Faz um tempo que ouvi reportagem sobre um caso inusitado de falsificação de pimenta do reino. Os gênios do mal misturavam ao tempero moído, pasmem, generosas porções de cimento. Sorte nossa é que o tempero, em seu processo de uso, é adicionado regradamente na comida, caso contrário seria instalado um verdadeiro canteiro de obras em nosso organismo. Mas, mesmo em pequenas doses, imagine a indigestão que uma trolada dessas pode provocar.

Hoje fico sabendo que até a semente in natura, adquirida ingenuamente no mercado, pode ser falsificada através da inserção de caroços de mamão entre os genuínos grãos. Ardis que seguem a mesma lógica ancestral da água que avoluma o leite. Este que, por sua vez, é parente direto do artifício que, popularmente, fazia a riqueza dos vendeiros nas biroscas para onde acorriam os sedentos “pés inchados”.

Menos mal é que a água, dependendo da procedência, é potencialmente causadora imediata de poucos males. Descaracteriza, claro, o produto, dessacraliza o seu “rusário”, avoluma-o, engorda o lucro do vendedor, mas, a princípio, não mata a incauta presa.

Desde pequeno ouvi dizer que a salsicha – embutido do qual o povo, nós no caso, nem por documentário do Canal do Boi, sabe como ou foi que é feito – seria composto de papelão temperado. Pela vida afora, vamos nos acostumando a esses boatos que, de certa forma, constituem um nível elevado  de desconfiança sobre os processos de produção de alimentos, assim como dos potenciais adulterações em sua composição.

Chega-me porém agora, via redes sociais, outro caso de adição de material estranho à uma matéria prima. Desta vez, o açaí vê-se “engordado” por rolos de papel higiênico. Contundente pro caso é um produto queridinho dos adeptos da vida saudável sendo reduzido a uma matéria inócua em termos energéticos . Sim, este mesmo segmento do açaí já sofre há dias com as falsificações de Creatinas e Wheys. Ao procurar ter uma vida saudável, ironicamente, o consumidor pode estar adquirindo justamente o contrário.

E assim seguem as defraudações. “Bebida com metanol, salsicha com madeira, camarão radioativo, café com vidro, queijo com Listeria: mundo vive com falta de segurança nos alimentos”, como trazia reportagem do Jornal Digital.  (https://jornaldigitaldobrasil.com.br/2025/10/denuncia-nao-e-so-bebidas-nao-denuncia-casos-graves-mostram-falhas-na-seguranca-alimentar-no-brasil-e-no-mundo/). Até no Azeite de Oliva há quadrilhas atuantes.

Cá entre nós, quando o consumidor de cachaça percebe qualquer mudança de paladar no líquido de sua apreciação, cospe fora. Não sem antes recorrer à explicação lógica e minimamente sóbria: “botaram água no mé”. Certeiro como dois mais dois. A oferta e a procura. A medida que o produto adquire grande aceitação popular, passa imediatamente a perder a qualidade dos primeiros barris. É impossível conservar a fidedignidade da fórmula original diante da alta demanda.

O alto consumo é o combustível da cobiça. Então, haja “volumosos” e aditivos para garantir a pulverização da marca e manter, em crescente, os níveis de consumo. De toda forma, as manobras expõem a fragilidade da produção alimentar, onde a má fé e o banditismo, podem gerar problemas que podem pôr em risco a vida de milhares de pessoas.

O termo segurança alimentar, utilizada comumente no sentido de falta de comida, aqui ganha um sentido muito mais amplo. Há  produtos disponíveis no mercado – para quem possa consumir, é  claro, mas qual a responsabilidade dos fabricantes de alimentos com seus consumidores? Há respeito e cuidado com a vida alheia? Qual o papel das agências fiscalizadoras nessa área? O sistema de rastreio é eficiente  ou apresenta fragilidades em algum ponto da cadeia?

O preço da adulteração é o desequilíbrio do ser na íntegra. Do corpo, da mente, da saúde integral, das economias pessoais e, finalmente, da confiança na lisura do mundo. Se as malandragens se estabelecem tão bem, criando até complexos industriais e redes clandestinas de adulteração, no mundo dos alimentos, imagine-se à beira de que precipício nos encontramos. E olhe que até aqui só falamos de produtos de alimentação.

Por Edson de França, pessoense, jornalista, cronista e poeta.