Início O telegrama persistente (texto de Edson de França)

O telegrama persistente (texto de Edson de França)

Compartilhe!

Acesso o tube para ouvir algum som que enfeite o dia. Pesco lá no vasto menu uma canção aleatória. Patsy Cline, “Crazy”, cai bem. Assim como John Denver, ”Take me home, country roads”; Gilberto Gil, “Aqui e agora”; “Alagados”, by Xangai e Quinteto da Paraíba ou Poliana Rezende, “Boa Noite, tchau”. A primeira escolha é a do prazer imediato. Aquela harmonia que nos persegue. Aquele verso que fica na cabeça e pede para ser ouvido, tocado e, se possível, cantado junto com a voz master que o aparelho emite afinadíssima em contraste com os arremessos vocais da alma ouvinte.  Os vizinhos se desesperam.

Depois dessa primeira música, o troço endoida e já não se é dono de nada naquele território. Não sei  se há uma predefinição para o que acontece depois. Um algoritmo que  se guie pelos meus gostos estéticos, meus cacoetes de estilo ou, simplesmente, de forma autóctone, queira me chatear. Sou péssimo em filosofar sobre a lógica dos aplicativos e não tenho a mente para definir e antecipar as TPM ‘s tecnológicas. Às vezes, na sequência, vem uma música do mesmo autor. Na maioria, porém, o bicho dá um mergulho de cabeça e resgata uma faixa, sempre a mesma, que nunca fez parte das minhas escolhas.

Nos últimos dias o danado resolveu me dar uma overdose sonora de “Telegrama”, canção do maranhense Zeca Baleiro. Mal termina a terceira ou quarta música da sequência aleatória e já vem o “Estava triste…tristinho”. Boa música, não tem como negar. Poética atraente, sedutora. Mas, o over de qualquer coisa é dose. Mesmo o que é prazeroso quando encharca as veias torna-se dolorido, torturante, não queremos mais que faça parte de nós. Que  nos assimile e faça parte de nós.

Gosto muito do poeta maranhense. Trânsito tranquilo por toda sua obra. A sensação é sempre de estar num passeio público observando e colhendo impressões do mundo. Descrevendo tipos, sentimentos e estados humanos. Deliciando-se de sabores e brincando com as palavras “boas de cantar”. O telegrama que o tube me traz reiteradamente, no entanto, bate na porta, adentra a casa e corta os punhos da rede. Vou ao chão. Me levanto com alguma revolta.

É que do repertório do bardo, justamente o Telegrama virou a canção queridinha dos cantores de barzinho. E olhe que a obra é extensa e instigante. Ela – a cancao- entrou pro mesmíssimo rol que frequentam hits como “Pingos de Amor (Paulo Diniz), hoje já meio esquecida; “Chão de Giz” e Frevo Mulher (Zé Ramalho) “Anunciação”, “La belle de jour” (Alceu Valença), “Garotos” (Leoni) e Primavera (Tim Maia). Todo tocador de violão e cantor da noite tem alguma dessas, quando não todas, como cartas na manga para chamar a atenção da plateia indiferente em algum momento.

Alguns bares que frequentei, de forma até contumaz, apresentavam em algum momento da longa noite um tocador/cantante. Em um deles, haviam atrações a partir da quarta-feira ou quinta-feira, não lembro bem. A cada dia, havia um dono da noite, em todos eles a mesma marca: “Estava triste, tristinho, mas triste que não sei das quantas magrela na passarela. e lá ia a primeira parte da música e seus tons meio que desesperança, desespero, solidão e agonia.

Mas logo o palco ardia, os olhos do artista se incendiavam e a canção assumia tons pândegos. “Era você de Aracaju ou do Alabama dizendo nego sinta-se feliz…”. Faz dez anos dessa terapia telegramática. De lá pra cá passei por outros bares. Em cada um deles, não precisa um frequentador  pedir. Se há um cantor da noite, uma hora ou outra, o Telegrama assaltará os teus ouvidos. Sei não, acho que meu tube entende e sabe mais dos meus cardápios musicais pregressos que eu mesmo. De compulsoriedade, contudo, sei que ele entende e bem demais.

Edson de França – edsondefranca@yahoo.com.br

Print Friendly, PDF & Email
Compartilhe!
Deixe seu comentário!