Início No Sertão da Paraíba o encontro que nos aproxima das estrelas

No Sertão da Paraíba o encontro que nos aproxima das estrelas

O Casarão do Jabre - Foto: Allysson Macário

No final de semana entre 20 e 22 de outubro desse ano, ocorreu em Matureia-PB, o 5° EPA! Encontro Paraibano de Astrofotografia. O evento, que já se estabelece no calendário anual do município e do estado, foi criado para atender uma demanda crescente na Paraíba e que pouca gente sabe que existe. Mas o que é a astrofotografia e por que ela atraí tanta gente?

[Foto oficial do V EPA! – Foto: Caio Silva]

A astrofotografia é um tipo especial de fotografia que utiliza uma série de técnicas de aquisição e processamento de imagens visando o registro de temas astronômicos como Lua, planetas, constelações, nebulosas e galáxias. Tal definição, em palavras, não representa em nada a beleza de tais registros. A complexidade do universo a nossa volta nos fornece uma infinidade de cenários que são verdadeiras obras de arte e estão todas lá, ocultas sobre nossas cabeças esperando para serem fotografadas.

As estrelas sempre causaram admiração e fascínio à humanidade. E isso está em seu DNA, em seu instinto. Foi provavelmente observando as estrelas que o homem se desenvolveu e se estruturou em sociedades. Elas eram para os primeiros grupos humanos, a orientação em suas jornadas migratórias. Mais tarde, quando o homem percebeu que poderia prever as estações do ano observando as estrelas, pôde se estabelecer em comunidades, cultivando e armazenando seus alimentos. A partir dessas comunidades, formaram-se as civilizações e a astronomia seguiu orientando os povos a contar o tempo a se deslocar sobre o globo e inclusive para provar que a Terra era um globo. A evolução da humanidade está intimamente ligada às estrelas e por isso, até hoje, sentimos certo fascínio ao contemplar um céu estrelado ou uma astrofotografia que releva detalhes deste céu.

 

Praticar a Astrofotografia é como saborear um bom vinho. Fechado em sua garrafa escura mal podemos sentir seu aroma e sequer imaginar seu sabor. Da mesma forma é o céu, com uma beleza tênue, ofuscada pelas luzes das cidades que insistem em nos cercar. Mas quando vamos para um local afastado das grandes cidades e apagamos as luzes que nos ofuscam, já podemos sentir o aroma do Universo, como o vinho escorrendo para uma taça, mostrando suas cores e seus sabores. E usando câmeras fotográficas e as técnicas corretas, podemos enxergar bem além disso. Podemos perceber os vermelhos das nebulosas de gás ionizado, o azul das jovens estrelas e das nebulosas de reflexão, o amarelo das estrelas mais velhas e o negro das nebulosas de poeira. Podemos ver galáxias distantes milhões de anos-luz da Terra e crateras na nossa vizinha cósmica, a Lua. A Astrofotografia nos permite perceber os mais tênues sabores do universo, e cada detalhe amplificado em uma fotografia revelam informações que nos ajudam a contar um pouco da história do cosmos. A cada foto do céu, estamos provando um distinto “buquê” das diversas variedades de sabores que compõem o universo.

[Grande Nuvem de Magalhães – Foto: Elton Dantas]
[Constelação de Órion com suas nebulosas impossíveis de serem vistas a olho nu. Ao centro as chamadas “Três Marias” – Foto: Renato Bandeira]

Assim como o vinho, a Astrofotografia é algo que vicia. Mas não é um vício ruim, porque é um vício que nos gera uma necessidade de aprimoramento nas técnicas e principalmente de conhecimento sobre aquilo que se fotografa. Durante o 5° EPA! não foram poucos os iniciantes na prática que se surpreenderam ao saber que aquelas manchas que apareciam em sua fotografia eram galáxias periféricas à Via Láctea, percebida por Fernão de Magalhães enquanto circundava a Terra pela primeira vez no início do século 16. Eram as Pequena e Grande Nuvens de Magalhães. E a sensação indescritível ao perceber que sua foto registrava a Galáxia de Andrômeda, distante 2,5 milhões de anos-luz de nós. Essas pequenas satisfações são sentidas a cada fotografia registrada e elas nos motivam a aprimorar as técnicas e a conhecer mais sobre o universo.

