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O equívoco que está atrasando a transformação digital de muitas empresas

Existe um erro recorrente no caminho da transformação digital de empresas brasileiras: a crença de que adquirir software é suficiente. Sistemas de gestão mais modernos, plataformas de CRM, ferramentas de colaboração e até soluções de inteligência artificial são instalados sobre infraestruturas de TI defasadas, com redes lentas, servidores subdimensionados e ambientes de dados fragmentados que impedem que essas ferramentas funcionem em seu potencial real.

O resultado é previsível: investimentos em software que não entregam os resultados esperados, projetos de transformação digital que ficam na metade do caminho e lideranças frustradas com iniciativas tecnológicas que custaram caro e não moveram o negócio. Para romper esse ciclo, as empresas precisam entender que a estratégia de infraestrutura de TI não é um pré-requisito técnico secundário da transformação digital. Ela é a base sobre a qual todo o restante se sustenta, e sua qualidade determina em grande medida o ritmo e a profundidade com que a organização consegue evoluir digitalmente.

O Brasil investe mais, mas ainda enfrenta lacunas de maturidade

O crescimento dos investimentos em TI no Brasil em 2024 foi expressivo em qualquer comparação. Segundo levantamento do IDC apresentado pela Associação Brasileira das Empresas de Software (ABES), o mercado de TI brasileiro cresceu 13,9% em 2024, superando a média global de 10,8%, com gastos saltando de US$ 49,8 bilhões para US$ 58,6 bilhões. O Brasil manteve a 10ª posição no ranking mundial de investimentos em TI e lidera a América Latina com 34,7% dos investimentos regionais.

Mas investir mais não é o mesmo que transformar com consistência. O Índice de Transformação Digital do Brasil (ITDBr) 2025, desenvolvido pela PwC Brasil em parceria com o Núcleo de Inovação, IA e Tecnologias Digitais da Fundação Dom Cabral, revela um cenário que combina avanços reais com lacunas estruturais preocupantes. A dimensão de infraestrutura tecnológica avançou de 3,6 para 4,3 no índice, impulsionada por investimentos em segurança da informação e adoção de computação em nuvem, e a adoção de inteligência artificial nas empresas brasileiras saltou de 20% em 2024 para 51% em 2025. Avanços concretos. Mas o índice geral recuou levemente de 3,7 para 3,6, revelando que os ganhos de infraestrutura ainda não se traduzem em maturidade organizacional plena.

O que o estudo deixa claro é que ter a infraestrutura melhorando enquanto as dimensões de governança, inovação para clientes e adoção de tecnologias emergentes recuam configura um descompasso que precisa ser endereçado. As empresas estão construindo bases mais sólidas mas ainda não sabem plenamente o que fazer com elas.

Por que a infraestrutura precede tudo o mais

A infraestrutura de TI é o conjunto de componentes físicos e virtuais que suportam toda a operação digital de uma organização: servidores e capacidade de processamento, armazenamento de dados, redes internas e externas, sistemas operacionais, plataformas de virtualização e os ambientes de nuvem que conectam tudo isso.

Quando essa base é inadequada, cada camada adicional de software sofre as consequências. Um sistema de análise de dados em tempo real que precisa de latência de milissegundos não funciona bem sobre uma rede corporativa congestionada. Uma plataforma de IA generativa que demanda alto poder de processamento não performa adequadamente em servidores subdimensionados. Uma estratégia de nuvem híbrida que exige integração fluida entre ambientes locais e remotos falha quando a conectividade entre esses ambientes é instável.

A infraestrutura não é o objetivo da transformação digital, mas é o pré-requisito técnico que determina o teto de possibilidades. Empresas que investem em software sofisticado sobre infraestrutura precária repetem o erro de construir sobre areia: o projeto avança, mas a fundação não sustenta.

