Datas festivas inibem esse cronista. A fala programada para esses momentos não carece de grandes criatividades. Soa como conteúdo decorado e protocolar. Quem ousar ornamentá-los, geralmente, erra. Nesta jurisdição, desde criança, sempre tive medo de escorregar na língua, desejando pêsames em aniversário e parabéns em velório.
Daí bem dá para sentir a paúra em escrever sobre os natais, anos, novos, carnavais. Nesses ou o cronista é extremamente protocolar, feito um “objetivo” repórter do tempo, ou veste a pele do sociólogo historiador para exumar as raízes e importância das confraternizações ou dos folguedos para a tal vida em sociedade.
Atravessei os festejos de Christmas and réveillon com a serena frugalidade que dedico a esses dias e fantasiei-me moderadamente na corte momesca. Em todos, ensaiei um texto a publicar, mas não me senti confortável com aquelas palavras. Não estava expressando o que realmente sentia. Escrever só pra cumprir agenda é meio cacete.
Quando retomo a mão da crônica, ela emerge plena como esse tema: “a inação do cronista diante das datas marcadas em vermelho sangue no calendário”. Escrever sobre elas exige um alinhamento astral que eu não tinha, um tipo de alegria por decreto que não me habita. Pelo menos, ressalto e registro em cartório, em especial, nessa passagem de bastão do 25 pro 26.
Penso que o mundo tal qual se apresenta está a exigir de nós mais que palavras cordiais. Se o cronista, em festejos mundanos, não for capaz de ir além e refletir sobre os rumos contraditórios desta sociedade, então, é melhor não escrever. De palavras vazias e impropérios bélicos esse mundo já está nutrido por demais.
Para piorar, assistimos ao espetáculo desse vazio de ideias que se expande na velocidade da fibra óptica, onde especialistas em nada se expressam sobretudo nas redes sociais. É a era da opinião sem fundamento e do diagnóstico sem exame, enquanto os problemas reais — a criminalidade que nos acua, o feminicídio que nos envergonha e a onda conservadora que tenta remontar o passado — segue sangrando fora da tela.
Edson de França, pessoense, jornalista, cronista e poeta






