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O Ernesto Heráclio do Rego que eu conheci – por José Ozildo dos Santos

Existem entrevistas que produzem apenas informações. Outras, transformam-se em lembranças permanentes. A que realizei com Ernesto Heráclio do Rego pertence à segunda categoria. Era fevereiro de 1996. Naquela manhã, acompanhado de João Gomes de Andrade, então presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Boqueirão, segui em direção à ‘Fazenda Nova’. Nosso destino era a residência de um homem que, durante mais de três décadas, exerceu uma influência decisiva sobre os destinos políticos do município de Boqueirão.

Não fui ali entrevistar apenas um ex-prefeito. Também não procurava apenas um antigo deputado estadual. Muito menos um dos maiores proprietários rurais do Cariri paraibano. Fui ao encontro de uma personagem que se confundia com a própria história da cidade de Boqueirão. Naquele momento, Ernesto Heráclio do Rego já se encontrava afastado da vida pública. A saúde inspirava cuidados. A intensidade das disputas eleitorais havia ficado para trás. Restava o homem. E foi exatamente esse homem que encontrei naquela manhã de sábado, 3 de fevereiro de 1996.

A ‘Fazenda Nova’ conservava o ambiente típico das antigas propriedades rurais do Cariri paraibano. Ali, longe das agitações políticas que durante tantos anos dominara sua rotina, vivia serenamente aquele que havia participado dos principais acontecimentos administrativos registrados na região desde os anos de 1940.

Recebeu-nos com simplicidade. Não houve qualquer formalidade. Muito menos o comportamento de quem durante décadas comandara eleições, administrara municípios e influenciara decisivamente a política regional.

O anfitrião revelou-se um homem simples. Sentamo-nos para conversar. Logo percebi que entrevistar Ernesto do Rego seria diferente de todas as entrevistas que havia realizado até então. Ele era um homem de poucas palavras.

Falava apenas o necessário. Respondia às perguntas com objetividade. Jamais procurava prolongar uma resposta para valorizar sua própria participação nos acontecimentos. Enquanto muitos homens públicos gostam de transformar entrevistas em discursos, Ernesto parecia seguir exatamente o caminho contrário.

Ouvia atentamente. Refletia durante alguns instantes. Depois respondia. Em poucas frases. Sem rodeios. Sem adjetivos desnecessários. Sem qualquer preocupação em impressionar o entrevistador.

Confesso que, durante alguns momentos, imaginei que aquela economia de palavras pudesse dificultar meu trabalho. Com o passar da conversa compreendi que estava diante de um homem pertencente a uma geração para a qual o valor das ações sempre foi maior do que o das palavras.

Ernesto Heráclio do Rego não precisava explicar quem era. Sua própria trajetória falava por ele. A impressão que levei daquela entrevista jamais se apagou. Já entrevistei inúmeras pessoas ao longo de minha atividade como pesquisador. Algumas procuravam conduzir a conversa, enfatizando os episódios que julgavam mais importantes de suas biografias. Outras demonstravam preocupação em justificar decisões políticas tomadas décadas antes. Havia ainda aquelas que faziam da entrevista uma oportunidade para reviver antigas disputas ou reescrever episódios da história segundo suas próprias conveniências.

Ernesto Heráclio do Rego não se enquadrava em nenhuma dessas categorias. Falava apenas quando perguntado. Era um homem que parecia acreditar que a verdadeira importância de uma obra pública deveria ser medida pelos benefícios que produziu e não pelos discursos que inspirou. Essa postura dizia muito sobre sua personalidade.

Ao longo da conversa, procurei levá-lo a comentar alguns dos momentos mais marcantes da vida política de Boqueirão. Esperava ouvir longas narrativas sobre campanhas eleitorais, disputas partidárias ou episódios que marcaram as sucessivas eleições das quais participou. Não foi isso que aconteceu. Ele preferia falar das realizações. Das escolas. Das estradas. Dos serviços públicos. Da organização administrativa do município de Boqueirão.

Quando o assunto se aproximava das disputas políticas, ele respondia-me com poucas palavras e logo voltava a tratar do que realmente parecia considerar importante: o desenvolvimento de Boqueirão.  Foi então que compreendi uma característica marcante de sua geração. Os homens públicos daquele tempo acreditavam que a política deveria ser lembrada pelas obras realizadas, não pelas polêmicas produzidas. Talvez essa seja uma das razões pelas quais Ernesto do Rego continua sendo lembrado com respeito por pessoas de diferentes correntes políticas na cidade de Boqueirão.

