O intelectual que a Paraíba ainda precisava redescobrir
Em 4 de fevereiro de 1982, o jornal A União, editado em João Pessoa, publicou o artigo ‘Allyrio resgatado’, assinado por Firmo Justino de Oliveira. O texto surgiu em um momento no qual a obra e a trajetória intelectual de Allyrio Wanderley ainda permaneciam pouco conhecidas pelas novas gerações, apesar da dimensão que o escritor patoense alcançara no cenário cultural brasileiro.
Mais do que uma simples apreciação literária, o artigo de Firmo Justino constitui um depoimento de memória. Nele, o magistrado, professor e jornalista recupera impressões pessoais, recordações da juventude e referências que ouviu sobre Allyrio. Ao mesmo tempo, procura compreender por que um intelectual de tão ampla formação e de tão reconhecida capacidade criadora permanecia, em grande medida, distante do conhecimento público.
O ponto de partida do artigo é a notícia de uma pesquisa então em desenvolvimento sobre a vida e a obra do escritor. Contudo, essa informação funciona apenas como elemento desencadeador da reflexão. O centro do texto não é a investigação anunciada, mas o próprio Allyrio Wanderley: sua inteligência, sua presença no ambiente cultural paraibano, a dificuldade de acesso a seus livros e a dívida que a Paraíba havia acumulado para com um de seus mais importantes homens de pensamento.
Ao olhar para Allyrio, Firmo Justino não encontra apenas o romancista de Os Brutos, Bolsos Vazios, Ranger de Dentes e Carneiros Cinzentos. Encontra um intelectual múltiplo, um pensador de grande amplitude e um homem cuja obra ultrapassava as fronteiras de um único campo do conhecimento.
Uma das mais brilhantes inteligências da Paraíba
A primeira imagem que Firmo Justino constrói é a de um escritor dotado de excepcional capacidade intelectual. Para ele, Allyrio Wanderley era uma das mais brilhantes inteligências produzidas pela Paraíba, autor de uma obra vasta para os padrões brasileiros e pensador no verdadeiro sentido da palavra.
Essa definição possui especial importância. Firmo não reduz Allyrio à condição de romancista. Apresenta-o como um intelectual abrangente, capaz de transitar entre diferentes áreas do conhecimento e de atuar com competência tanto no campo da criação literária quanto no terreno da reflexão filosófica e da atividade jornalística.
Segundo o articulista, Allyrio passava com desenvoltura da crítica literária para o romance sociológico, das doutrinas filosóficas para a produção de textos e para o trabalho cotidiano nos jornais. Essa diversidade revelava uma inteligência que não se acomodava a fronteiras disciplinares. A literatura, a filosofia e o jornalismo apareciam, em sua trajetória, como expressões complementares de uma mesma vocação intelectual.
Firmo Justino também destaca o caráter estruturado e metódico do conhecimento de Allyrio. Em determinado momento, pergunta-se onde o escritor teria adquirido um saber tão amplo e tão bem organizado. A indagação demonstra o impacto que a formação intelectual de Allyrio exercia sobre aqueles que procuravam compreender sua obra.
Não se tratava apenas de reconhecer a quantidade de conhecimentos acumulados. O que impressionava era a maneira como esses conhecimentos pareciam articulados e colocados a serviço da interpretação da realidade. Allyrio surgia, assim, como um homem de pensamento, alguém que transformava a cultura em instrumento de análise e intervenção.
O homem que se transformou em mito
Embora reconhecesse a grandeza intelectual de Allyrio, Firmo Justino admite que não chegou a conhecê-lo diretamente. Quando teve contato com o ambiente cultural de João Pessoa, em meados da década de 1950, encontrou sobretudo a memória do escritor.
“Desse homem, com tamanha estatura intelectual, só encontrei o mito”, afirma o articulista. A frase é reveladora. Ela mostra que, poucos anos após a morte de Allyrio, sua presença já havia adquirido uma dimensão quase lendária entre os jovens interessados em literatura e cultura.
Firmo recorda a efervescência dos grêmios literários que animavam João Pessoa em 1956. Naquele ambiente, ouvia-se que a Paraíba permanecia em dívida com o saber de Allyrio Wanderley. O escritor era lembrado como alguém que havia utilizado o conhecimento de maneira pública, expressando suas ideias por meio do jornalismo e de conferências que despertavam o interesse da juventude.
As conferências de Allyrio eram descritas como acontecimentos intelectuais capazes de atrair e impressionar os jovens. Seu pensamento possuía caráter polêmico e iconoclasta. Não se tratava de um intelectual acomodado às convenções ou preocupado em preservar consensos. Allyrio questionava, provocava e enfrentava ideias estabelecidas.
