Não irei chamar de linguagem. Evito assim ferir as suscetibilidades dos realmente entendidos em matéria de linguística e cultura em geral. Vou chamar de “forma de expressão” e cada um que aplique ao fenômeno a nomenclatura que seus conhecimentos permitirem.
O que posso dizer empiricamente é que “formas de expressão” são um marco de geração e, por isso mesmo, dinâmicas. Uma pessoa da faixa dos 60 anos, por exemplo, já passou por várias estações repletas de “modismos” na língua, na música, nos modos de trajar, na maneira de moldar o próprio corpo diante das “institucionalidades”, sejam duradouras ou circunstanciais.
As “formas de expressão” têm vida. Nascem, se desenvolvem, se esparramam mentes afora, sofrem metamorfoses durante o processo e, simplesmente, caducam dando lugar a novíssimas expressões que, da vida à morte, irão experimentar do mesmo processo. São eladas por um vocabulário próprio, um território, um cadinho cultural, uma penca de atitudes. Cada geração desenvolve a sua, aplicando sua liberdade sobre a velha “norma culta da língua” ou dos estilos “cristalizados” das artes e dos comportamentos em geral.
As formas de expressão são como“jeito de corpo”, cantado por Caetano.
“Sou celacanto do mar
Adolescendo solar
Não pensem que é um papo torto
É só um jeito de corpo
Não precisa ninguém me acompanhar”
Num exercício rápido de observação (leitura ou audição) do mundo que se descortina é possível identificar neologismos, ressignificação de termos, “maculação” de sentidos, encurtamento de palavras e todo um aparato de intervenções aleatórias. Um jeito de dançar, um jeito de entender, propor, fazer. É um mundo a um tempo sensual, provocativo, por vezes cru, terra; por vezes, psicodélico, interestelar. Um universo dialógico de inter-influências.
Toda essa ebulição não passa despercebida, claro, pelos educadores menos ortodoxos. Eis aí um campo vasto de possibilidades de comunicação com a geração “que está curtindo agora”.
O educador em todas as épocas foi a um tempo o professor (o lente, pela língua culta, o catedrático, o “cara” que lê), o mestre, o analista dos potenciais individuais e coletivos de uma geração, os segundos pais (ou no mínimo padrinhos), os profissionais que, por profissão, desenvolvem um trânsito com pessoas em processo de desenvolvimento cognitivo. Descontemos desse apanhado o adjetivo missão com o qual muitos querem qualificar o ofício.
Missão afina-se com a aura do missionário que é geralmente uma figura pouco dada ao diálogo, já que são impulsionados por dogmas de data imemorial. Educador não é missionário, ponto. Educador vive o momento, luta, insiste, adequa-se e está sempre em busca de elementos que venham reforçar sua pedagogia e sua didática. Elementos, portanto, oriundos daquela mescla de novas palavras, jeitos de corpo e musicalidade lhe cabem bem, são recursos da estética educativa.
Recebi dia desses uma ousadia em forma de produção musical da lavra do meu amigo Beto Pohlux. Beto é professor, antes de ser cantor e compositor. Melhor dizendo, educador, já que ele não repassa apenas o que tem para ensinar em termos das Ciências Biológicas, quer encarnar o exemplo, prenhe de reflexões sobre a vida, a condição humana, os ires e devires do seu próprio ofício. E é isso que ele acaba por tecer na canção “Saca, boy!” (https://youtu.be/X4fnGGmPpIA?si=WwdxH7uj_Rx0E-so).
Quando me refiro à tessitura, falo de recorrência ao ofício ancestral de tecer escolhendo o instrumento, as linhas, os pontos, o desenho final. Falo de excelência em busca da precisão. No caso da canção, da comunicabilidade imediata e eficiente com o público alvo. Aqui descemos outra vez ao domínio das “formas de expressões” geracionais. O educador que se preze não dispensa o seu potencial. Mesmo guardando sua reserva crítica, as absorve, as absolve, as compreende e, se possível, as incorpora ao seu cabedal de recursos. A canção “Saca, boy!” busca essa comunicação direta e vem da lavra de um educador.
Nela há uma mensagem de formação, um retrato desalentador da educação na atualidade, o uso desabusado de expressão da juventude de agora, a vestimenta de canção que capta a atenção. De acordo com um outro amigo, o rapper/regueiro Paulo Lima, artífice de projetos em conjunto como a banda Digzin (https://youtu.be/_5KI12Xi8AA?si=4_81kqSdCqIfT4lG) e voo solo como Plaza 83 (https://youtube.com/playlist?list=OLAK5uy_m8iXZVwCMCx2pZx1oitHLpI4HJzIi2nhw&si=yWSO9DSWCm4rKJuC) um raro exemplo de trap com mensagem positiva. Vindo eu a aprender, em ótima hora, que trap é uma variação do rap.
Diria eu, seguindo a avaliação ligeira de Paulo, que a canção traduz positividade e elenca-se processo de “formação”, no sentido de em captar uma situação específica (no caso, a de contribuir com a formação de uma geração. A mensagem subliminar quer dizer que essas expressões são importantes, mas é preciso atentar para um veio permanente de retroalimentação desses processos: ler. É lendo que se descortina o mundo.
É lendo que se entra no âmago do pensamento universal e no de sua própria geração. É atentando para o ato da leitura, tal qual alertava Paulo Freire (A importância do ato de ler: em três artigos que se completam. São Paulo. Autores associados. Cortez.1989), que o educador//professor/artista Beto Pohlux compõe e executa a canção, demarcando um território dialógico de troca de aprendizados, construções de conhecimento, alertas professorais, mais preocupação e lição pelo futuro.
Se essas não forem aptidões de educador, me nego a pensar que o mundo tem jeito. Resumo-me às utopias e aos direitos ora garantidos. Estes últimos sempre à mercê dos terroristas do presente, professores presos às regras e avessos ao canto ao seu enredor (palavra inventada para esse texto) e, fundamentalmente, aniquiladores de futuro em geral.
por Edson de França, pessoense, jornalista, cronista e poeta