As administrações passam. Os partidos mudam de nome. Os adversários desaparecem. Mas as obras permanecem. E foi exatamente pelas obras que Ernesto do Rego escolheu ser lembrado. Ao observá-lo naquela manhã de fevereiro de 1996, era difícil imaginar que aquele homem tranquilo havia exercido, durante tantos anos, uma influência decisiva sobre praticamente toda a vida política de Boqueirão.

Sua trajetória confundia-se com a própria formação administrativa daquele município. Nascido em Belo Jardim, Pernambuco, em 31 de dezembro de 1910, Ernesto do Rego chegou ainda criança ao antigo território de Cabaceiras, onde seu pai possuía uma extensa propriedade rural. Cresceu naquela região, estudou em Limoeiro e posteriormente no Recife, retornando ao Cariri paraibano para dedicar-se à agropecuária na ‘Fazenda Nova’, herdada de seu genitor. Foi ali que ele consolidou seu prestígio como produtor rural e como homem de liderança.

A política surgiu naturalmente na vida de Ernesto Heráclio do Rego. Não foi resultado de ambições pessoais. Foi consequência do reconhecimento que já possuía como agricultor, administrador rural e membro de uma família tradicionalmente ligada à vida pública.

Com a redemocratização do país após o Estado Novo, Ernesto do Rego filiou-se à União Democrática Nacional – UDN – e ingressou definitivamente na política paraibana. Seu primeiro grande desafio foi administrar o extenso município de Cabaceiras, obtendo nas urnas mais de 71% dos votos úteis. É importante lembrar que a Cabaceiras daqueles anos possuía dimensões muito superiores às atuais. Seu território abrangia localidades que décadas mais tarde se transformariam nos municípios de Barra de São Miguel, Boqueirão, Caturité, Barra de Santana, Alcantil e Riacho de Santo Antônio.

Administrar aquela imensa área territorial exigia não apenas liderança política, mas extraordinária capacidade administrativa. Os recursos eram escassos. As dificuldades de transporte eram enormes. Grande parte das comunidades encontrava-se praticamente isolada durante determinados períodos do ano.

Mesmo diante dessas limitações, Ernesto do Rego conseguiu imprimir à administração do município de Cabaceiras um ritmo de trabalho que ainda hoje é lembrado pelos estudiosos da história regional. Priorizou aquilo que considerava essencial. Determinou a abertura e a conservação de estradas vicinais. Recuperou prédios públicos. Melhorou escolas. Levou a presença da administração municipal a localidades que, até então, raramente recebiam atenção do poder público.

É preciso compreender esse período para dimensionar corretamente sua obra administrativa de Ernesto do Rego. Na década de 1940, as prefeituras do interior nordestino dispunham de recursos extremamente limitados. Não existiam os atuais mecanismos de transferências constitucionais. A capacidade de investimento dependia quase que exclusivamente da arrecadação local. Mesmo assim, alguns administradores conseguiram realizar obras que transformaram definitivamente seus municípios.

Ernesto Heráclio do Rego pertenceu a esse grupo. Sua administração em Cabaceiras [1947-1950] caracterizou-se muito mais pela eficiência do que pela grandiosidade. Era um homem acostumado a administrar propriedades rurais. Transferiu para a administração pública a mesma disciplina que utilizava na condução da sua ‘Fazenda Nova’. Planejava. Acompanhava. Fiscalizava. Exigia resultados. Talvez por isso tenha conquistado tão rapidamente o respeito da população daquele município paraibano.

Sua eleição para deputado estadual, em 1950, representou o reconhecimento regional desse prestígio crescente. Foi o oitavo candidato mais votado no Estado e o segundo em sua legenda. Curiosamente, porém, a Assembleia Legislativa nunca pareceu despertar nele o mesmo entusiasmo que a administração municipal. Possuía temperamento de executivo. Gostava de realizar. De acompanhar obras. De resolver problemas concretos.

O ambiente dos grandes debates parlamentares não correspondia ao seu perfil. Não disputou sua reeleição como deputado estadual, embora tivesse condições de lograr êxito.  Depois de cumprir o mandato parlamentar, preferiu retornar à administração municipal, onde acreditava poder contribuir mais diretamente para a melhoria da vida da população. Essa decisão revela muito de sua personalidade. Para muitos políticos, o mandato parlamentar representa o ápice da carreira. Para Ernesto do Rego, parecia acontecer exatamente o contrário.

