Crônica da Quinta
Náufrago da Solidão
Quando criança, aprendi a fazer um frágil barquinho de papel; daquela embarcação eu fui, ao mesmo tempo, capitão e tripulante.
Das coisas de quando se é criança, esta foi uma experiência que me marcou de forma severa e nem imaginava que anos mais tarde a imagem mexeria comigo, novamente.
A inocência foi vivida na infância ao tentar fazer navegar o barquinho de papel; e, hoje, décadas mais tarde, foi uma obra de arte que me fez reviver a lembrança em novas perspectivas.
Ao observar a obra de arte do catarinense, Susano Correia, (que é licenciado em Artes e atualmente morando em São Paulo) fui surpreendido pela beleza da tela: “Homem a bordo de sua própria solidão”.
Na tela em óleo, o artista com sua sensibilidade retrata um sentimento tão presente na alma humana — a solidão.
Muitos poetas já usaram a solidão em seus versos; os boêmios buscam nela o alento, e outros se afogam como que em um naufrágio interior.
O barquinho de papel de minha infância, agora, tem um tripulante solitário, a bordo de sua própria sina — mesmo que aparentemente esteja rodeado por uma multidão que, sinceramente, de nada vale pois é apática a sua dor.
Uma realidade dos tempos pós-modernos cria cada vez mais solitários, homens sozinhos, tripulantes doídos na alma; padecendo aos males da mente, seja a ansiedade, seja a depressão — os espinhos do coração da pessoa humana.
O homem a bordo de sua própria solidão é metáfora e síntese de uma sociedade que busca sobreviver nas tempestades tristes que são tantas vezes plantadas e regadas com suas próprias lágrimas.
Se outrora, o barquinho de papel tinha que vencer a fragilidade do papel quando posto dentro d’água, agora, são as ondas angustiadas da “adultice” que afogam a humanidade.
O olhar do homem no barquinho de papel exala sofrimento; segurado apenas por um leme no formato de vara, sem remo e sem rumo no mar da vida em meio às procelas da existência, que tentam afundar o barco da dor e da insensibilidade, que deriva na escuridão noturna.
Juro que quase perdi o sono contemplando a obra e impactado pela verdade que ela transmite.
O barquinho não navegava tal qual aquele de minha juventude; porventura perduraria a impossibilidade de navegar de um e de outrem, ou estaria apenas delirando em minha sensibilidade confrontada pela sensibilidade do artista.
Na infância, tudo tem a intensidade de uma onda que vem e que logo se vai; mas na vida adulta nossos medos e angústias são ventanias que teimam em balançar o barco da solidão.
A liberdade artística não deu nome ao homem eternizado para que todos pudessem tomar para si a nomenclatura, porém se pintado a personagem da tela em óleo de cor negra eu tomaria posse e abusaria da liberdade poética batizando-o com meu próprio nome, náufrago de minha solidão quase perene.
Carlos Ferreira da Silva – Acadêmico de Pedagogia – UNIFIP – carlossilva@pedag.fiponline.edu.br






