabalhava na Biblioteca de Alexandria, que era a maior fonte de conhecimento de todo mundo. Lá estavam armazenados a grande maioria de tudo aquilo que já havia sido escrito pelo homem, em qualquer área do conhecimento e da literatura.

Hipátia era matemática, astrônoma, médica e diretora da escola de filosofia neoplatônica em Alexandria. Um currículo de fazer inveja a qualquer um. Em uma época em que as mulheres viviam à sombra de seus maridos, Hipátia, apesar de muito bonita e de possuir uma grande quantidade de pretendentes, preferia se dedicar aos seus estudos e seu trabalho. Tinha o perfil de uma mulher feminista e independente, uma revolução para a sociedade machista da época. Mas seu pensamento progressista conflitava diretamente com um poder crescente naquela época.

Alexandria era, há tempos, governada por Roma e Hipátia tinha grande proximidade de Orestes, o Governador Romano do Egito. Entretanto, a vida de Orestes no poder não era nada fácil. O mundo passava por transformações com a Igreja Católica expandindo seu poder e tentando eliminar a influência e cultura pagãs. No Egito, seu representante maior era Cirilo, o Bispo de Alexandria e seu poder, por diversas vezes, conflitava com os poderes do Governador Orestes. Os cristãos do Egito, seguidores de Cirilo, tinham um histórico de conflitos contra os judeus, pagãos e contra as autoridades do Egito, inclusive quase vitimando o Governador Orestes.

Cirilo tinha grande desprezo por Hipátia, além dos motivos políticos, ele a considerava um símbolo do paganismo, por sua dedicação ao trabalho e à Ciência. Mas além de estudar muito, Hipátia também ensinava, tinha muitos discípulos que vinham de várias partes do mundo para aprender com ela. Seu local de trabalho, a Biblioteca de Alexandria, maior fonte do conhecimento humano de todo mundo, era considerado pela Igreja como um templo do paganismo. E isso incomodava muito a Cirilo. Segundo o historiador Sócrates de Constantinopla, Cirilo acreditava que ela estava competindo com o cristianismo, levando para longe de Cristo homenagens que pertenciam a ele. Ela estaria roubando de Deus os seus direitos e devia cair.

Todos esses fatos, faziam de Alexandria do início do Século V, uma verdadeira panela de pressão. E no ano de 415, essa panela começou a estourar.

O historiador Sócrates conta que, na tarde de 8 de março de 415, quando voltava do Museu de Alexandria, Hipátia foi atacada em plena rua, arrancada de sua carruagem por uma multidão de cristãos enfurecidos. Ela foi arrastada pelas ruas da cidade até uma igreja, onde foi violentada, teve suas roupas rasgadas e sua carne arrancada dos ossos por conchas afiadas. Depois de morta, seu corpo despedaçado foi queimado fora dos limites da cidade e todos os seus trabalhos, destruídos.

Morte da filósofa Hipátia, em Alexandria – Créditos: Louis Figuier

 

Isto aconteceu pouco tempo depois de Orestes ter ordenado a execução de um monge cristão, que havia atacado o Governador a pedradas. A execução deste monge enfureceu o Bispo Cirilo e seus correligionários. Não se sabe ao certo sobre um possível envolvimento de Cirilo na morte de Hipátia. Mas depois desse episódio, Orestes desistiu de sua disputa com Cirilo e abandonou Alexandria.
Os assassinos de Hipátia jamais responderam por esse crime. A Biblioteca de Alexandria foi destruída e junto com ela, grande parte o conhecimento acumulado pela humanidade por séculos. Cirilo seguiu ampliando seu poder e sua influência no mundo cristão. Sempre foi exaltado pela Igreja. Depois de sua morte, 30 anos depois, Cirilo foi santificado. Hoje é conhecido por todos como “São Cirilo” e talvez você tenha um “santinho” dele aí na sua casa.
São Cirilo de Alexandria – Créditos José Luiz Bernardes Ribeiro
Quero enfatizar que não conto essa história para questionar fé, religião ou a igreja. Estou apenas expondo fatos que contam a história triste dessa mulher fantástica. Hipátia foi uma mulher muito a frente do seu tempo. Sua história de superação dos paradigmas da época poderiam ter influenciado o mundo a abandonar seus preconceitos e seu machismo. Poderia ter nos levado a um outro patamar científico e de valorização do conhecimento. Entretanto, ela foi morta pelo mesmo preconceito e ignorância que ainda hoje vitima mulheres em todo o mundo.

Atenciosamente,

Marcelo Zurita – (83) 99926-1152
APA – Associação Paraibana de Astronomia
BRAMON – Rede Brasileira de Observação de Meteoros
Asteroid Day Brasil – Coordenação Regional Nordeste
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