Mundo em Copa
Janelas do Entre-Copa # 05
Para Edson de França*, Copa e celebração combinam bem. Mas também cabe a crítica, a descrença, a ironia, a galhofa e todos os sentimentos periféricos… inclusive a indiferença de quem não é tocado em nenhum sentido por ela.
# 1 Eliminados
Há uma semana éramos eliminados nas oitavas de final da Copa Americana. Graças a Deus, ouvi lamentações, mas não choro. Chorar pela seleção, atualmente, é derramar lágrima por defunto ruim. Para voltar a valer alguma coisa que valha, será necessário resolver algumas contradições do modelo que andamos utilizando.
# 2 Feriados providenciais
A lamentação mais sentida foi a dos trabalhadores do Brasil Varonil S/A: mais do que perdemos em campo, perdemos os “feriados” extraordinários. Cada jogo representava a oportunidade de negociar com o patrão aquela horinha santa de patriotismo.
# 3 Repartição F.C.
Falando em feriado, falemos da seleção brasileira. O nosso futebol virou uma grande repartição pública que funciona de terça a quinta, das 13h às 17h, e folga emendando a emenda. Caímos no pior dos mundos: um limbo burocrático onde o talento individual é sufocado por um esquema tático capenga, e a raça é substituída pelo conformismo irritante de quem sabe que, no mês que vem, o bônus do clube europeu cai na conta de qualquer jeito.
# 4 Adeus arte do futebol
O desdobramento disso é uma geração de atletas que joga uma barbaridade na Europa, sob sistemas engessados, mas perde a alma quando veste a amarelinha. Foi-se a identidade. Não somos o “futebol arte” de antigamente (tudo bem, o mundo mudou), mas também passamos longe da máquina competitiva e pragmática que o futebol moderno exige.
# 5 Home Office
O presidente da República brincou com a condição “home office” de um certo jogador aí. Pra que, homi, tu foi fazer isso? Os zagueiros de plantão, de público ignorante a jornalistas “especializados”, caíram de pau. Queria ter a coragem ou a “cara de pau” dessa galera para atuar como “testas de ferro” de uma des-lenda do futebol. Em tempos outros, até resfriado simples dispensava jogadores; hoje, vivemos tempos onde estratégias de marketing substituem a razão, mascarando as limitações físicas e os desvios de caráter.
# 6 Inversão
Como é que é? Há uma lógica invertida e bem típica desses tempos instagramáveis. Quem assume um país, briga todos os dias numa arena tensa de “espertalhões ungidos de poder”, opinião pública flutuante e ameaças globais, não pode falar de um “mimadinho de mídia” que vira espinho de garganta? É como se, na fala babadora deles, o mandatário estivesse a profanar o cargo. Rapazes, a condição de jogador selecionável foi há tempos profanada por aquele lá.
# 7 Mata ou Corre
Na real, para equipes grandes e meio de prateleira, a verdadeira Copa só dá as caras quando começa o mata-mata. É nessa hora que o filho chora e a mãe dos “infortúnios” sorri. A hora em que os deuses furiosos, brincalhões e sádicos se divertem. A hora em que os descuidados morrem, os “sortudos” agradecem e toda incompetência é punida.
# 8 Para nós…
… também. Nessa hora exige-se mais do coração, do fígado, das unhas, da paciência, do repertório de palavrões, da fé, da reza e de outros artifícios que não consigo enumerar agora. Gastamos todas e bastou o cometa Haaland passar para nos tirar da crista da onda e dar um caldo fenomenal.
# 9 Ri ou chora
O Brasil, sinceramente, não está entre os grandes no momento. “Um a mais” no meio da prateleira, no bolo, nos qualifica bem. Enfrentou o Japão num duelo, à primeira vista, duríssimo e ganhou. Fez a galera acreditar. Enfrentou os nórdicos e perdeu. A gente, escolada por tantas lapadas, pode até levar de boa qualquer resultado decepcionante que venha. Quem já viveu algumas copas a mais se acostumou: se der positivo, nós bebe! Se der errado, também, mas sem lágrimas.
# 10 A chama guerreira dos pequenos
O mais próximo que tive do furor de mundial foi na fatídica – para nós – Copa de 2014. Fiz uma passagem, bate e volta, pelo projeto de “elefante branco” chamado Arena Pernambuco. Oportunamente, vibrei com a Costa Rica, “Los Chicos”, num placar mínimo contra a poderosa esquadra azurra. Penso que ali vivi o verdadeiro espírito profano da copa: a atração pelo sucesso dos “Davis” do cenário futebolístico mundial.
# 11 Por isso…
… pelo espírito festivo e de superação da Copa, apostei minhas fichas sentimentais nos pequenos, nas seleções africanas sobretudo. Perdi por todos. Ficou, contudo, uma sensação boa de que eles estão chegando. Um dia, quem sabe, aconteça o milagre estratégico.
# 12 Resumo da ópera
Para variar, por enquanto, vamos às semifinais com três europeus e um sobrevivente sul-americano. Acabou minha torcida e vou no clima do jogo. Que vença o futebol e que, rezemos, não haja intervenções forâneas ao espetáculo que espera se ver dentro das quatro linhas.
# Derradeiras abaixo #
Como não espanta a mais ninguém, as mazelas comportamentais do ser humano vez em quando deixam os esgotos. Logicamente, querem criar corpo e escalar como ramos de hera as paredes da sociedade e da convivência. Na realidade, coisas como o racismo abrem espaço para o debate, a reflexão, o embate. Mostra, contudo, muito mais: mostra o quanto temos que evoluir como seres humanos para vermos em eventos como a Copa a celebração da humanidade.
por Edson de França, pessoense, jornalista, cronista, poeta e, em tempos de Copa, um analista da cultura e das adjacências do futebol.
