E cada um traça o seu caminho

“O ser alguém na modernidade se confunde com a ambição. Ninguém acha que “ser alguém” é cuidar de um jardim, por exemplo, ou dedicar-se a uma causa que eleve a condição humana”. (E.F.)

É direito natural do Homem querer “ser alguém”. É legítimo. O que entra em discussão é o conceito – o que cada um entende por “ser alguém” – e os meios que facultam essa condição. Li recentemente que, após 45 anos, Mark David Chapman, o assassino de John Lennon revelou que o motivo por trás de sua tresloucada atitude foi simplesmente querer “ser alguém”. Realmente cada um toca o instrumento que melhor revela sua índole, seu caráter e marca de personalidade.

A vítima no caso tornou-se “alguém” abusando das sensibilidades. Tocando, compondo, influenciando, JL fez um caminho rumo à admiração mundial. É por esse meio, sobretudo, é que ele é reconhecido e bem lembrado, merecendo um lugar de honra na galeria dos “artistas-gênios”.

Seu algoz, em contrapartida, escolheu o atalho mais sombrio. Preferiu ser “alguém” por tabela, por associação infame. Ele não buscava o trabalho pulsante da produção artística, que cobra dedicação, empenho, certa disciplina sob o peso de um saldo final incerto. Ele almejava a certeza absoluta, sem pesar a fundo as taxas de sucesso.

Para ele, a fama não era o eco sensível de uma obra, mas o estampido de um revólver — um ato derradeiro que, ironicamente, garantiu que a vítima brilhasse ainda mais, enquanto ele próprio mergulhava na escuridão perpétua de um nome execrado. O instrumento que ele tocou foi a arma, e a melodia de uma só nota, a mais dissonante da ambição humana.

O ser alguém na modernidade se confunde com a ambição. Ninguém acha que “ser alguém” é cuidar de um jardim, por exemplo, ou dedicar-se a uma causa que eleve a condição humana. Ser alguém é compreendido como estar famoso, ter dinheiro, ostentar bens, exercer influência e isso exige a composição de  um  estado mental específico, quase predatório, sujeito a todas as contradições que isso possa embutir.

O trágico é como isso ao fim se confunde com o “estar”, o imediato, o fútil, o passageiro e o efêmero. Não se escavam os valores permanentes, mais indeléveis. A mina a explorar até a morte é o presente. Por ele, qualquer esforço parece válido, inclusive aqueles capazes de reduzir qualquer reputação ao rès do chão e a condição humana aterro sanitário da história. Sem direito à reciclagem.

Edson de França, pessoense, é jornalista, cronista e poeta.