Amadureci acompanhando a lenta agonia dos rios. À medida que a dupla “civilização e progresso”, e as demais excrescências dela, acostavam em nossas paragens, ia-se anunciando, a passos largos, a falência dos cursos de água. Breve, infalível, inexorável e trágico, dado o lapso temporal relativamente curto em relação aos milênios de evolução.

A equação desenvolvimento & superpopulação não faz bem algum aos ditos recursos naturais. Ela equivale ao binômio aniquilante que agrega em um só intento a exploração e as ações predatórias. A ideia de preservação é uma atitude relativamente recente. Não há dó, consciência ou moderação nas ações do chamado avanço ou “marcha do progresso”.

O Homem, como principal vetor e beneficiário das incursões “desenvolvimentistas”, é atingido em algum grau pelas mudanças ambientais. Não poderia ser diferente, seja para o bem ou para o mal.  O restante do habitat (fauna,  flora, os recursos hídricos, a atmosfera, o solo, o subsolo), por si, sob ação do ser humano, só experimenta condições de exaustão, degradação e definhamento.

De criança ouvia falar do Rio Gramame em belos e ricos dias, pela fala saudosa e cheia de referências da população ribeirinha que tirava dali o sustento e a água potável. Gerações inteiras cresceram em suas margens até que um dia viram seu paraíso ser ameaçado.

Também ouvi sendo incorporado a seus relatos a “fantasmagórica e ameaçadora” aparição da  espuma branca que descia a correnteza matando peixes e crustáceos, envenenando a água e atingindo a vegetação ciliar de uma tom mortiço. Sabiam todos que não era um fenômeno natural. Logo identificaram o responsável.

Uma fábrica de papel instalada próxima às nascentes era a “grande vilã”. Trazia consigo a ideia de desenvolvimento, por meio de empregos para a população, mas, amiúde, constituía uma verdadeira agressão orquestrada e irresponsável a um dos mananciais de abastecimento da cidade e fonte de subsistência de inúmeras comunidades.

João Pessoa é atravessada de leste a oeste pelo Rio Jaguaribe. Não cheguei à vida a tempo de vê-lo saudável. Quando comecei a atravessá-lo diariamente por dois pontos – vias de acesso a UFPB pela Beira Rio e Castelo Branco -, ele já não parecia nada saudável. A cor escura de suas águas e a ocupação de suas margens por moradias, davam sinais de que nada ia bem. Com tendência a piorar em escala inimaginável até o dia da decretação oficial da morte do rio.

Ao que consta os rios citados ainda não capitularam. Há neles uma certa resistência resignada, uma força natural. Sabem do seu destino final, mas ficam ali, olhos mansos, a esperar um segundo de consciência holística de seus algozes. As agressões, estas sim, parecem não arrefecer nem um milímetro, não a deixam em paz. O mal avança, limita a consciência, corrói a responsabilidade e embota a sensação de pertencimento ao todo do universo.

Um rio intacto redimiria a sina dos homens. Pena que sejamos tão exageradamente “alopáticos” e desconsideremos que os recursos naturais sustentam, em essência, tudo aquilo a que chamamos de experiência de vida, meios de sobrevivência e conhecimento.

Edson de França, pessoense, jornalista, cronista e poeta.