Esse traço iconoclasta ajuda a compreender a força de sua presença. Mesmo entre aqueles que não o haviam conhecido pessoalmente, permanecia a imagem de um homem que utilizava a inteligência para desafiar certezas e estimular novas formas de pensamento.
O centro das inquietações intelectuais
Ao recuperar conversas mantidas com Gonzaga Rodrigues e Vladimir Carvalho, Firmo Justino imagina Allyrio como uma figura central das rodas intelectuais que se reuniam no Ponto de Cem Réis, antes da criação da Universidade na Paraíba.
As lembranças evocam o antigo Café Alvear, suas mesas de mármore e os encontros de homens interessados em literatura, filosofia, política e cultura. Na reconstrução de Firmo, Allyrio provavelmente ocupava posição de destaque nesse ambiente, tornando-se centro de interesse e referência para aqueles que buscavam informação e conhecimento.
O articulista descreve uma época em que o saber especializado era raro e, por isso, altamente valorizado. Aquele que dominava a Matemática, falava uma língua estrangeira ou conhecia profundamente as regras da Gramática podia ser visto como uma figura extraordinária.
Nesse contexto, a presença de Allyrio assumia dimensão ainda maior. Sua formação ampla e sua capacidade de transitar por diferentes campos do conhecimento faziam dele uma referência incomum. Ele não se destacava por dominar apenas uma disciplina, mas pela abrangência de sua cultura e pela disposição de compartilhar ideias.
Firmo observa, entretanto, que os ambientes intelectuais também possuíam seus limites. Muitos procuravam preservar seus próprios espaços de prestígio e manter o conhecimento restrito a determinados círculos. A força de Allyrio residiria justamente em ultrapassar essas barreiras e encontrar ressonância entre os jovens abertos à renovação do pensamento.
A imagem construída é a de um intelectual que não pertencia apenas a uma elite cultural fechada. Seu pensamento alcançava a juventude e contribuía para ampliar os horizontes de uma geração.
Um escritor difícil de encontrar
Se a inteligência de Allyrio era reconhecida, sua obra, contudo, não se encontrava facilmente ao alcance dos leitores. Firmo Justino recorda que os adolescentes dos anos 1950 liam o escritor com interesse e proveito. O problema não estava na falta de curiosidade, mas na dificuldade de encontrar seus livros.
A expressão utilizada pelo articulista é significativa: “Difícil mesmo era encontrar os seus livros”. A escassez dos exemplares contribuía para transformar a obra em objeto de procura e descoberta. Os livros circulavam de mão em mão, eram emprestados entre estudantes e permaneciam durante algum tempo sob a guarda de leitores que reconheciam seu valor.
A Casa do Estudante aparece como um dos espaços importantes dessa circulação. Foi ali que Firmo teve contato com Bolsos Vazios, emprestado por Severino Batista do Nascimento. A leitura provocou uma aproximação intensa com a personagem Cincinato Olinto, cuja irreverência e inconformismo marcaram o jovem leitor.
Firmo afirma que, durante algum tempo, “vestiu-se na pele” de Cincinato Olinto. A expressão revela a força de identificação produzida pelo romance. Mesmo reconhecendo o conteúdo autobiográfico da obra, o articulista destaca a poesia que atravessava a narrativa e contribuía para torná-la significativa.
A lembrança demonstra que Allyrio não era apenas um escritor admirado por intelectuais. Sua obra também possuía capacidade de dialogar com os jovens, despertando inquietações e oferecendo personagens capazes de representar a rebeldia e o inconformismo de uma geração.
Ranger de Dentes e a antecipação de uma ideia
Outra recordação de Firmo Justino está relacionada a Ranger de Dentes. O livro chegou às suas mãos por intermédio de Luís Augusto de Carvalho, que lhe emprestou ocasionalmente um exemplar considerado raro.
Na leitura do articulista, o romance revelava a capacidade de Allyrio de antecipar questões importantes para o desenvolvimento regional. Firmo destaca que, já em 1935, o escritor teria defendido a necessidade da criação de uma instituição voltada para o desenvolvimento do Nordeste, utilizando inclusive a denominação Banco do Nordeste do Brasil S.A..
A observação é particularmente relevante porque amplia a compreensão do pensamento de Allyrio. O romancista não se limitava a construir personagens e narrativas. Sua literatura também incorporava reflexões sobre a economia, o desenvolvimento regional e as estruturas de poder.
Firmo chama atenção, ainda, para a preocupação do escritor com os possíveis desvios das finalidades de uma instituição dessa natureza. A referência ao poder exercido pelo proprietário da Fazenda São Diógenes demonstra que Allyrio relacionava os problemas econômicos às formas concretas de dominação existentes no meio social.
