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O Aterrorizante Experimento de Milgram

Você se considera uma pessoa civilizada? Seria capaz de fazer mal a uma pessoa inocente?

Em certa tarde, provocado por um amigo psicólogo, pesquisei sobre um experimento científico de um americano chamado Stanley Milgram. Ele tinha um fascínio pelo comportamento humano, em especial, pelo perigo do comportamento de grupo e da obediência à autoridade.

No dia a dia de nossa convivência em sociedade, muitas vezes nos colocamos em situações de fragilidade. Quando vamos a um barbeiro, por exemplo, expomos nosso pescoço a uma lâmina afiada nas mãos de uma pessoa que talvez nem conheçamos. Curiosamente, não sentimos medo, mesmo estando em uma situação extremamente vulnerável. O que nos protege e o que nos dá segurança, é um dos nossos instintos básicos para sobrevivência em sociedade: a civilidade. Jamais imaginamos que nossa vida está em risco, porque confiamos na civilidade do barbeiro e jamais passa pela cabeça dele fazer mal, porque em seu instinto, sabe que precisa se comportar civilizadamente para fazer parte da sociedade. Ainda assim, recomendo evitar discutir religião, política ou futebol com o barbeiro enquanto ele lhe faz a barba. 🙂

Dessa forma, espera-se que uma pessoa comum haja sempre dentro dos limites da civilidade quando inserida em uma sociedade. Entretanto, se essa pessoa se sentir ameaçada, esses limites tendem a ser extrapolados dependendo do nível da ameaça. Mas os casos mais extremos não seguem essa lógica, e uma em especial corroía a mente de Milgram: o que levaria os soldados alemães a torturar e assassinar os judeus nos campos de concentração da Segunda Guerra Mundial?

A procura de uma resposta para essa questão, em julho de 1961, ele iniciou uma série de experimentos bastante controversos, e que revelaram que a natureza do comportamento humano pode ser aterrorizante.

Milgram estava interessado em saber o quão facilmente pessoas comuns poderiam ser influenciadas a cometer atrocidades com outras pessoas. A partir de um anúncio no jornal, ele recrutou 40 homens, que receberam US$ 4,50 para participar do estudo. Durante o experimento, dois participantes, eram colocados na condição de aluno e professor. O aluno ficava sozinho em uma sala respondendo perguntas feitas pelo professor. Este, em outra sala, controlava uma máquina que aplicava choques elétricos no aluno a cada resposta errada. Inicialmente, os choques eram brandos (15 Volts) mas a medida em que o aluno errava as respostas, os choques ficavam mais intensos até o nível extremamente severo de 450 Volts. Só que a máquina era falsa e o aluno, um ator. O único a ser testado nesse experimento era o professor.

Na outra sala, junto ao professor, havia também outro ator fazendo o papel do pesquisador conduzindo o experimento. Além de fazer suas anotações, ele orientava o professor a aplicar os choques cada vez mais elevados. E a cada choque, um gravador reproduzia gritos de dor e apelos para que o teste fosse encerrado.

Milgram sabia que a obediência era uma característica essencial para a vida em sociedade, mas em algum momento da experiência, a obediência iria confrontar o princípio da civilidade. Pretendia-se saber até que ponto a obediência à autoridade poderia levar uma pessoa a contrariar seus princípios de civilidade?

A medida que os gritos ficavam mais intensos, todos os participantes do experimento demonstraram o conflito entre a obediência e a civilidade. E sempre que se mostravam incomodados, o pesquisador orientava que continuassem. E sabe o que é mais aterrorizante? Todos eles continuavam. Todos eles seguiram com os choques pelo menos até o nível de 300 Volts e 2/3 dos participantes chegaram até o nível máximo de 450 Volts. Quando aplicado o nível máximo, invés dos gritos de dor, o participante ouvia apenas um profundo e ensurdecedor silêncio. O pesquisador agradecia e ele saia da sala acreditando que havia matado o aluno.

O experimento foi tão constrangedor e conflitante para todos os envolvidos, que nunca mais voltou a ser realizado. Entretanto, as lições aprendidas com ele, nos ajudaram a compreender melhor a natureza do comportamento humano. Infelizmente Milgram não salvou a vida de nenhum judeu nem a alma de nenhum alemão. Mas mostrou que em determinadas condições, nosso senso de obediência pode superar nossos princípios, e isso pode fazer com que pessoas comuns, aparentemente de bem, tomem decisões erradas e cometam atos terríveis, até mesmo atrocidades.

E não se trata apenas de obediência a uma pessoa. Às vezes é obediência a um grupo, a uma causa, a uma missão que recebemos ou tomamos para nós. E é aí que mora o perigo.

A medida que nos envolvemos nesse sistema de obediência, a tendência é suprimirmos parte de nossa racionalidade e civilidade de forma a facilitar o cumprimento da missão. Provavelmente trazemos isso em nosso instinto natural de sobrevivência. Mas hoje, na condição de seres evoluídos, podemos e devemos nos controlar para evitar que esse instinto nos leve a extrapolar os princípios da civilidade.

Os participantes do experimento de Milgram, suprimiram seu remorso em um primeiro momento. Por estarem seguindo as orientações do pesquisador, julgavam ser dele a responsabilidade pela vida do aluno. Da mesma forma, a maioria dos soldados alemães da Segunda Guerra, se eximiam de culpa, uma vez que estavam apenas cumprindo ordens. Assim como se justificou também o Coronel Ustra, responsabilizado pela tortura e morte de vários brasileiros durante os anos de chumbo da ditadura.

Hoje, as vésperas de uma eleição que promete ser bastante disputada, alcançando um nível inédito de polarização, tenho visto e sentido uma hostilidade muito grande entre os eleitores, já beirando a irracionalidade. Podemos identificar neste cenário alguns dos elementos que reproduziriam o experimento de Milgram. E é por isso que acho importante lembrar que precisamos estar atentos para agirmos sempre racionalmente e com civilidade. Porque por mais nobre que seja a sua missão, e por mais amor que tenha à sua nação, nada disso é maior que a nossa civilidade. Somos o resultado de 3,5 bilhões de anos de evolução e precisamos agir como tal.

(A última frase é de autoria desconhecida e foi uma das melhores coisas que li na internet essa semana)

Marcelo Zurita – (83) 99926-1152 – marcelozurita@gmail.com
APA – Associação Paraibana de Astronomia
BRAMON – Rede Brasileira de Observação de Meteoros
Asteroid Day Brasil – Coordenação Regional Nordeste
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