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O Ano do Corvo

Quando cruzei o Cabo da Boa Esperança me lembrei de um conselho do professor Calebe Balaque: Que a partir dos “cinquenta”, para disciplinar a leitura, fizéssemos uma lista dos escritores que queríamos ler durante o ano.

Fiz diferente: elegi um escritor para cada ano, assim teria a oportunidade de conhecer toda a obra dos grandes escritores da humanidade durante os últimos anos do resto de minha vida.

O tempo que teria para realizar a tarefa deixei a cargo da misericórdia de Deus. Ele decidiria a quantidade de escritores que eu deveria ler a partir daquele momento. Mas claro que tomei minhas precauções. Cuidei da alimentação, reduzi drasticamente o uso de bebida alcoólica, me matriculei numa academia de ginástica e fiz uma lista com quase cinquenta nomes de escritores famosos que coloquei cuidadosamente debaixo do crucifixo de madeira. Sei que ninguém engana a Deus, mas comecei a leitura pelos ateus e agnósticos deixando os doutores da Igreja para o final.

Dois mil e nove foi “O Ano de Tolstói” um dos maiores escritores da humanidade. Iniciei a leitura por sua obra póstuma: A novela “Padre Sérgio” teve um final frustrante, sem a envergadura da trama inteligente do Conde Liev Nikoláievitch, mas claro que isso não tira o mérito da obra. A cena da bela divorciada Mákovkina tentando o padre eremita na sua choupana e o machado decepando o dedo para evitar a tentação é de um realismo impressionante.  Já Khadji Murát foi escrito com o sangue e a alma russa. Boris Schnaiderman registra que “não foi por acaso que Eisenstein chamou a atenção para o que havia de cinematográfico em Tolstói antes da existência do cinema”. Enfim “A Morte de Ivan Ilitch” é a constatação da genialidade do escritor. O Conde descreve o retrato fiel “da indiferença quase hostil que os vivos sentem pelos moribundos”.

No livro “O Diabo e Outras Histórias” me surpreendeu o conto “Kholstomér – A História de um Cavalo”. O aristocrata sempre viveu na “Iásnaia Poliana” e era um profundo conhecedor da vida camponesa. Certa vez Turguiêniev, o grande romancista e dramaturgo russo, ouvindo o enredo ainda não escrito da história, perguntou a Tolstói:

– “Algum dia você já foi cavalo? ”.

Depois de reler as grandes obras de Tolstói: “Ana Karenina” e “Guerra e Paz”, encerrei o primeiro escritor da extensa lista.

No início do mês de dezembro de 2009, como fazemos todos os anos, seguimos para cidade de Natal, cada ano é uma cidade diferente, para confraternização dos sócios da Associação dos Engenheiros da Cagepa. No domingo depois de caminhar pela praia, tomar banho de piscina e jogar conversa fora, deixei a família no shopping e voltei ao hotel para leitura do delicioso romance da escritora Jeanette Rozsas. Estava me preparando para iniciar as leituras do ano de 2010 e precisava conhecer a vida intrigante do novo escritor que iria conviver comigo durante o próximo ano.

O livro que devorei naquela tarde natalense era “Kafka e a Marca do Corvo” e o meu companheiro de grande caminhada no ano de 2010 foi o escritor tcheco Franz Kafka.

O austríaco naturalizado brasileiro, Otto Maria Carpeaux, foi quem divulgou a obra de Kafka no Brasil. Conta no seu livro “Reflexo e Realidade” que no ano de 1921, em Berlim, teve um rápido contado com o autor de “A Metamorfose”. Certo domingo foi apresentado a um “rapaz franzino, magro, pálido e taciturno”. Não compreendeu bem o nome do moço e perguntou a um amigo que lhe respondeu:

– “É de Praga. Publicou uns contos que ninguém entende. Não tem importância”.

Depois de muito tempo da morte de Kafka, Otto Maria Carpeaux foi à editora Die Brucke, de Berlim, para receber do editor a quantia de cento e trinta marcos pelas traduções que tinha feito. O Editor saiu com a mão na cabeça e vendo Carpeaux com um exemplar do romance “O Processo” na mão, despachou:

– “Pagar não posso, querido, mas se você quiser, pode levar, em vez de pagamento, esse exemplar e, se quiser a tiragem toda. O Max Brond, que teima em considerar gênio um amigo dele, já falecido, me forçou a editar esse romance danado. Estamos falidos. Não vendi nem três exemplares. Se você quiser, pode levar a tiragem toda. Não vale nada”.

Carpeaux deu meia volta e levou o exemplar do livro que hoje se encontra na Biblioteca Municipal Mario de Andrade. No mundo todo não deve existir mais do que cinco exemplares da primeira edição, são uma valiosa raridade.

Kafka em tcheco é corvo e a cidade que ele nasceu é Praga.

 

Parahyba do Norte, 03.07.2018

 

J.M.Victor 

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