[Grande e Pequena Nuvens de Magalhães – Foto: Alex Costa]

Outra afirmação recorrente durante o encontro: nós não sabemos nada sobre o universo. E essa afirmação, por mais exagerada que possa parecer, é uma aproximação muito precisa do que é a realidade da humanidade. Quanto mais longe do nosso planeta voltamos nossa vista e nossa atenção, ficamos mais cientes do quanto sabemos pouco a respeito do universo. A grande maioria das estrelas registradas em nossas fotografias sequer tem um nome, são apenas uma sequência de números em um catálogo celeste. Imaginar que existem planetas orbitando a maioria das 400 bilhões de estrelas da nossa galáxia e cada um desses planetas com uma história, uma geologia, talvez uma atmosfera… Imaginar que em alguns deles podem haver estruturas de vida primárias e em outros, formas de vida complexas, talvez inteligentes. Mas ao mesmo tempo saber que nós mal iniciamos a exploração dos planetas do nosso sistema solar. Saber que sabemos muito pouco ou quase nada sobre o universo é algo assustador, mas que torna a astronomia ainda mais fascinante e mais desafiadora. E em um encontro como este, existem excelentes oportunidades para compartilhar o pouco conhecimento que temos sobre o universo.

Uma das formas de criar astrofotografias diferenciadas, como uma visão única do momento registrado pelo fotógrafo, é a composição com paisagens terrestres. Isso abre um leque enorme de opções, principalmente em ambientes ricos em paisagens bucólicas e naturais como no Sertão Nordestino e no Pico do Jabre. Um cacto, uma árvore, um lajedo, uma casa abandonada, enfim, qualquer bela paisagem pode ser enriquecida pelo céu maravilhoso que encontramos em nosso Sertão. Para favorecer esse tipo de composição, são oferecidos durante o encontro, trilhas noturnas para que os participantes possam desfrutar e fotografar algumas das belas paisagens da região tendo o céu estrelado como plano de fundo. Isso faz com que muitas das fotografias produzidas durante o Encontro Paraibano de Astrofotografia sejam reconhecidas nacionalmente como registros únicos sendo até mesmo premiadas em alguns concursos.

[Trilha noturna para a Pedra do Caboclo]
[Pedra do Caboclo e Pico do Jabre ao fundo – Foto: Renato Bandeira]
[Trilha de estrelas no Casarão do Jabre]
[Paisagem sertaneja com a Via Láctea ao fundo – Foto: David Freitas]
[O Casarão do Jabre – Foto: Allysson Macário]
[Via Láctea no alto do Pico do Jabre – Foto: Caio Silva]

Imagino que estes sejam os principais motivos que levam todo ano um público cada vez maior para o Encontro Paraibano de Astrofotografia. Alia-se a isso o fato de encontrarmos no Casarão do Jabre um ambiente acolhedor, típico do Sertão Nordestino. Simples, mas com toda a estrutura necessária para a prática da astrofotografia.

E para quem acompanha o encontro ano a ano, pode perceber a evolução dos trabalhos de seus participantes. Tudo isso possibilitado pela troca de experiência promovida durante o evento e também pela rede de contatos que se forma lá. O intercâmbio entre os participantes não se limita ao encontro. Na verdade ele nasce no encontro e se estende por todo ano. Alguns dos que começaram na astrofotografia nos primeiros EPA!s, já estão hoje auxiliando os novos adeptos desta prática.

E assim a Astrofotografia, a Astronomia e a ciência como um todo é propagada nos Encontros Paraibanos de Astrofotografia. Proporcionando aos seus participantes uma experiência única de contato com a natureza, de troca de informações sobre astronomia, e principalmente, apresentando ao público uma forma diferente de contemplar e registrar o universo que nos rodeia. O EPA! nos aproxima das estrelas.

E esta é a minha visão resumida do que foi o 5° EPA!. Em uma próxima postagem falarei sobre a programação social paralela que foi realizada durante esse encontro. Adianto que nessa programação paralela, nós levamos as estrelas para as crianças de Matureia!

Atenciosamente,

Marcelo Zurita – (83) 99926-1152
 APA – Associação Paraibana de Astronomia
BRAMON – Rede Brasileira de Observação de Meteoros
Asteroid Day Brasil – Coordenação Regional Nordeste
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