Crônica da Quinta

TEM DÓ.

“A música expressa o que não pode ser dito em palavras mas não pode permanecer em silêncio” – Victor Hugo.

Me aproprio da frase do poeta e dramaturgo francês para ser alicerce para esta crônica do cotidiano.

Das tantas histórias de dor, sofrimento e luto que temos experimentado neste tempo pandêmico nada me tocou tão forte como uma cena que tomou o noticiário televisivo e se espalhou pela internet e pelas redes sociais.

Era um instrumento e um musicista, até aí algo comum. Contudo, a cena tétrica de um jovem rapaz, com idade segunda a reportagem de 20 anos me fez fitar os olhos na TV.

Aquele jovem músico que aparentava bem íntimo do instrumento poderia estar tocando em qualquer Orquestra, tirando do violino o som mais angelical.

A cena não era de alegria, de aplausos, do néctar e encantamento oriundos da beleza instrumental, na verdade se tratava de uma dolorosa e singular despedida.

Tomado pela emoção de tocar não para uma grande plateia que  certamente ovacionaria o jovem músico e sua arte, o local não era  um magnífico Teatro e sim um Cemitério. Era na verdade um filho tocando um sofrível toque de dor enquanto o pálido corpo de sua mãe, jazia inerte a descer à sepultura.

A mãe do jovem rapaz, uma também jovem senhora de 46 anos, mais uma vítima da Covid-19, um número a mais na estatística, na curva crescente da morte no Brasil.

Quanta dor ao ver o jovem violinista caiu de joelhos ao chão, a emoção lhe tomara as forças, as cordas do violino estavam intactas e, infelizmente o cordão umbilical entre filho e mãe, laços indestrutíveis momentaneamente desfeitos ao som fúnebre, lavados em lágrimas de intenso pranto.

Por alguns instantes me pus a pensar de como o jovem violinista teria sido o orgulho de sua genitora e de que o mesmo instrumento por vezes embalado momentos de tanta felicidade no seio de uma família e, no entanto agora apenas testemunhava uma vítima que o vírus levou.

Quantos filhos mais terão que inundar o solo com suas lágrimas incontidas, quantas mães obrigadas a se despedir de seus rebentos num caixão lacrado, quantos  pais terão que partir sem ouvir o último adeus, quantas famílias destroçadas, tocando e cantando no peito aberto a música da morte, num tom tenebroso rápido, numa partitura de uma nota só: tem Dó.

Carlos Ferreira da Silva – Acadêmico de Pedagogia – UNIFIP – carlosfsilva2010@gmail.com