Quantos aqui tem mais de 30 anos? Quantos podem se lembrar de algo que ocorreu há 30 anos? Quem sabe tenha uma foto de 30 anos atrás? É difícil. Naquela época as coisas não eram tão simples como são hoje. Até mesmo uma câmera fotográfica exigia um bom investimento e uma técnica apurada para manipulá-la. Estávamos vivendo a retomada da democracia no Brasil em meio a uma turbulenta crise econômica, com poupanças confiscadas e nem me lembro mais qual era a moeda vigente por aqui. No mundo, a guerra fria chegava ao fim e a Alemanha, na verdade eram duas. A Oriental ruindo, e a Ocidental, bi-campeão mundial de futebol. O Brasil ainda era tri. Tinham coisas boas também, como o Ayrton Senna correndo na McLaren e o BBB ainda não existia.
Assim era uma placa de carro no Brasil em 1990.
Mas a história que quero contar hoje é de uma foto, feita há exatos 30 anos, no dia 14 de fevereiro de 1990. Foi uma espécie de “selfie” do Planeta Terra. Em um único clique, toda a humanidade foi registrada em um pequeno e pálido ponto azul.

Era uma época marcante para a Astronomia. Havíamos conquistado a Lua, tínhamos ônibus espaciais e estávamos explorando outros mundos. As nossas principais viajantes, as Voyager 1 e 2, já haviam visitados os planetas mais distantes de nosso Sistema Solar.

Mas 10 anos antes, a missão da Voyager-1 havia sido abreviada. Ela poderia seguir até Plutão, mas outra sonda, a Pioneer-11 descobriu uma atmosfera gasosa em Titã, uma das luas de Saturno. Então, a trajetória da Voyager-1 foi alterada para fazer uma aproximação de Titã, mas com essa aproximação, sua trajetória sofreu uma deflexão. A sonda foi lançada então, para fora do plano da eclíptica (plano por onde orbitam os planetas do Sistema Solar). Assim a missão da Voyager-1 foi encerrada de forma prematura.Foi então que entrou na história um astrônomo americano chamado Carl Sagan, tido por muitos, como o maior divulgador da ciência que já existiu e que a maioria das pessoas o conhecem do seriado Cosmos, da BBC.

Carl Sagan
Sagan fez à NASA um pedido estranho: ele propôs que a Voyager fosse comandada para virar-se para a Terra e fizesse uma foto de nosso planeta. Era sabido que essa foto não teria nenhum valor científico, uma vez que daquela distância, a Terra estaria muito pequena, sem nenhum detalhe perceptível. Entretanto, ela nos mostraria onde estamos e qual a real dimensão de nosso mundo diante da imensidão do universo.

Dessa forma, no dia 14 de fevereiro de 1990, 30 anos atrás, a Voyager-1 olhou pela última vez em nossa direção e fez essa foto. A Terra, nosso planeta, aparece aí apenas como um pequeno ponto, chamado por Sagan de Pálido Ponto Azul.

Esta tão singela visão da Terra, mereceu uma profunda reflexão de Sagan. Reflexão essa que ele fez questão de compartilhar com toda a humanidade, e que eu transcrevo aqui. Quem quiser, pode também ouvir as sábias palavras de Carl Sagan através desse vídeo, narrado por Lauriston Trindade: https://youtu.be/6oEpF_J-GsE

Pálido Ponto Azul
por Carl Sagan

A espaçonave estava bem longe de casa. Eu pensei que seria uma boa ideia, logo depois de Saturno, fazer ela dar uma última olhada em direção de casa. Desde Saturno, a Terra apareceria muito pequena para a Voyager apanhar qualquer detalhe: nosso planeta seria apenas um ponto de luz, um “pixel” solitário. Dificilmente distinguível de muitos outros pontos de luz que a Voyager avistaria: planetas vizinhos, sóis distantes. Mas, justamente por causa dessa imprecisão de nosso mundo assim revelado… valeria a pena ter tal fotografia.

Já havia sido bem entendido por cientistas e filósofos da antiguidade clássica, que, a Terra era um mero ponto em um vasto cosmos circundante. Mas ninguém jamais a tinha visto assim. Aqui estava nossa primeira chance. E talvez a nossa última, nas próximas décadas.

Então, aqui está — um mosaico quadriculado estendido em cima dos planetas, e um fundo pontilhado de estrelas distantes. Por causa do reflexo da luz do sol na espaçonave, a Terra parece estar apoiada em um raio de sol, como se houvesse alguma importância especial para esse pequeno mundo — mas é apenas um acidente de geometria e ótica. Não há nenhum sinal de humanos nessa foto. Nem nossas modificações da superfície da Terra, nem nossas máquinas, nem nós mesmos. Desse ponto de vista, nossa obsessão com o nacionalismo não parece em evidencia. Nós somos muito pequenos. Na escala dos mundos, humanos são irrelevantes — uma fina película de vida num obscuro e solitário torrão de rocha e metal.

Olhem de novo esse ponto. É aqui, é a nossa casa, somos nós. Nele, todos a quem ama, todos a quem conhece, qualquer um sobre quem você ouviu falar, cada ser humano que já existiu, viveram as suas vidas. O conjunto da nossa alegria e nosso sofrimento, milhares de religiões, ideologias e doutrinas econômicas confiantes, cada caçador e coletor, cada herói e covarde, cada criador e destruidor da civilização, cada rei e camponês, cada jovem casal de namorados, cada mãe e pai, criança cheia de esperança, inventor e explorador, cada professor de ética, cada político corrupto, cada “superestrela”, cada “líder supremo”, cada santo e pecador na história da nossa espécie viveu ali, em um grão de poeira suspenso num raio de sol.

A Terra é um cenário muito pequeno numa vasta arena cósmica. Pense nos rios de sangue derramados por todos aqueles generais e imperadores, para que, na sua glória e triunfo, pudessem ser senhores momentâneos de uma fração de um ponto. Pense nas crueldades sem fim infligidas pelos moradores de um canto deste pixel aos praticamente indistinguíveis moradores de algum outro canto, quão frequentes seus desentendimentos, quão ávidos de matar uns aos outros, quão veementes os seus ódios.

As nossas posturas, a nossa suposta auto importância, a ilusão de termos qualquer posição de privilégio no Universo, são desafiadas por este pontinho de luz pálida. O nosso planeta é um grão solitário na imensa escuridão cósmica que nos cerca. Na nossa obscuridade, em toda esta vastidão, não há indícios de que vá chegar ajuda de outro lugar para nos salvar de nós próprios.

A Terra é o único mundo conhecido, até hoje, que abriga vida. Não há outro lugar, pelo menos no futuro próximo, para onde a nossa espécie possa emigrar. Visitar, sim. Assentar-se, ainda não. Gostemos ou não, a Terra é onde temos de ficar por enquanto.

Já foi dito que astronomia é uma experiência de humildade e criadora de caráter. Não há, talvez, melhor demonstração da tola presunção humana do que esta imagem distante do nosso minúsculo mundo. Para mim, ela enfatiza a nossa responsabilidade de tratarmos melhor uns aos outros, e de preservar e proteger o único lar que nós conhecemos, o pálido ponto azul.

Veja o vídeo:

Marcelo Zurita – (83) 99926-1152
APA – Associação Paraibana de Astronomia
BRAMON – Rede Brasileira de Observação de Meteoros
Asteroid Day Brasil – Coordenação Regional Nordeste
SAB – Sociedade Astronômica Brasileira