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Simpson versus Flanders

Os personagens Homer e Ned travam uma batalha particular em muitos episódios da série animada americana The Simpsons. Na série, uma paródia satírica do modo de vida da classe média dos Estados Unidos, a cultura, a sociedade, a televisão e muitos outros aspectos da condição humana recebem um tratamento acidamente jocoso. Os dois personagens em questão, então, representam duas formas de encarar a vida, dois polos que se chocam em virtude de suas crenças e posicionamentos.

A um deles podemos chamar de cidadão modelo, politicamente correto, temente a Deus e cumpridor das leis. Este é o senhor protestante Nedward “Ned” Flanders, um dedicado e cuidadoso pai. O outro, Homer Jay Simpson, é o cliente ideal dos fabricantes de cerveja. Carretas de irresponsabilidade, desrespeito (até com a própria família), maneirismo, oportunismo ingênuo e desobediência total a cartilha dos bons comportamentos, da adoração do deus único, do respeito aos símbolos nacionais e aos bastiões sociais. São dois polos antagônicos, portanto, inconciliáveis.

Os dois, cada um ao seu modo, representam, a meu ver, mais que uma caricatura dos comportamentos dos indivíduos mundo a fora. Se a caricatura tem por método o exagero das características pessoais, os Simpsons demonstram em cada um de seus personagens, as idiossincrasias e as performances sociais comuns do ser humano contemporâneo. Notadamente, estão aí envolvidos os aspectos de personalidade, formação e marca individual e intransferível da leitura que se faz da sociedade, suas instituições, símbolos e pares.

No Brasil desses tempos bicudos que atravessamos é normal vermos manifestar-se Homers e Neds a torto e a direito. Estamos sendo exigidos a nos posicionar e, mesmo nas redes sociais – aquelas que como zona de protesto “requer o tempo e o esforço de um passeio de escada rolante”, nas palavras do poeta Bráulio Tavares – cada cidadão se sente meio impelido e livre para expor suas convicções. Claro que essa exposição deixa de fora “as orelhas de burro”, essa miscelânea de ignorância, desconhecimento, ingenuidade, boa e má fé e arrogância. Expõe, sobretudo, as porções Homer e Ned de cada entidade.

A impressão que dá é que há uma fabricação em série de Neds Flanders, em regime full time, reproduzindo-os feito moscas. Saídos da linha de montagem, eles voejam pelo âmbito social, pousam com suas patinhas em todos os lugares e, ademais, distribuem sebosos beijos com suas probóscides, contaminando, claro, todo o tecido social.

Caricaturando, penso que o ícone da mosca identifica os nossos Flanders, porque são eles a figura de uma abjeta contradição. A máquina que os produz, ironicamente, fez uma fusão esdrúxula entre Homer e Ned e acabou gerando uma criatura híbrida, uma inversão brasileira. Nossos Flanders são Neds apenas na camada mais superficial, sobretudo no aspecto religioso e dos “bons costumes”, bem lá no fundo, escondem sua persona real: um Homer Simpson elevado ao cubo em seus maneirismos, malandragens, mesquinhezas, irresponsabilidade, desinteresse e total aversão ao pensamento coletivo, a não ser quando há alguma vantagem a auferir com o ato.

por Edson de França – edsondefranca@yahoo.com.br

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