Seu verdadeiro espaço era o município. Era ali que conhecia cada comunidade. Cada família. Cada estrada. Cada necessidade da população. Era ali que ele podia transformar decisões administrativas em benefícios concretos para milhares de pessoas. No pleito municipal de 1955, retornou às urnas, conquistando seu segundo mandato como prefeito de Cabaceiras. Não teve opositor: foi candidato único.

Foi justamente durante seu segundo mandato como prefeito de Cabaceiras que ocorreu um dos acontecimentos mais importantes da história do Cariri paraibano: a conclusão das obras do Açude Epitácio Pessoa, na vila de Carnoió. A construção daquele reservatório modificou profundamente a economia, a ocupação territorial e o futuro daquela localidade. A pequena vila transformou-se rapidamente em um centro de intensa movimentação humana.

Operários, comerciantes, técnicos e visitantes passaram a conviver diariamente com a população local. O ritmo de crescimento acelerou-se. Novas demandas surgiram. Novos desafios administrativos apareceram. Ernesto do Rego acompanhou esse processo de perto.

Mais do que simples espectador, na condição de prefeito de Cabaceiras participou ativamente da busca de soluções para os problemas decorrentes daquela extraordinária transformação regional. Foi nesse contexto que começou a amadurecer a ideia de emancipação política de Carnoió. E, mais uma vez, o nome de Ernesto do Rego apareceria no centro da história. Como prefeito de Cabaceiras ele não somente defendeu a emancipação política da vila de Carnoió como também procurou fazer o que estava ao seu alcance para viabilizar todo o processo.

O construtor da cidade de Boqueirão

Existem momentos em que a História parece concentrar, em poucos anos, transformações que normalmente levariam décadas para acontecer. Foi exatamente isso que ocorreu na vila de Carnoió, posteriormente denominada de Boqueirão.

A construção do Açude Epitácio Pessoa alterou profundamente a dinâmica econômica do Cariri paraibano. Até então, a vila de Carnoió possuía o ritmo característico das pequenas povoações no interior paraibano. A vida girava em torno da agricultura, da pecuária e do comércio de reduzidas proporções.

Com o início da construção do Açude Epitácio Pessoa, tudo começou a mudar. Vieram engenheiros. Operários. Empreiteiros. Comerciantes. Novos moradores. A população aumentou do dia para a noite. As atividades econômicas multiplicaram-se. O antigo povoado passou a assumir características urbanas cada vez mais evidentes.

Era natural que, mais cedo ou mais tarde, surgisse o desejo de autonomia administrativa. A distância em relação à sede de Cabaceiras dificultava o atendimento das necessidades locais. Os problemas cresciam com rapidez. A administração municipal precisava acompanhar aquela nova realidade.

Foi nesse cenário que Ernesto Heráclio do Rego demonstrou, talvez de forma mais clara, sua extraordinária capacidade de compreender o futuro. Percebeu antes de muitos que Boqueirão possuía condições de caminhar com as próprias pernas. Não se tratava apenas de uma reivindicação política. Era uma consequência natural do crescimento experimentado pela vila de Carnoió.

A emancipação significava aproximar a administração pública da população. Permitir decisões mais rápidas. Planejar obras de acordo com as necessidades locais. Construir uma identidade própria para uma comunidade que já possuía características bastante diferentes das demais localidades pertencentes ao município de Cabaceiras.

O empenho de Ernesto do Rego nesse processo foi decisivo. Embora a emancipação política resulte sempre da participação de diversos atores, poucos, na futura cidade de Boqueirão, exerceram uma influência tão significativa quanto Ernesto do Rego. Ele conhecia profundamente a região. Sabia de suas potencialidades. Mantinha trânsito político nas principais lideranças estaduais. Possuía credibilidade suficiente para defender o projeto junto às autoridades competentes.

Mais do que isso. Compreendia que a criação de um novo município não representava apenas uma alteração administrativa. Significava abrir novas possibilidades de desenvolvimento para milhares de pessoas. Assim, a emancipação de Boqueirão não nasceu por acaso. Foi fruto de um longo processo de amadurecimento político e administrativo, no qual Ernesto do Rego desempenhou um papel de absoluto destaque.

A emancipação política do futuro município de Boqueirão ocorreu quando Ernesto do Rego estava concluído o seu segundo mantado como prefeito de Cabaceiras. E, como já era residente no território do recém-criado município, para ali transferiu seu domicílio eleitoral. E eleito nas eleições realizadas em 8 de agosto de 1963, tornou-se o segundo prefeito municipal daquela novel cidade. Foi candidato único, fato que comprova sua liderança política e o reconhecimento do seu trabalho para viabilizar o crescimento da antiga vila e sua emancipação política.

