Dizem os críticos de sociedade que o brasileiro médio apresenta uma imensa dificuldade de interpretação de textos. Estou com eles. A preguiça para o conhecimento, a pressa em assimilar mensagens e a “crendice militante” são bem nossos. O Brasil é marcado por essa mazela, até de boa fé.

Por vezes falta o cabedal cultural suficiente para sair de um texto tendo todas suas partes devidamente equacionadas. Que seja na ideia geral do escrito, nas partículas mínimas, no jogo de ideias que se complementam ou se excluem no corpo do texto, o certo é que há uma dificuldade de captar a verdadeira mensagem, o fulcro.

Trata-se de uma falha no modelo de formação educacional? Não sei. Acho também que tal discussão não pode ser restrita ao espaço de uma crônica. Ela envolve nuances e complexidades a serem discutidas em escritos de teor mais aprofundado e de viés acadêmico.

Contudo, não precisa se ir muito longe para detectar esse problema. É fato. O dantesco é verificar, infelizmente, que essa deficiência, algumas vezes, é estampada em “outdoor gigante” como troféu, orgulho, profissão de fé. De duas formas: seja pela ignorância, seja pela manipulação por parte de ladinos.

Uma pela “gente comum”, de letramento sofrível. Estes até são perdoáveis e ignorados. A outra, a irmã má, é terrenos de gente “má escolada”, ou pior, por “expertos”  individuais  que detectam nessa falha coletiva uma forma de espetacularização, desinformação e manipulação. Aqui é que entram em cena os mistificadores referidos no título do texto.

As disputas políticas sempre foram marcadas por ações físicas –  os atentados à vida, por exemplo – e pelo disparo de narrativas com o objetivo de aniquilar o oponente por meio de ataques a honra, questionamento de seus feitos e coisas do gênero. Ultimamente, a expressão “fake news” passou a designar parte desse último comportamento. Verdadeiras fábricas desse produto passaram a atuar, por meio da mentira e da deturpação, em nome de seus preferidos.

A título de exemplo, nas últimas eleições, momento em que a polaridade atingiu o ápice, deparei-me com o seguinte texto: “‘Joga pedra na Geni! Joga bosta na Geni!’. Quem disse isso não foi Fulaninho de Tal, foi Chico Buarque!”. Aqui de pronto identificamos “crime de interpretação”. Uma tirada capenga usada como manobra para mobilizar a massa contra o genial compositor, tão somente por este professar um posicionamento público favorável a correntes de esquerda.Talvez muitos consideram válida a manobra. Para mim ela tem caráter emburrecedor, tanto para o emitente, como para que a consumiu passivamente.

O maior crime, contudo, é a estratégia de tomar a parte pelo todo, ou seja, descontextualizar a fala. Quem conhece a canção e entendeu a sua narrativa sabe que, ao traçar a trajetória de uma figura (mulher? trans? lady boy?), o compositor denuncia o preconceito, a hipocrisia e o abuso sexual a que estão submetivmcas essas frágeis criaturas. A obra não as crítica e, muito menos, insula alguém a atirar pedras. Não é um libelo misógino/homofóbico como algumas frases de determinados políticos.

Um outro caso que me vem à mente aconteceu há alguns anos quando um provinciano apresentador usou do mesmo artifício para uma interpretação livre da música “Balada do Louco”, dos Mutantes. O meliante simplesmente pinçou a frase “se eu posso pensar que Deus sou eu” e a utilizou, durante quase todo o programa para discorrer sobre o ateísmo e a “pretensão” do homem “maior que Deus”.

Um ouvinte atento irá ver que na canção não há nada disso. Acredito até que o rapaz sabia mas, para o tipo, não existe algo mais importante que a audiência e a manipulação da mente incauta.

Noutro episódio dantesco, certo apresentador resolveu se debruçar sobre as mensagens subliminares teoricamente encontradas em gravações de vinil. De acordo com a lenda urbana, determinados artistas encravariam mensagens de adoração a seres das profundezas no corpo de determinadas canções. Para ouvi-las bastaria girar o disco em sentido anti-horário que a mensagem ficaria explícita.

Ora, por um disco, objeto rígido, arranhado por uma agulha rodado ao contrário, você ouve até a voz de Odim, das sereias de Odisseu, os gorgolejos da Medusa sendo decapitada e Zeus disputando o prêmio de melhor fantasia pro desfile da Unidos de Aesgard e dos Acadêmicos do Olimpo.

O ardil, enfatizava o moço, era utilizado por alguns artistas para obter sucesso. Fazia parte de um pacto, cujo teor se manifestaria em mantras de adoração escondidas em gravações. Isso redundaria, graciosamente, em sucesso na carreira. A Anunciação, de Alceu Valença, fazia parte do pacote, assim como músicas da Xuxa e Hotel California, do Eagles. A conclusão imediata é que o velho Belzebu achou na indústria da música uma ótima forma de estar presente e incólume, no meio das multidões, colhendo almas. Pelo menos era isso que o inteligentíssimo apresentador da “Hora do Sangue” queria dizer.

O Mundo seguiu, a indústria do vinil caducou e artistas continuam fazendo carreiras longevas e bem remuneradas, celebridades tem por aí a dar com pau, influencers, então, nem se fala. Ou seja, a colheita de almas nunca esteve tão prolífica

Mas, confesso, que restou aqui umas dúvidas sinceras: que método os artistas andam por aí usando atualmente para gravar as subliminares nas produções para as plataformas de streaming? Os projetos de resgate do vinil seriam para dar continuidade à prática? As mensagens se sofisticaram, atingindo outros padrões subliminares, por ora não identificadas? E os influencers, que eclodem do dia para a noite, com que elementos realizam seus pactos? Sei não. Pena que o objeto extrator das mensagens, a agulha de passadisco, conhecida como varinha de exorcismo, ficou no passado.

A falta de interpretação, sim, continua se expandindo feito epidemia e projeto em franca expansão.

Edson de França, pessoense, é jornalista, cronista e poeta.