Com a confirmação de que a sede do Instituto Federal do Sertão Paraibano será instalada em Patos, passou a ganhar força, em alguns setores, o discurso de que Cajazeiras deveria, por “equilíbrio”, sediar a reitoria da futura Universidade Federal do Sertão da Paraíba. A tese parte da ideia de que o desenvolvimento regional funciona como uma balança, na qual cada cidade precisa receber uma “cota” institucional para manter a harmonia política.
Esse raciocínio, embora sedutor no plano do discurso, não encontra respaldo nem na legislação, nem no planejamento territorial moderno, nem na experiência institucional brasileira.
O modelo policêntrico de desenvolvimento é legítimo, atual e necessário. Ele pressupõe a existência de vários polos dinâmicos, capazes de articular crescimento econômico, educacional e social em rede. No entanto, policentrismo não significa pulverizar estruturas administrativas para satisfazer vaidades locais ou criar equilíbrios artificiais.
A reitoria de uma universidade federal não é prêmio simbólico, nem moeda de troca política. Trata-se do centro estratégico da gestão acadêmica, administrativa, orçamentária e institucional. É ali que se concentram decisões fundamentais para o funcionamento da universidade, para sua relação com o Ministério da Educação, para a captação de recursos, para a articulação com outras instituições e para a definição de políticas acadêmicas.
Por essa razão, sua localização deve obedecer a critérios técnicos, logísticos e territoriais objetivos: centralidade regional, infraestrutura urbana, acessibilidade, conectividade, capacidade institucional instalada e posição geográfica estratégica.
No Sertão da Paraíba, esses critérios apontam, de forma inequívoca, para Patos.
A cidade consolidou-se, ao longo das últimas décadas, como o principal polo de integração regional do Sertão, funcionando como o terceiro eixo de desenvolvimento urbano da Paraíba, atrás apenas de João Pessoa e Campina Grande. Sua localização central, sua malha rodoviária, sua rede de serviços, sua estrutura hospitalar, educacional e comercial fazem de Patos o principal nó territorial da região.
A escolha de Patos para sediar o Instituto Federal do Sertão Paraibano não foi um gesto político aleatório. Foi uma decisão coerente com essa centralidade histórica e funcional. Trata-se de reconhecer onde estão concentrados os fluxos, as conexões e as condições materiais necessárias para sustentar uma instituição de grande porte.
Diante disso, surge a pergunta que precisa ser feita com honestidade: faz sentido deslocar a reitoria da Universidade Federal do Sertão da Paraíba para outra cidade apenas como forma de “compensação”?
A resposta é clara: não.
Não existe, no ordenamento jurídico brasileiro, nenhuma regra que determine “uma reitoria por município”. A própria realidade da Paraíba demonstra isso. João Pessoa concentra duas reitorias — da UFPB e do IFPB — e Campina Grande também abriga duas — da UFCG e da UEPB. Essa concentração ocorre justamente porque essas cidades possuem densidade institucional, infraestrutura e capacidade administrativa compatíveis com essa função.
O critério sempre foi fortalecer polos consolidados, não fragmentá-los.
Transformar a reitoria da UFSertão-PB em instrumento de compensação política significa inverter completamente a lógica do planejamento. Em vez de organizar o território com base em dados, eficiência e estratégia, passa-se a organizá-lo por conveniência discursiva.
Cada cidade possui sua vocação. Cajazeiras, por exemplo, tem uma tradição educacional respeitável, construída ao longo de décadas, reconhecida em todo o Alto Sertão. Seu papel histórico na formação acadêmica regional é inegável e merece ser valorizado. Isso, porém, não a transforma automaticamente no local mais adequado para sediar a administração central de uma universidade federal.
Tradição educacional, por si só, não substitui centralidade logística, posição geográfica estratégica e capacidade institucional ampliada.
O desenvolvimento regional integrado não se constrói enfraquecendo centros estruturantes. Ao contrário: fortalece-se os polos para que eles irradiem oportunidades, investimentos, inovação, serviços e conhecimento para todo o território. É assim que se forma uma rede regional eficiente, baseada em complementaridade e cooperação entre municípios.
Policentrismo não é pulverização administrativa. Não é espalhar estruturas por conveniência simbólica. É organização estratégica do território. É distribuir funções conforme potencialidades reais, e não conforme pressões momentâneas.
Quando se transforma a localização da reitoria em uma disputa narrativa, perde-se de vista o objetivo central: construir uma universidade forte, eficiente, bem gerida e capaz de impulsionar, de fato, o desenvolvimento do Sertão.
A pergunta fundamental não é “quem vai ganhar a sede”, mas “onde a universidade funcionará melhor”.
No Sertão da Paraíba, os critérios técnicos, territoriais e institucionais indicam com clareza: a centralidade está em Patos. Ignorar esse fato é abrir mão do planejamento em favor do improviso político.
Território não se organiza com compensações. Organiza-se com estratégia.
Por Pedro Jorge – pjpedrojorge2016@gmail.com






