Roberto Carlos (Foto: reprodução)

O rei cruzou as terras paraibanas. Um cometa. Precisamente às 21 horas, dia 13 de outubro, reza a lenda, ele subiu ao palco da Pedra do Reino, para cumprir mais um compromisso de sua longa trajetória artística. Precisão, ritualística e generosas porções de enfado são dignos das realezas longevas. Não fui, nem ouvi comentários sobre a performance real. Deve ter lotado o teatro, creio. Com certeza, mais do mesmo. Um show exclusivamente para os aficionados mais fiéis. Os sobreviventes.

Pouca (ou nenhuma) alusão, repercussão ou reverência midiática. Consequência, especulo, da logística e do marketing show business em nossos tempos. Não há mais necessidade da massificação, via veículos de mídia populares, para compor plateias espalhando outdoors e envelopando muros com reclames. Sobretudo no caso do “artista  que dispensa apresentações”. Por outro lado, tal fenômeno também incorpore outro traço até das urbes medianas, em cujas variedade de ofertas diversionais acaba eclipsando algumas presenças reais.

Por fim, talvez, o nível de interesse do público em geral pelo artista em cena. Carreiras artísticas, assim como acontece com os times de futebol, tem que ser renovadas para continuar gerando novidades e arregimentando novos adeptos. Creio que o rei não cumpriu essa regra. Só a título de exemplo, a maioria dos torcedores da minha geração, começaram a torcer lá por meados dos anos 70, provavelmente a mesma época em que o rei andava no auge da preferência popular.

De lá pra cá, as torcidas do futebol foram se renovando e caindo no gosto das novas gerações, arregimentando novos fanáticos pelas cores e escudos das equipes. O que aconteceu, então? Simples. O mundo do futebol, da arte e de outras façanhas humanas e sociais, traz a marca do dinamismo. Aumentar a galeria de títulos, no caso do futebol, é imprescindível para a manutenção do status. Uma mudança de repertório ou uma chacoalhada estilística que vise manter a presença e a importância na vida das pessoas é importante para o artista.

Nos dois casos, as estruturas precisam ser renovadas na base para manter-se presente no noticiário, ampliar fronteiras e conquistar corações, mantendo acesa a chama do “culto”. Por vezes, uma ação mínima serve para mover a máquina.  Não dá pra se viver de glórias ou êxitos antigos e datados. O rei é herdeiro dos tempos de hegemonia midiática sudestina: espaço generoso para música mediana brasileira, alçada aos píncaros da glória, e eclipse geral das cenas locais.

Atualmente, porém, a diversidade é um traço considerável das praças por onde estrelados do naipe “do ídolo da canção latino-americana” aportam. Há concorrência local, sim. Há multiplicidade de “vozes nacionais”, ecoando deus sabe por que canais.  Há vozes, poéticas e estéticas dissonantes. Discordantes, melhor dizendo, militantes ativos na composição de uma nova – sempre em ebulição – paisagem sonora.

O traço negativo desse panorama, apontam alguns (sobretudo quando lamentam a imperiosidade de certos estilos e a construção de alguns astros), é a descartabilidade e a impermanência. Música ligeira – e rasteira -, acusam, para consumo instantâneo e descompromissado com a “história” e com os “bons costumes”, pela ausência total de elos com a realidade gritante e apelo a determinados comportamentos socialmente incorretos, tipo a sexualidade escancarada e a pornofonia.

O rei está acima disso tudo, dizem os fãs. Vem de um tempo onde se cultuava a música de verdade, sem baixarias. Na verdade verdadeira, a carreira do rei pode ser dividida em algumas partes. Algumas felizes, outras decadentes. Isso é tema para outro escrito menos despretensioso. O título de “rei da juventude” deve-se à sua “real” presença na jovem guarda. Estilo de cantar e modo de viver esculpiram a figura do astro ideal no Brasil, a partir daquele movimento.

Muita gente quis ser Roberto, cantar como Roberto, viver a vida do Roberto, amar como amou Roberto. O rei influenciou os “bregas”, a quem particularmente adoro, mas que ocupam um nicho para onde se voltam olhar eivados de preconceitos. Noutra fase, postou-se como herdeiro legítimo da “era de ouro” da música popular. Cunhou uma marca romântica, imprimiu-as em suas canções, espalhou romantismo por todo o país, mas não promoveu a “chacoalhada” que o faria angariar fãs entre as novíssimas gerações.

No mais, faltou ao rei uma presença menos asséptica na vida nacional. Não há como discordar que seu estilo constitui um traço da cultura brasileira, contudo, ele em pessoa e sua arte não habita este país. É ocupante, sim, de uma nação chamada “jovem guarda” e suas degenerescências. Um asteroide errante, um B612, uma “terra do nunca”, com o mínimo contato com a terra. Submetido a contínuos processos de ablução – começando pelos dados biográficos -, o rei – e sua arte – perseguem a condição de mito. Mitos, por sua vez, tendem a ser cobertos pela poeira do tempo.

por Edson de França

Derradeiras abaixo: Candidato à presidência recebe comitiva de cantores sertanejos que declaram  apoio à sua reeleição. Tudo certo. A conversa, no entanto, gira em torno da defesa do agronegócio e de promessas de promoção do seu desenvolvimento, nenhuma para o setores da cultura ou pseudo cultural. Detalhe: todos fazendeiros. A música é só um produto de quinta, que eles vendem aos incautos em geral, via contratos sem licitação das prefeituras pasto afora.