Assim, a população de Boqueirão passou depositar em ‘seu’ Ernesto a responsabilidade pela condução de seus primeiros passos. Poucos homens conheciam tão profundamente aquela realidade. Poucos reuniam semelhante experiência administrativa. Poucos desfrutavam de igual prestígio político.

Na realidade, sua eleição como segundo prefeito de Boqueirão representou muito mais do que uma vitória eleitoral. Foi uma demonstração inequívoca da confiança que a população depositava em sua liderança. A partir daquele momento, Ernesto do Rego passou a enfrentar um desafio completamente diferente daquele vivido em Cabaceiras, onde já existia uma estrutura administrativa consolidada. Boqueirão, ao contrário, estava praticamente começando do zero. Foi necessário organizar a máquina pública. Estruturar os serviços públicos. Implantar os setores administrativos. Planejar o crescimento urbano. Definir as prioridades. Buscar recursos junto aos órgãos estaduais e federais. Construir uma identidade institucional para um município recém-criado. Não foi tarefa simples, disse-me naquela entrevista realizada em fevereiro de 1996.

Entretanto, sua experiência acumulada revelou-se decisiva. Os relatos produzidos por pessoas que acompanharam aquele período são praticamente unânimes ao destacar sua extraordinária capacidade de trabalho. Não era administrador de gabinete. ‘Seu’ Ernesto gostava de acompanhar pessoalmente as obras. Visitava comunidades. Conversava com moradores. Observava os problemas diretamente no local. Tomava decisões depois de conhecer a realidade.

Essa forma de administrar aproximava-o da população. O prefeito não era uma figura distante: era alguém presente no cotidiano do município. Talvez por isso tantas pessoas ainda hoje recordem sua gestão com evidente sentimento de respeito. Não porque tenha realizado obras monumentais. Mas, porque procurava resolver problemas concretos. Suas administrações foi marcada pela sobriedade. Não havia espaço para desperdícios. Os recursos públicos eram tratados com extremo cuidado. Essa característica tornou-se uma das marcas de sua vida pública.

Décadas depois, quando conversei com antigos moradores de Boqueirão, ouvi repetidas vezes uma expressão que sintetiza perfeitamente a imagem deixada por Ernesto do Rego: “Era um homem correto”.

Essa definição aparecia com impressionante frequência. Não importava a idade do entrevistado. Nem sua posição política. Quase todos faziam questão de destacar a honestidade administrativa do antigo prefeito.

Talvez essa seja uma das maiores conquistas que um homem público pode alcançar. As obras envelhecem. Os prédios necessitam de reformas. As administrações terminam. Mas, a reputação construída pela honestidade permanece.

Foi exatamente isso que aconteceu com Ernesto Heráclio do Rego. Ao longo de nossa entrevista, jamais ouvi dele qualquer comentário destinado a exaltar sua própria administração. Não enumerou obras. Não apresentou números. Não procurou convencer-me de sua importância.

Essa ausência de autopromoção chamou profundamente a minha atenção. Com o passar dos anos compreendi que existia uma razão para isso. Homens verdadeiramente realizados raramente sentem necessidade de falar continuamente sobre aquilo que fizeram. Confiam que a própria História se encarregará desse julgamento.

Ernesto parecia pensar exatamente assim. Preferia falar pouco. Deixava que Boqueirão falasse por ele. E Boqueirão continua falando. Fala através de suas ruas. De suas instituições. De sua organização administrativa. Da memória de seus moradores mais antigos. E, sobretudo, do respeito com que seu nome continua sendo pronunciado por aqueles que acompanharam sua trajetória.

Há líderes políticos cuja influência desaparece logo após o término do mandato. Outros permanecem vivos na memória coletiva porque ajudaram efetivamente a construir as bases sobre as quais uma comunidade continua se desenvolvendo. Ernesto Heráclio do Rego pertence, sem dúvida, à segunda categoria. Ele não administrou apenas um município. Ajudou a construir uma cidade.

O homem por trás do líder político

Toda biografia corre o risco de destacar apenas os cargos ocupados por seu personagem. Prefeito. Deputado estadual. Líder político. Administrador. São títulos importantes. Mas, insuficientes para explicar um homem. Foi exatamente essa impressão que levei da entrevista realizada na Fazenda Nova.

À medida que a conversa avançava, o político cedia lugar ao homem. E esse homem revelou aspectos de sua personalidade que dificilmente aparecem nos documentos oficiais. Ernesto Heráclio do Rego era, antes de tudo, um homem profundamente ligado à família.

