O Fantástico, da TV Globo, exibiu na noite desse domingo (10) uma reportagem sobre a atuação de uma facção criminosa do Rio de Janeiro em Cabedelo, na Região Metropolitana de João Pessoa. Segundo as investigações mostradas pelo programa, o grupo monitora áreas do município por câmeras clandestinas, interfere na rotina de moradores e teria se infiltrado em pontos estratégicos da gestão pública.
De acordo com a reportagem, a facção é comandada a partir do Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, a mais de 2 mil quilômetros da Paraíba. Em Cabedelo, a Polícia Federal (PF) e o Ministério Público da Paraíba (MPPB) já realizaram mais de dez operações para apurar a relação entre crime organizado, corrupção e poder público.
O delegado regional de Polícia Judiciária da PF na Paraíba, João Marcos Gomes Cruz Silva, afirmou ao Fantástico que “a cidade de Cabedelo, infelizmente, ela vive um colapso institucional”. O procurador-geral de Justiça do MPPB, Leonardo Quintans, também comentou o impacto da atuação criminosa no município. “A sociedade fica refém, a sociedade perde sua liberdade, a sociedade passa a ser comandada por esse poder paralelo”, disse.
As investigações apontam que integrantes da facção acompanham, em tempo real, a movimentação em ruas e áreas estratégicas de Cabedelo. As câmeras, chamadas de “besouros”, foram instaladas em postes, árvores, casas e estruturas metálicas. Segundo a polícia, os equipamentos servem para monitorar rivais, moradores e ações das forças de segurança.
Na apuração das autoridades, Flávio de Lima Monteiro, conhecido como Fatoka, aparece como chefe do grupo criminoso que atua no município. Contra ele, há 13 mandados de prisão por tráfico, homicídios e organização criminosa. Ele fugiu da Paraíba e, segundo a polícia, permanece foragido no Complexo do Alemão.
A reportagem também exibiu áudios que indicam planos de expansão da facção para o bairro do Bessa, em João Pessoa. De acordo com o Ministério Público, o grupo usa o monitoramento remoto para controlar territórios e orientar ações criminosas.
Interferência política
Além do domínio territorial, a investigação aponta interferência da facção na política e na administração pública de Cabedelo. Segundo a reportagem, há suspeitas de loteamento de cargos, “rachadinhas” e desvio de recursos públicos. O prejuízo estimado aos cofres do município é de R$ 270 milhões.
Os últimos quatro prefeitos de Cabedelo são investigados em apurações relacionadas ao município:
- Leto Viana, que renunciou ao cargo
- André Coutinho, que teve o mandato cassado pelo Tribunal Regional Eleitoral (TRE)
- Edvaldo Neto, afastado 48 horas após a eleição
- Vitor Hugo, que se tornou inelegível
A reportagem apontou ainda suspeitas envolvendo a empresa Lemon Terceirização e Serviços Ltda., que teria sido usada para incluir indicações da facção em contratos com a Prefeitura e a Câmara Municipal. Em depoimento citado pelo Fantástico, Ariadna Cordeiro Barbosa, apontada como gerente financeira da facção, afirmou que “assim que você chegava lá, dizia quem era a indicação, ela botava na folha. Indicação FTK [Fatoka]. Todas as vezes [a pessoa era admitida]”.
A defesa de Fatoka afirmou que não há elementos probatórios que o vinculem aos fatos narrados. A defesa do ex-prefeito Vitor Hugo repudiou qualquer tentativa de vincular seu nome a organizações criminosas e disse que não há provas de participação, favorecimento ou conhecimento de prática ilícita.
Os advogados de Edvaldo Neto afirmaram que não há prova concreta de participação dele em organização criminosa ou em supostas fraudes investigadas. A defesa de André Coutinho declarou que o ex-prefeito é inocente e não participou dos atos investigados. A defesa de Leto Viana não respondeu.
A Lemon informou, em nota, que emprega mais de 700 pessoas em Cabedelo, exige certidões criminais negativas desde 2024 e segue colaborando com as investigações.