Assim, Ranger de Dentes aparece, na leitura de Firmo, como uma obra que ultrapassa os limites da ficção. O romance se transforma em espaço de reflexão sobre o Nordeste, suas necessidades e os riscos de que iniciativas destinadas ao desenvolvimento fossem submetidas aos interesses das estruturas dominantes.
Carneiros Cinzentos e a memória dos leitores
A trajetória de Firmo como leitor de Allyrio também inclui Carneiros Cinzentos. O livro foi recebido como presente de Vladimir Carvalho e passou a integrar o conjunto de obras que marcaram sua juventude.
A lembrança é apresentada com leveza e humor. Depois de ler o livro, Firmo o emprestou a Paulo Gadelha e encerra a recordação afirmando que o deseja de volta. A observação aproxima o artigo do tom memorialístico e mostra a relação afetiva construída entre o leitor e a obra.
Mais do que um simples objeto, o livro representa uma experiência compartilhada. Ele circula entre amigos, alimenta conversas e permanece associado a um período de formação intelectual.
Essa dimensão pessoal contribui para dar ao artigo uma característica especial. Firmo não escreve apenas como crítico ou pesquisador. Escreve como alguém que participou de uma geração para a qual a leitura dos livros de Allyrio representava uma forma de descoberta.
O único livro publicado na Paraíba
Firmo Justino também recorda que Carneiros Cinzentos foi o único livro de Allyrio Wanderley publicado na Paraíba. A obra foi impressa pela Editora Teone, criada no contexto de um empreendimento cultural associado a Teotônio Neto e voltado para suprir carências existentes no ambiente paraibano.
O articulista destaca o papel desempenhado por homens ligados à cultura e à produção editorial, lembrando nomes como Aníbal Pereira, Dulcídio Moreira e Zacarias Sitônio. A publicação do livro aparece como resultado de uma iniciativa que procurava fortalecer a vida cultural da Paraíba.
Entretanto, a edição enfrentou dificuldades de divulgação. Firmo sugere que a falta de público ou o reduzido interesse comercial podem ter comprometido a circulação da obra. Levanta também a possibilidade de que Allyrio já carregasse, desde São Paulo ou do Rio de Janeiro, a imagem de um escritor “maldito” e difícil.
A observação revela uma contradição. Enquanto o intelectual era reconhecido por sua inteligência e por sua ampla formação, sua obra permanecia distante de muitos leitores. O escritor admirado não era, necessariamente, o escritor facilmente acessível.
Contudo, Firmo relativiza a ideia de dificuldade. Para os jovens leitores de sua geração, Allyrio podia ser exigente, mas não era inacessível. Seus livros eram lidos com agrado e proveito. O verdadeiro obstáculo não estava na linguagem ou na complexidade das obras, mas na escassez dos exemplares.
A Paraíba em dívida com Allyrio
A ideia de uma dívida cultural percorre todo o artigo. Firmo Justino afirma que a Paraíba permanecia em mora com o saber de Allyrio e sugere que sua obra ainda não havia recebido o reconhecimento correspondente à sua importância.
A dívida não era apenas editorial. Era também histórica e intelectual. Faltava estudar de forma mais ampla a trajetória do escritor, compreender a formação de seu pensamento, reunir informações sobre sua vida e tornar sua obra acessível às novas gerações.
Firmo reconhece que algumas iniciativas já haviam contribuído para ampliar o conhecimento sobre Allyrio. Recorda as conversas com Moacir Wanderley, primo do escritor, realizadas nos serões da Vila do IPASE. Menciona também a monografia produzida por Eduardo Martins, a quem atribui grande capacidade de pesquisa e de investigação.
Mesmo assim, permanecia a necessidade de um estudo mais completo. A curiosidade do articulista não se limitava à biografia. Ele desejava compreender a origem de uma formação intelectual tão ampla e metódica.
Essa pergunta permanece como uma das chaves do artigo: como Allyrio Wanderley havia construído um saber tão abrangente? A resposta não aparece de forma definitiva, mas a própria indagação demonstra o respeito de Firmo pela dimensão intelectual do escritor.
Uma pesquisa como pano de fundo
A notícia de que uma pesquisa estava sendo desenvolvida sobre Allyrio aparece no início e retorna ao encerramento do artigo. Firmo menciona que o trabalho buscava reunir entrevistas com parentes, amigos e editores, além de investigar manuscritos, escritos inéditos, anotações e experiências vividas pelo escritor nas Espinharas e em São Paulo.
Entretanto, o anúncio da pesquisa não se transforma no tema central. Ele funciona como estímulo para que o articulista revisite suas próprias lembranças e reflita sobre a posição de Allyrio na cultura paraibana.
