Só dói quando a gente ri
Ríamos, sim. Por anos, o riso foi nossa moeda de cumplicidade. Uma espécie de passaporte para o mundo dos “seres infalíveis”. Ríamos de tudo, inclusive daquilo que deveria nos gelar o sangue. Como quando um colega de secundário adentrava a sala com uma faca de 12 polegadas na mochila, riscava o chão e ameaçava professores por mau desempenho. Ríamos cúmplices. A adrenalina da transgressão era temperada pelo riso que endossava o delito.
Toda a gréia da Academia, formada hegemonicamente por homens que performavam a heterossexualidade, riu quando um dos “machos” narrou uma agressão a um “viado” na rua. Uma façanha, vangloriava-se ele. Contava ele que, passando certo dia, acompanhado por alguns valentes, por um ponto de encontro de travestis, atraiu um deles, segurou-o pelo pescoço e o fez trotar atrás do carro por alguns metros. Ríamos cúmplices.
Ríamos dos velhos. Quanto mais pobre, esmulambado, abandonado, em condições de rua e alcoólatras, mas nosso riso corria fácil. E haja nós a perturbá-los para impulsionar sua ira e gargalhar com o resultado. Outra vertente mais cruel da turma era pregar-lhes peças, Assisti pelos sertões, alguns pândegos galhofeiros propondo-se a pagar talagadas generosas de aguardente, sob a condição de serem engolidas de uma trago só. Ríamos sem nenhum traço de humanidade a nos constranger.
Ríamos das piadas sobre aleijados. Ríamos com as “troladas” que alguns malvados preparavam para os estranhos da turma – uma grei que reunia negros, albinos, os menos favorecidos de fardinha puída, afeminados, dislexos ou pessoas com alguma deficiência. O riso era o prêmio de quem conseguia humilhar.
Certa vez, em reunião de família em que me encontrava agregado, piadas sobre negros rendiam boas risadas. Minoritário, dividia o sabor do riso, mesmo com uma gota de fel a dançar na boca. Eu estava ali, vítima, rindo, cúmplice de meu próprio linchamento social.
Em cinco tempos, retratos de aspecto cruel de uma cultura que desenvolvemos por aqui. Gostamos de rir. Isso é natural, faz bem. Mas este riso é um sintoma doentio: riso pela cumplicidade do delito inconsequente, riso pela aceitação passiva da exclusão, riso que compartilha do escárnio a segmentos sociais e minorias.
Resta saber a quem dói. A quem ri, claro, é anestésico. Para as vítimas da piada, muitas vezes grotesca, não há nada de engraçado; há apenas o linchamento social. E é aí, neste abismo entre a gargalhada e a dor, que a cumplicidade se torna crime. Há uma hora em que o riso há de ser contido, em nome da não pactuação, da empatia e da resistência.
Edson de França, pessoense, é jornalista, cronista e poeta