Sempre que mencionava sua esposa, modificava discretamente o tom da voz. As respostas tornavam-se mais demoradas. O olhar parecia voltar-se para lembranças construídas ao longo de muitos anos de convivência. Falava dela com respeito. Com gratidão. Sem demonstrações exageradas de emoção, próprias de sua personalidade reservada. Mas, bastava observá-lo atentamente para compreender a importância que atribuía à família.

Foi justamente nesse momento que a entrevista adquiriu um caráter mais humano. Até então conversávamos sobre eleições, administrações, emancipação política, desenvolvimento regional e vida pública. De repente, surgiu o pai. Não o político. Não o administrador, mas o pai.

Ao recordar o falecimento prematuro de seu filho, o advogado José Braz do Rego, ex-deputado estadual e conselheiro do Tribunal de Contas da Paraíba, ‘seu’ Ernesto silenciou durante alguns instantes. Não fez um discurso. Não procurou esconder a dor. Também não permitiu que ela dominasse completamente suas palavras. Falou pouco. Como sempre fazia.

Entretanto, naquele breve silêncio compreendi que existem sofrimentos que dispensam explicações. A perda de um filho jamais deixa de acompanhar um pai. Mesmo muitos anos depois.

Percebi, naquele instante, que toda a firmeza demonstrada ao longo da vida pública não havia tornado Ernesto do Rego insensível às dores da existência. Continuava sendo um homem profundamente humano. Talvez tenha sido exatamente essa humanidade que o aproximou tanto da população.

Os moradores de Boqueirão não enxergavam apenas o prefeito. Reconheciam nele alguém que compartilhava das mesmas dificuldades, das mesmas alegrias e dos mesmos sofrimentos vividos por qualquer família do município. Essa dimensão humana explica parte do respeito que aquele homem ali conquistou.

O prestígio político pode ser construído por campanhas eleitorais. O respeito verdadeiro nasce da convivência. Durante toda a entrevista procurei identificar algum momento em que demonstrasse vaidade em relação à sua própria trajetória. Não encontrei.

Ernesto do Rego jamais mencionou os cargos que ocupou para valorizar sua importância. Nunca utilizou o mandato de deputado estadual como argumento de autoridade. Nem fez referência ao longo período em que exerceu influência sobre a política regional para justificar suas opiniões. Sua simplicidade chamava atenção. Talvez porque fosse absolutamente espontânea. Não havia qualquer esforço para parecer humilde. Era simplesmente sua maneira de ser.

Ao final da conversa, deixei a ‘Fazenda Nova’ com uma impressão que os anos apenas confirmariam: Ernesto Heráclio do Rego pertencia a uma geração de homens públicos cuja principal preocupação consistia em realizar. Não em aparecer.

Essa diferença parece pequena. Mas, na realidade, é enorme. Hoje convivemos com uma política frequentemente marcada pela necessidade permanente de exposição pública. As realizações, muitas vezes, tornam-se secundárias diante da divulgação das próprias ações.

Na geração de Ernesto do Rego, a lógica era outra. Primeiro fazia-se a obra. Depois, se alguém desejasse registrá-la, que o fizesse. Essa cultura da discrição marcou profundamente sua biografia. Sua história foi escrita muito mais por suas ações do que por suas palavras.

Como historiador, essa constatação sempre me chamou atenção. Os grandes personagens nem sempre são aqueles que mais falam. Muitas vezes são exatamente os que menos sentem necessidade de explicar a própria grandeza.

Ernesto do Rego parecia confiar que o julgamento definitivo caberia ao tempo. E o tempo, de fato, foi generoso com sua memória. Passadas décadas de sua morte, poucas figuras continuam despertando tamanho respeito na população de Boqueirão. É difícil conversar com pessoas mais antigas daquela cidade sem que o seu nome apareça naturalmente. Não surge apenas como lembrança política. Surge como referência moral. – “Era um homem de palavra”. Essa talvez seja a definição mais repetida.

À primeira vista, trata-se de uma expressão simples. No entanto, possui enorme significado. Ser um homem de palavra era, para aquela geração, uma das maiores distinções que alguém poderia receber. A palavra empenhada possuía valor de compromisso. Dispensava documentos. Dispensava testemunhas. Era suficiente.

