Em meus dias de criança tive a companhia do rádio. Manhãs, tardes e noites atravessadas pelas ondas do aparelho. O instrumento falador era para aquele menino o portal possível para um universo mágico, pontuado por música e realidades distantes. Devo minha nordestinidade ao meio. Manhãs e fins de dia marcados indelevelmente pelos acordes do forró e serenos crepúsculos tocados, claro, pelas cordas da viola e os versos dos inspiradíssimos repentes.
Devo algum amor pela notícia, pela informação e pelos mundos do espetáculo ao mesmo espectro. Convivi diariamente com a atração da antena política, com a crônica policial apavorante e até com a ficção novelesca. A crônica policial contanto, aprendi depois, mais que um thriller da realidade, era um gênero que se aproximava da ficção. Os personagens monstruosos que inquietavam as noites infantes, pós audição do Dramas e Comédias da cidade, eram, algumas vezes, ficcionais. Eram fruto da imaginação de redatores e atendiam à mentalidade da mídia da época, em prol do bom posicionamento na preferência dos ouvintes.
Era preciso cativar e fidelizar a audiência, assim como o é hoje em dia. Faz parte dos ardis da mídia pela sobrevivência, pela submissão de corações e mentes. Mesmo que às custas da desinformação e da aspersão do medo ou da promoção do espetacularismo desiformante entre a coletividade. Resumo da ópera: cresci em meio a algumas façanhas construídas e mentiras propagadas aos lotes – ficções, enfim – radiofônicas. Salvou-se a música, talvez. Mas só talvez, afinal, até nesse campo é possível cultivarmos mitos e apreciarmos o subproduto simplesmente pelo bombardeio e pela indução.
Mas voltemos à ficção policialesca. Ouvi de um antigo radialista campinense que, praquelas bandas, radialistas desenvolveram um mito (lenda urbana, como dizem atualmente) sobre um bode. Martelaram tanto a ideia que, após uns dias, havia gente ligando pra emissora dizendo ter visto o tal bicho em sua região. Comprada uma ideia, fique certo, a população embarca, igualzinho a histeria coletiva contada nos livros de comunicação sobre a intervenção rádio-teatral do cineasta Orson Welles sobre a mente de uma cidade (New Jersey, em 1938) com uma suposta invasão alienígena, enredo tirado diretamente de “Guerra dos Mundos”, ficção do escritor ingles Herbert George Wells.
Por cá, onde o sol nasce primeiro, a ciência adiantou-se em desmentir um mito de um tal Pedro (ou Pêdo) Corredor. O personagem foi o maior estuprador volante dessas paragens na narrativa da mídia. Se houvesse um capítulo dos recordes mundiais por quantidade e sequência enlouquecida, quase sem descanso, de abusos praticados, Pêdo encimaria a lista pela profusão, escabrosidade e proximidade entre os casos.
Tomando-se a população da época, ficcionalmente direi, que 7 em cada 10 mulheres tiveram o desprazer de encontrar-se com o tarado. Dessas, ao menos 5, foram estupradas pelo maníaco. O pavor, porém, ultrapassava os 100%. Até os varões espadaúdos andavam com medo de ceder (serem penetrados, sei lá) os seus honoríficos círculos de honra ao bandido Corredor. A ciência, após o abate do homem, veio a comprovar, porém, que pela constituição físico genital do indivíduo, era impossível aquele cometer um estupro. Fico com a ciência. E, se esses casos entram para os anais do estudo da comunicação, por outro dá margem às desconfianças sobre a mídia total.
O mundo mudou. O velho rádio – apesar de brasa adormecida – continua quente. Outras mídias surgiram. A mentira, porém, se expandiu ganhando até uma nomenclatura própria, os fake news, que são só uma faceta desse expediente e manipulação e arranjos ficcionais.. Dia desses, uma notícia sobre uma criança que perdeu uma figurinha fazendo apelo nas redes pela recuperação da mesma levantou suspeitas. É fácil criar fatos e vendê-los. É relativamente fácil criar personagens ou situações e repassá-los como a mais pura realidade . Não sei se a frustração do moleque é real ou não, mas numa guerra pela aura de celebridade que atravessamos tenho, no mínimo,o direito de não acreditar.
Já caí, monetariamente falando, em golpes de internet e, sei, a não ser por notícias a que realmente tenhamos condições de checar ou desmentir, que caio a cada dia nesses gatilhos. Por isso, treta entre celebridades (atuais e aspirantes) e outras curiosidades menores já não me interessam. Só aceito hoje se a treta das celebridades render um cadáver todo azunhado e que a ciência (o meticuloso CSI) possa provar que o esmalte das zunhadas pertencia a uma Juma qualquer com as unhas bem felinas e assinada por esmalterista tal e qual, que só ele usa determinada marca e padronagem de design (Nail art).
Edson de França






