Início O legado afetivo dos ofícios “inúteis”

O legado afetivo dos ofícios “inúteis”

Virou piada entre os frequentadores da redação curiosa peça curricular publicada em um catálogo artístico da cidade. É que o caprichoso redator, além do pecado de se incluir entre os nomes citados, inclusive abrindo o desfile de artistas constantes na mostra impressa, ainda esmerou-se em produzir um elaborado currículo em que descrevia suas habilidades e atividades exercidas ao longo da vida.

A peça primava, vamos dizer, pela minucia zelosa das informações. Os dados biográficos e profissionais reuniam, feito uma fieira de piabas, as vitórias, o empenho, a disciplina, a ecleticidade e a polivalência do escriba. Acrescidas, claro, da disposição e do espirito empreendedor da personagem. Além disso, as dores, as frustrações, as traições e as “vinganças brutais e cruéis” que sofrera durante a vida.

Só no capítulo das atividades profissionais, empenho de nosso personagem foi distribuído em afazeres que iam de funcionário público, de federal a municipal, a vendedor de picolés e prestamista. Intensa vida para tantas funções, vale dizer, em sua maioria, inúteis. Inúteis, digo, no sentido de que todos nós, de uma forma ou de outra, construímos nossa vida em cima de atividades fundamentadas e duradouras, enquanto, uma boa parte do tempo, enquanto sonhamos com um mínimo de estabilidade e afirmação, é distribuído em colocações sazonais, marginais, inseguras e, no cômputo geral, de uma inutilidade tocante. Se bem, que até elas servem ou são indispensáveis na dinâmica da existência.

Não cheguei ao requinte de nosso personagem, nem me atreveria a enumerar o que já andei fazendo pela vida em um currículo formal de trajetória “artística”. Há outros confessionários para isso, como uma biografia formal (lá quando as chamas dos cemitérios já quiser devorar meus talentos), ou em minha própria produção artística, em versos ou nos meus crônicos escritos. No mais, qual minha área “artística” de atuação, minha formação e trajetória acadêmica, uma obra ou outra (se houver) e a divulgação dos canais aonde eles podem aquilatar e apedrejar minha verve.

Pelo lado útil do inútil, já fui serralheiro, artífice de objetos de decoração, vendedor de dindins, criador de preás e coelhos, recenseador do IBGE, bolsista de Curso Técnico, alfabetizador solidário, vendedor de livros, gibis e discos (depois de lidos, ouvidos e curtidos à vontade, claro), atendente de agencia fraqueada dos Correios. Todas atividades que me renderam trocados para comprar pirulito Zorro, balas Xaxá, pastéis de vento, pirulito de tábua, cavaco chinês, doses de cachaça barata, de Zinebra ou vinho de Jurubeba e, vez ou outra, algum pacote de fubá para complementar a janta lá de casa.

Dessas ocupações ficaram talvez só o orgulho de contá-las, relembrá-las, rir delas e de mim. São partes afetivas do anedotário pessoal e, ademais, intransferível. Cada um de nós pode contar historias similares, dividí-las em capítulos, valorizar os qualificativos envolvidos, as partes mais brilhantes e esconder as partes mais escabrosas. Podemos até afirmar que de algumas delas retiramos elementos que anexamos ao modus operandi da nossa profissão derradeira.

Delas, a frio, só restaram a experiência pessoal e pouquíssimo (mais pouquíssimo mesmo) resíduo profissional. Algumas delas foram muito mais ocupações de tempo ocioso que qualquer outra coisa. Numas foi preciso utilizar das minhas armas de empreendedor. Atentem que evitei a palavra “tino”. Noutras, fui instrumento útil para causas até nobres, mas os ganhos e os vínculos frágeis não serviram para qualifica-las como atividades dignas de figurar em um currículo que se preze. Tá certo que depois, já na vida dita profissional, muitas vezes fui tratado como mão de obra famélica, necessitada e, portanto, baratissima, mas essa é outra estória para a história.

Derradeiras Abaixo

E como cantava aquele velho e econômico cantor popular: Amanhã de manhã vou pedir um café pra nós dois. Pequeno.

por Edson de França

 

 

 

 

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