Aos 59 anos e 08 meses, segundo a contagem precisa registrada em Prontuário Hospitalar, uma quarta-feira, por volta das 9 horas, ingressei extraoficialmente no clube irrestrito dos idosos. Agora, aos olhos de uma boa parcela da população, eu era um “pré-velhinho” e candidato natural à rápida decrepitude e ao progressivo descompasso com as coisas de um mundo que, convenhamos, é hegemonicamente formatado para pessoas jovens.
A partir da patente conquistada, o destino do “novato na área”, eu no caso, seria a iminente dificuldade de deambular, a eclosão de doenças em série, as crises de memória, a nostalgia e a fatal dessintonia com a vida na terra, sobretudo, no contato com as gerações mais novas, as inovações tecnológicas, as novas idéias, as novas provocações musicais. Embora, nesses últimos campos, a decepção já se antecipe — afinal, o presente parece empenhado em repetir e desgastar o passado.
A vida contemporânea exige agilidades – propagam os apologistas do “sempre novo” – artigo exclusivamente facultado aos mais jovens. Exige também ambições, ideologia da prosperidade e progressismo ornado com ideias reacionárias. Até a sabedoria que, tradicionalmente, era um bastião da resistência senil, um distintivo dos velhos, anda a ser esfumado pela cultura líquida de nossos dias.
Foi durante uma visita a um nosocômio (um idoso tem que fazer valer o potencial arcaico de seu vocabulário, né não?) para consulta regular. Diligente, o funcionário da casa nem deixou que eu encostasse as digitais no terminal de consultas. Mediu-me da cabeça aos pés, examinou meu porte, aponevroses e adiposidades, mirou as rugas na lata, os cabelos gris e decidiu: é um senhor de fato.
Perguntou qual seria o especialista da vez, acessou a máquina e me presenteou com a senhinha com o rótulo pré concebido de “PREFERENCIAL”. Agradeci a prontidão do moço, também nem tão jovem, e segui em frente célere para a sala de espera.
Curiosamente, a data do ocorrido, 01/10/2025, coincide com o Dia Nacional do Idoso e Dia Internacional das Pessoas Idosas, está última uma celebração anual realizada em 1 de outubro desde 1991, tendo sido proclamada pela Assembleia Geral das Nações Unidas em 1990. Por nada não, mas acontecimentos na minha vida costumam coincidir com datas memoráveis.
Se muitas coisas no decorrer da vida, na minha por acaso, chegam atrasadas, o reconhecimento da idade chegou-me antecipadamente. Antes de constranger ou algo parecido, fez-me acirrar certas reflexões que desenvolvo desde bem mais jovem. Pelas calçadas por onde pisei, sempre identifiquei uma verdadeira pista de obstáculos, por exemplo.
Enquanto gastava energias juvenis, que parecem ilimitadas, por ruas enladeiradas e calçadas impossíveis, ou muito lisas ou muito altas, sem padrão algum, pensava no futuro e “tinha medo,”: como um velho consegue ir a padaria tranquilo se, para andar num piso razoavelmente plano, tem que disputar espaço com os automóveis que, notavelmente, parecem módulos autóctones, sem coração, e não tem respeito pelos pedestres.
Contudo, era dia do idoso e o presidente da ONU conceituou o papel dos idosos para o tempo em que vivemos. Disse Antônio Gutierres: “As pessoas idosas são agentes poderosos de mudança. suas vozes devem ser ouvidas na formulação de políticas, no combate à discriminação etária e na construção de sociedades inclusivas”.
Desconfio que essas palavras não ganham eco em alguns círculos. Para uma geração que acompanhou os altos e baixos de uma quadra de tempo e, praticamente, viu mais Revoluções por MInuto do que pôde absorver, sonhou e experimentou o fim das ilusões, viu heróis morrerem de overdose, aids ou abandono, a fala oficial é o reconhecimento de que os perigos estão por toda parte, nos acompanharam em cada fase, e exigem atenção.
Por mim, velho agora, transo bem com a tecnologia, não me assusto. Culturalmente, transito, e bem, pelas emergentes provocações culturais desse tempo. Musicalmente, então, meus velhos ouvidos são moderadamente jovens. Mergulho nas águas do passado sem medo de cair no canto das sereias de lá. Em resumo, sigo. Há limitações? Claro. Minhas ressacas não são iguais, elas dão eco na pressão arterial, nas cefaléias, nas dores corporais, nos batimentos de um coração vivido.
Só a títulos de conclusão, também era dia internacional da música. Só os deuses brincalhões para escolher tal data para antecipação de um debut. No mais, graças à vida que me tem dado tanto.
Edson de França, pessoense, é Jornalista, Cronista e Poeta