Ao ouvir tantas pessoas utilizarem essa expressão para definir Ernesto do Rego, compreendi que ela sintetizava toda a sua trajetória. Mais do que um administrador eficiente, mais do que um líder político influente, mais do que um deputado respeitado, Ernesto do Rego permaneceu na memória da população de Boqueirão porque soube preservar aquilo que constitui o patrimônio mais precioso de qualquer homem público: sua credibilidade.

Essa herança não pode ser inaugurada em praça pública. Não pode ser construída por decreto. Nem conquistada em uma única eleição. Ela resulta de uma vida inteira vivida com coerência. Foi exatamente essa coerência que encontrei na ‘Fazenda Nova’, naquela manhã de fevereiro de 1996.

Na ocasião, ainda não imaginei que jamais voltaria a encontrá-lo. Hoje, quase três décadas depois de sua partida, percebo que aquela entrevista representou muito mais do que uma pesquisa histórica. Foi o encontro com um homem cuja vida se confundiu com a construção da cidade de Boqueirão. E cuja memória continua inseparável da história daquele município.

A última entrevista

Durante muito tempo, conservei comigo as anotações produzidas naquela manhã de fevereiro de 1996. À primeira vista, pareciam apenas registros de mais uma entrevista destinada a subsidiar as pesquisas sobre a história política de Boqueirão. Com o passar dos anos, entretanto, aquelas páginas adquiriram outro significado. Transformaram-se em testemunho.

Pouco mais de três anos depois daquele encontro, Ernesto Heráclio do Rego falecia. A notícia espalhou-se rapidamente pela cidade de Boqueirão. Não era apenas o desaparecimento de um ex-prefeito. Nem somente de um ex-deputado estadual. Partia um dos últimos representantes de uma geração que havia participado diretamente da construção política e administrativa daquele município.

Naquele momento compreendi que minha entrevista deixava de ser apenas uma fonte de consulta. Passava a constituir um documento histórico. Sempre que releio aquelas anotações, volto mentalmente à ‘Fazenda Nova’. Recordo o ambiente tranquilo da propriedade. O silêncio característico do Cariri paraibano. A serenidade daquele homem que parecia já ter feito as pazes com o tempo.

Naquela manhã não encontrei um político preocupado em justificar sua trajetória. Encontrei alguém que parecia compreender que sua história já não lhe pertencia exclusivamente. Pertencia também ao município que ajudara a construir. Talvez por isso tenha respondido às minhas perguntas com tanta naturalidade. Sem discursos preparados. Sem preocupação com a própria imagem. Sem receio de deixar lacunas. Confiava que os fatos falariam por si. E realmente falaram.

Hoje, quando consulto documentos oficiais, antigos jornais e colho depoimentos de contemporâneos, percebo que a imagem construída sobre Ernesto Heráclio do Rego mantém impressionante coerência.

Naturalmente existem interpretações diferentes sobre determinadas decisões administrativas que ele tomou. Toda figura pública está sujeita ao julgamento da História. Entretanto, há um aspecto praticamente consensual. Todos reconhecem a importância de Ernesto do Rego para a consolidação administrativa do município de Boqueirão.

Poucos homens exerceram influência tão duradoura sobre a organização daquele município. Isso não significa afirmar que ‘seu’ Ernesto tenha governado sozinho ou que todas as realizações lhe pertençam exclusivamente. Não, mas ele fez tudo que estava ao seu alcance.

A História jamais é construída por um único personagem. Ela resulta da participação de inúmeras pessoas. Entretanto, existem determinados líderes cuja presença acaba simbolizando um período inteiro. Foi exatamente isso que aconteceu com Ernesto do Rego. Ao recordar sua trajetória, torna-se impossível separar seu nome da própria formação histórica e política da cidade de Boqueirão. As primeiras administrações municipais. A consolidação das instituições públicas. A organização dos serviços administrativos. O fortalecimento da identidade do novo município. Tudo isso traz, de alguma forma, sua participação. Talvez seja essa a razão pela qual sua memória permaneça tão viva naquela cidade paraibana.

As cidades costumam produzir bons administradores. Produzem também excelentes políticos. Muito raramente, porém, produzem homens que se transformam em referência histórica permanente. Boqueirão encontrou em Ernesto Heráclio do Rego uma dessas raras exceções. Não apenas porque ocupou importantes cargos públicos, mas porque ele participou da construção das bases sobre as quais o município continuou seu processo de desenvolvimento.

Quando visitei a ‘Fazenda Nova’, encontrei um homem já distante das grandes disputas eleitorais. Não havia mais campanhas. Não existiam comícios. Os inflamados debates políticos pertenciam ao passado. Permanecia apenas a serenidade. Talvez exatamente por isso eu tenha conseguido enxergar aspectos de sua personalidade, que dificilmente apareceriam durante o período em que exercia plenamente a liderança política.