Os componentes de uma infraestrutura de TI moderna

A redefinição da estratégia de infraestrutura de TI que as empresas brasileiras estão realizando envolve decisões em várias camadas interdependentes:

Computação em nuvem e ambientes híbridos: a migração para a nuvem deixou de ser uma questão de se e tornou-se uma questão de como. O modelo que prevalece no mercado corporativo brasileiro é o híbrido: parte dos workloads em nuvens públicas como AWS, Azure e Google Cloud, parte em nuvens privadas ou data centers próprios, dependendo de requisitos de latência, custo, conformidade regulatória e criticidade de cada aplicação. O segmento de data centers deve movimentar US$ 1,3 bilhão no Brasil em 2025, impulsionado tanto pelos grandes hyperscalers quanto pelas empresas que modernizam sua própria infraestrutura.

Redes corporativas de alto desempenho: a conectividade interna e externa da empresa precisa corresponder à velocidade que os sistemas digitais exigem. Redes lentas criam gargalos que nenhum software consegue compensar. A modernização das redes corporativas inclui a adoção de SD-WAN para gestão inteligente do tráfego, fibra óptica de alta capacidade nos backbones internos e, em contextos industriais, redes 5G privativas para automação com baixa latência.

Infraestrutura de dados: separar a infraestrutura de dados da infraestrutura de aplicações é um dos movimentos mais importantes das arquiteturas modernas. Data lakes, data warehouses e plataformas de streaming de dados criam ambientes onde os dados podem ser centralizados, organizados e acessados de forma consistente por diferentes sistemas e times, eliminando os silos de informação que impedem decisões integradas.

Segurança como camada estrutural: a proteção dos ativos digitais deixou de ser um componente periférico de TI para se tornar parte integrante da arquitetura de infraestrutura. O modelo Zero Trust, que não assume confiança em nenhum dispositivo ou usuário sem verificação contínua, está substituindo progressivamente o modelo perimetral tradicional em organizações que operam com ambientes distribuídos e acesso remoto.

Automação da operação de TI: equipes de TI que passam a maior parte do tempo gerenciando incidentes reativos têm pouco espaço para contribuir com a evolução estratégica da infraestrutura. Ferramentas de AIOps que automatizam monitoramento, diagnóstico e resposta a incidentes liberam essas equipes para trabalho de maior valor e reduzem o tempo de resolução de problemas de horas para minutos.

O papel central da governança

O Índice de Transformação Digital deixa um recado claro: a governança é o calcanhar de Aquiles da transformação digital brasileira. Empresas que investem em infraestrutura e software sem estruturar os processos de tomada de decisão, as alçadas de aprovação, os mecanismos de monitoramento de resultado e as responsabilidades sobre os ativos digitais acabam com ambientes tecnológicos sofisticados que ninguém gerencia com consistência.

Uma estratégia de infraestrutura robusta precisa de governança correspondente. Isso significa definir quem decide sobre arquitetura, quais critérios orientam escolhas de fornecedores, como os custos de nuvem são monitorados e controlados, quais são os padrões de segurança que toda aplicação precisa atender e como os incidentes são escalados e resolvidos.

Sem essa estrutura de governança, a infraestrutura modernizada rapidamente se torna um novo conjunto de problemas: custos de nuvem fora de controle, proliferação de ferramentas não integradas, dados dispersos em múltiplos ambientes sem visibilidade centralizada e equipes de TI sobrecarregadas com uma arquitetura que cresceu sem planejamento.

Da eficiência operacional à inovação competitiva

O diagnóstico do ITDBr 2025 aponta um desafio que vai além da infraestrutura: as empresas brasileiras estão melhorando sua eficiência operacional com a tecnologia, mas ainda não conseguem transformar essa eficiência em inovação competitiva e valor tangível para seus clientes.

Essa é precisamente a segunda etapa da jornada. A infraestrutura moderna cria as condições para que a organização opere com mais velocidade e precisão. Mas aproveitar essa base para criar novos produtos, serviços e modelos de negócio exige uma mudança cultural que vai além do investimento tecnológico, demandando lideranças dispostas a experimentar, times com autonomia para testar hipóteses e uma tolerância ao erro que muitas organizações brasileiras ainda não desenvolveram.

A boa notícia é que as empresas que constroem infraestruturas sólidas estão desenvolvendo capacidades que as colocam em posição privilegiada para dar esse segundo passo. A base está sendo construída. O próximo desafio é aprender a usá-la para competir de formas que os concorrentes sem essa estrutura simplesmente não conseguem.