A cultura popular é uma fonte. Acho que muitos já a definiram como tal: um manancial de saberes e de formas de fazer, dizer, descrever e falar das coisas e dos movimentos do mundo. O cordel, em si, constitui uma dessas manifestações. Aqui não estou repetindo e, sim, aderindo a esse linguajar, esse modo particular de fixar episódios, lembranças, ternosidades.

Não sou um poeta nato no estilo, mas cresci lendo, ouvindo e minha produção é uma escrevivência no melhor sentido do termo. O Pee-wee, a barraca de seu Paulino, constituía um  reduto cultural à sua maneira e essa produção consolida um olhar sobre ele

“O Pee-wee: Memória de um Ponto de Encontro”

Onde lá se estabelece

bodega para medicina

Outrora por cá ficava

Interessantíssima oficina

A oficina dos encontros

Refúgio de tanta gente

Com papo regado à cerva

Refri e cachorro quente

II

Chamava-se Pee-wee

Isso guardo nas memórias

Assim como de tanta gente

Que por lá plantou “estórias”

Não está escrito em livro

Não sobrou fotografia

Pois ela floresceu antes do tempo

Da instagramável mania

III

Porém quem por lá pousou

Deve guardar bem na mente

Flashes de tanto instante

Que marcou a vida da gente

Sendo  simples e acolhedor

O bar tornou-se um dos cenários

Da cena cultural noturna

Da principal dos Bancários

IV

A história é feita de lances

Não escritos no papel

E sim conservados na mente

Pra nao serem jogados ao léu

Trazer a história do Pee-wee

Faz a coração sorrir

E da memória ser troféu

Piuí  lembra apito de trem

Que puxa vagão preciso

Enfrenta a carga diária

Com fé, não sem improvisos

Seu Paulino foi o maquinista

Dessa composição bem quista

Sem jamais negar sorrisos

V

Seu Paulino era o anfitrião

De tão festivo cruzeiro

E se vida fosse um cavalo

Ele seria o cavaleiro

Com simpatia e gáudio

Tendo Júnior, também Cláudio

Como fiel escudeiro

Cardápio de feição básica

Típico de lanche “apreçado”

Caldo de cana, hot-dog,

Sanduba de pão prensado

Para barriga é o que conta

Substituto eventual da janta

Do citadino apressado

VI

O cardápio não oferecia

Formalidade de jantar

Servia o trivial ligeiro

À quem não quer se demorar

Senta à mesa, pede, consome

Lava depois na mente o nome

Do abençoado lugar

Nem todos tinham pressa

Chegavam a fazer serão

Alguns chegavam da lida

Outros largados do plantão

Noites que pareciam de festa

Animadas pela palestra

Com pendor de tradição

VII

Para deleite dos permanentes

Amantes da cerveja de fato

O bar reservava uma iguaria

Para paladar e bom olfato

Era a se sentir privilegiado

Quando a casa servia de lado

O cachorro quente no prato

O prato era o tira-gosto fino

Pros partidários da boemia

Que demoravam um tempo

Para adiar o final do dia

Entre papos, chistes, potoca

O local lembrava uma maloca

Saudosa como o poeta já dizia

VIII

Lá não havia cadeira cativa

Só uma reca de clientes fiéis

Artistas de todas as artes

Prosadores, menestréis

Poetas de algum renome

Políticos, propedeutas e bacharéis

Havia do tipo de personagem

Que qualquer drama colore

Misturada a eventual comédia

Que os dias de riso cobre

Preenchendo as páginas

De um particular folclore

IX

Por lá encontrava amigos

Desses de vida ardente

Tipo mestre Adeildo Vieira

Chegando, bem na frente

Gritando: “Amigo, Paulino,

Apronta um “Vieirinha pra gente”

Tinham os Clébers tricolores

Destilando paixão de fato

Nenhum papo intelectual

Informalidade era pro ato

Como os toques de xadrez

Do educador Renato

X

A gréia lá fazia escola

Cada qual defendendo a fé

Esquerda, direita ou só espaço

Para quem pedia um café

De passagem era possível

Para além do fato crível

Até se ter aulas de balé

Se a tirada era pra doer

Ninguém alimentava manha

Saia um, chegavam dois

um dia perde, noutro se ganha

A noite estendia o tapete

E o trem com seu farolete

Se entendia com a façanha

XI

O fim de um point ícone

se dá pela fatal partida

Soam acordes saudosos

de uma viola sentida

O piuí se foi na surdina

Sem texto de despedida

Imagem mais que marcante

Paisagem que se reveja

Da memória o equilíbrio

À vera se diz da peleja

Por cá quando fecha um bar

Nasce farmácia ou igreja.

Edson de França, pessoense, jornalista, cronista e poeta