O tempo costuma retirar dos homens aquilo que é circunstancial. Permanece apenas o essencial. No caso de ‘seu’ Ernesto, permaneceu a simplicidade. Permaneceu a discrição. Permaneceu o respeito pela família. Permaneceu o interesse pelos destinos de Boqueirão. Permaneceu, sobretudo, a consciência tranquila de quem acreditava ter cumprido sua missão.

Existe uma frase do escritor francês André Maurois segundo a qual “a verdadeira biografia de um homem é escrita na memória daqueles que com ele conviveram”. Penso frequentemente nessa ideia quando recordo Ernesto Heráclio do Rego. Sua biografia oficial registra datas, mandatos, eleições e cargos públicos. Entretanto, a memória afetiva da cidade de Boqueirão registra algo muito mais importante. Registra um homem correto, um administrador honesto, um líder cuja palavra inspirava confiança e um sertanejo que jamais rompeu os vínculos com sua terra.

Essa talvez seja a maior conquista de Ernesto Heráclio do Rego. Os cargos passaram. Os mandatos terminaram. As disputas políticas ficaram para trás, mas permaneceu a reputação. E reputação não se decreta. Constrói-se lentamente, ao longo de uma existência inteira.

Sempre que converso com os moradores mais antigos de Boqueirão, percebo que o nome de Ernesto do Rego continua surgindo espontaneamente. Não porque alguém deseje reviver antigas disputas políticas, mas porque determinadas figuras acabam tornando-se parte da identidade coletiva de uma cidade.

Boqueirão possui várias páginas importantes em sua história. Algumas narram a construção do Açude Epitácio Pessoa. Outras registram sua emancipação política. Diversas contam o crescimento econômico do município. Em muitas dessas páginas, direta ou indiretamente, aparece o nome de Ernesto Heráclio do Rego. Não por acaso, mas porque ele ajudou a escrevê-las.

Uma página que não se fecha

Escrever sobre Ernesto Heráclio do Rego é, ao mesmo tempo, um exercício de memória e de responsabilidade histórica. Memória, porque tive o privilégio de conhecê-lo pessoalmente. Responsabilidade, porque homens de sua estatura não pertencem apenas às suas famílias ou às gerações que com eles conviveram. Pertencem também à história do lugar que ajudaram a construir.

Quando cheguei à ‘Fazenda Nova’, em fevereiro de 1996, imaginava estar diante de um antigo líder político, disposto a recordar campanhas eleitorais, vitórias, derrotas e episódios que marcaram sua longa vida pública.

Encontrei algo diferente. Encontrei um sertanejo. Um homem cuja grandeza não estava na eloquência, mas na serenidade. Um administrador que parecia sentir-se mais confortável falando de trabalho do que de poder. Um líder que não necessitava recordar suas realizações porque elas permaneciam vivas na memória coletiva de Boqueirão.

Hoje, olhando para trás, compreendo que aquela entrevista representou muito mais do que uma simples coleta de informações. Foi um encontro entre duas gerações. De um lado, um homem que havia participado da construção política de uma cidade. Do outro, um jovem historiador que começava a compreender a importância de registrar as vozes daqueles que fizeram a história antes que o silêncio do tempo as apagasse definitivamente.

Sem perceber, Ernesto do Rego deixava uma última contribuição. Não apenas para minhas pesquisas. Mas para a própria memória de Boqueirão. Anos depois, quando a notícia de seu falecimento percorreu o município, compreendi o verdadeiro alcance daquela conversa. Uma fonte histórica havia desaparecido. Uma testemunha privilegiada de quase todo o século XX já não poderia responder às novas perguntas.

Felizmente, parte de suas lembranças permanecera registrada. Essa talvez seja uma das maiores responsabilidades do historiador. Não apenas interpretar documentos. Mas preservar vozes. Guardar testemunhos. Registrar experiências que jamais voltarão a repetir-se.

Os documentos oficiais informam quando Ernesto Heráclio do Rego nasceu, quando foi eleito, quando exerceu seus mandatos, quando faleceu, mas nenhum documento é capaz de revelar completamente quem ele foi. Essa dimensão somente aparece na convivência. No modo discreto de falar, na atenção com que escutava, na simplicidade com que recebia os visitantes, na emoção contida ao recordar o filho prematuramente falecido, na delicadeza com que mencionava sua esposa e, nos longos silêncios que, muitas vezes, diziam mais do que as próprias palavras.

