A Impossível Didática da Pedra
Mesmo discordando, tendo a compreender a posição dos “bem nascidos” em suas críticas rasteiras ao sistema de cotas ou a distribuição bolsas/auxílio para a população “socialmente vulnerável”. Questão de isolamento enquanto categoria de análise. Na exercicio teórico, confere-se a determinado grupo características natas ou construídas para esclarecer fenômenos. Mentalidade, organicidade, visão “classista” do mundo explicariam o posicionamento.
De início porque acho impossível demovê-los da visão própria da classe em que foram gerados. A não ser por formação humanista inclusiva, quem nasce em “berço de ouro” jamais se dará conta de certas contradições. Com mobilidade social nata ou garantida (por herança e consanguinidade) e acesso quase ilimitado aos bens de consumo irá compreender, ou ao menos se dar conta, da posição dos pobres no mundo.
“Se comover, então, nem pensar. Por-se no lugar, é impossível. Passemos à frente. É mais fácil abraçar a tese de pensadores radicais de que a empatia é uma doença da modernidade do que se debruçar sobre dados, estatísticas e exemplos reais dos que vêm ao mundo marcados para sofrer. Tradicionalmente, a comoção e o desejo de ver alguém em melhor situação passam pelo viés caritativo da religião, o que, estruturalmente, não leva a lugar nenhum. É difícil intuir o tecido social quando a esmola e o clássico “deus há de te ajudar” são os únicos prisma
Para aqueles lá, estes últimos sempre serão a escória abandonada pelo deus supremo, seja ele qual for. Para os “cristãos” abençoados, nem são feitos da mesma argila que os compõem, sendo assim “irmãos” de segunda ordem, bastardos. No mínimo, seres desviantes, detentores da tal “marca de Caim”, horda de enjeitados e amaldiçoados.
Seria, assim, um “algo” do mais reles substrato humano ou, em última análise, uma outra raça, uns animais, bípedes, porém de outra natureza. Jamais vai estender o status humano a quem nasceu preto ou branco “fudido”, de “hereditariedades” desajustadas e morando nas cercanias dos abismos sociais
Não compreendo, por outro lado, quando a raça oriunda da pobreza reproduz ou concorda com aqueles pontos de vista. Ao reiterar os comentários típicos da “raça de cima”, digo, eles demonstram a portabilidade de uma mentalidade simplória. Elas parecem funcionar como expressão legitimadora do que está posto como regra ou destino.
Não curto expressões como “Eta. povo preguiçoso, só quer fazer filho por conta do Bolsa Família” ou “A pessoa estuda, se forma, e vem um neguinho e toma a vaga!”. O que me assombra é quando as escadas sociais invertem o sentido do olhar. Não curto e, como já disse, não domino a didática para dissolver essas pedras. Acho até impossível de despertar essas sensibilidades. E é justamente por não saber como que decidi escrever esta crônica: para, ao menos, nomear a dureza dessa rocha.
Edson de França, pessoense, jornalista, cronista e poeta