Foi esse Ernesto que conheci: o homem, muito além do político, muito além do administrador e muito além do deputado estadual. Essa distinção talvez explique por que sua memória permanece tão viva.

Os cargos pertencem ao passado. As virtudes atravessam gerações. Boqueirão mudou profundamente desde os tempos em que Ernesto do Rego exercia sua liderança. Novas ruas foram abertas. Outros prefeitos administraram o município. A população cresceu. As transformações econômicas modificaram a cidade. Novas gerações passaram a ocupar espaços antes pertencentes aos pioneiros.

Entretanto, algumas referências permaneceram. O nome de Ernesto Heráclio do Rego continua sendo pronunciado com respeito. Não apenas pelos contemporâneos. Também por muitos daqueles que sequer tiveram a oportunidade de conhecê-lo. Isso acontece porque determinadas figuras deixam de pertencer ao debate político para ingressar definitivamente no patrimônio histórico de uma comunidade.

Foi exatamente esse caminho que Ernesto percorreu. De líder político tornou-se personagem histórico. De administrador municipal transformou-se em símbolo. Sua trajetória ultrapassou o tempo dos mandatos. Ingressou no tempo da memória.

Existe uma diferença importante entre homens públicos e estadistas locais. O homem público governa. O estadista ajuda a construir instituições. O primeiro administra circunstâncias. O segundo influencia gerações.

Guardadas as proporções da realidade municipal, penso que Ernesto Heráclio do Rego pertenceu a essa segunda categoria. Sua preocupação nunca pareceu limitar-se às disputas eleitorais. Pensava no futuro da cidade. Na organização administrativa. Na consolidação do município recém-emancipado e na construção de bases sólidas para que Boqueirão pudesse seguir seu próprio caminho. É exatamente por isso que sua biografia se confunde com a própria história do município de Boqueirão.  

Há cidades que não podem ser compreendidas sem determinados personagens. Assim como é impossível contar a história de Campina Grande sem mencionar figuras como Argemiro de Figueiredo ou Ronaldo da Cunha Lima, também não se pode compreender plenamente a história de Boqueirão sem reconhecer a contribuição de Ernesto Heráclio do Rego. Ele pertence ao grupo daqueles homens cuja vida se entrelaça definitivamente com a história da terra onde viveram.

Ao concluir estas páginas, volto, mais uma vez, àquela manhã de fevereiro de 1996. Vejo novamente a ‘Fazenda Nova’. Recordo a hospitalidade simples do Cariri paraibano. A conversa pausada. As respostas curtas. Os momentos de silêncio.

Na época, imaginei que talvez tivesse obtido poucas informações. Hoje percebo que obtive exatamente aquilo que procurava.  Conheci um homem. E conhecer um homem é sempre mais importante do que apenas registrar sua biografia.

As biografias informam. Os encontros ensinam. Ernesto Heráclio do Rego ensinou-me que a verdadeira liderança não precisa de publicidade, que a honestidade continua sendo o maior patrimônio de um administrador público, que a palavra empenhada vale mais do que muitos discursos, que a simplicidade não diminui a autoridade, ao contrário, fortalece-a. E ensinou-me, sobretudo, que o tempo possui a extraordinária capacidade de separar aquilo que é circunstancial daquilo que realmente permanece.

Passadas quase três décadas de sua morte, desapareceram as disputas eleitorais. Silenciaram os palanques. Encerraram-se as paixões partidárias. Permaneceu apenas o essencial: o respeito, a gratidão. E a consciência de que Boqueirão teve, em Ernesto Heráclio do Rego, um dos principais construtores de sua identidade política e administrativa. Se hoje a cidade possui uma história digna de orgulho, uma parte importante dessa história foi escrita por suas mãos. Não apenas com decretos. Não apenas com obras. Mas, sobretudo, com trabalho, retidão e compromisso público.

Por isso, ao recordar a trajetória de Ernesto Heráclio do Rego, não vejo apenas um antigo prefeito. Nem apenas um ex-deputado estadual. Vejo um homem que se transformou em patrimônio moral da cidade de Boqueirão. E essa talvez seja a maior homenagem que uma cidade pode prestar a um de seus ex-gestores. Porque existem homens que governam uma cidade. E existem homens que passam a fazer parte de sua própria História. Ernesto Heráclio do Rego foi um deles.

Campina Grande, 10 de julho de 2026

José Ozildo dos Santos
Historiador e professor universitário