Ao final, Firmo manifesta a esperança de que o esforço de investigação pudesse contribuir para retirar o escritor do esquecimento e apresentá-lo novamente ao público. O objetivo seria tornar conhecida pelas novas gerações uma das maiores expressões da inteligência paraibana.
O verbo “resgatar”, presente no título do artigo, adquire, assim, um sentido amplo. Não se tratava apenas de recuperar documentos ou reunir informações biográficas. Era necessário restituir Allyrio ao lugar que lhe cabia na memória cultural da Paraíba.
O intelectual que precisava renascer publicamente
A expressão utilizada por Firmo Justino no encerramento de seu artigo é particularmente forte. Ao defender a recuperação da obra de Allyrio, fala em retirá-lo da “vala comum” e devolvê-lo ao conhecimento das novas gerações e ao “renascimento público”.
A imagem sugere que o escritor, embora reconhecido por aqueles que o conheceram ou leram suas obras, havia sido progressivamente afastado do espaço cultural. Sua memória permanecia preservada em círculos intelectuais e entre antigos leitores, mas precisava recuperar visibilidade.
Para Firmo, resgatar Allyrio significava reconhecer a grandeza de uma inteligência que a Paraíba havia produzido e que ainda não recebera a atenção correspondente. Era uma forma de reparar uma ausência e de devolver ao debate público um escritor cuja obra reunia literatura, filosofia, crítica social e reflexão regional.
O artigo de 1982 revela, portanto, uma preocupação que ultrapassa o momento de sua publicação. A questão levantada por Firmo continua atual: como preservar e divulgar a obra de intelectuais que, embora tenham exercido influência em seu tempo, deixaram de ocupar espaço nas leituras das novas gerações?
O olhar de Firmo Justino
Ao apresentar Allyrio Wanderley, Firmo Justino de Oliveira constrói um retrato marcado pela admiração, pela memória e pela consciência de uma dívida cultural.
O Allyrio visto por Firmo é, antes de tudo, um homem de grande inteligência. É o escritor de obra vasta, o pensador de formação ampla, o jornalista, o crítico e o romancista preocupado com os problemas sociais. É também o intelectual polêmico e iconoclasta, capaz de despertar o interesse da juventude e de provocar a renovação das ideias.
Mas é, igualmente, o autor cujos livros eram difíceis de encontrar. O escritor que circulava entre leitores por meio de empréstimos e exemplares raros. O romancista que deixava marcas profundas em jovens interessados em literatura, mas que ainda não havia sido plenamente incorporado ao patrimônio cultural da Paraíba.
Firmo não conheceu Allyrio pessoalmente. Encontrou o mito, ouviu relatos, leu seus livros e procurou compreender a dimensão de seu pensamento. Essa distância, entretanto, não enfraqueceu sua percepção. Ao contrário, permitiu-lhe observar como a memória do escritor permanecia viva entre aqueles que haviam convivido com sua obra e com suas ideias.
O artigo “Allyrio resgatado” é, por isso, mais do que uma homenagem. É um chamado à recuperação da memória. Ao escrever sobre o romancista patoense, Firmo Justino procurou demonstrar que a história cultural da Paraíba não poderia ser plenamente compreendida sem o reconhecimento da contribuição de Allyrio Wanderley.
Entre o mito e o esquecimento
Existe uma contradição que atravessa todo o artigo de Firmo Justino de Oliveira. De um lado, surge a imagem de Allyrio Wanderley como uma das mais brilhantes inteligências produzidas pela Paraíba: escritor de obra vasta, pensador de formação ampla, crítico literário, romancista, filósofo e jornalista. De outro, aparece o escritor cujos livros se tornaram difíceis de encontrar e cuja trajetória ainda carecia de estudos capazes de revelar plenamente sua importância.
Firmo resume essa contradição em uma frase de grande força: “Desse homem, com tamanha estatura intelectual, só encontrei o mito”. A afirmação não significa que Allyrio tivesse sido esquecido por completo. Sua memória permanecia viva nas conversas entre intelectuais, nas lembranças dos antigos frequentadores das rodas culturais de João Pessoa e nas experiências de leitores que haviam encontrado, muitas vezes por empréstimo, algum exemplar de suas obras. Contudo, essa memória ainda não havia sido transformada em conhecimento público mais amplo.
O mito preservava a grandeza do intelectual, mas também revelava uma ausência. Allyrio era lembrado como homem de inteligência excepcional, conferencista polêmico, pensador iconoclasta e escritor de grande cultura. Entretanto, sua obra permanecia pouco acessível, e muitos dos que admiravam seu nome não possuíam contato direto com seus livros.
A dificuldade de encontrar Bolsos Vazios, Ranger de Dentes e Carneiros Cinzentos constitui, nesse sentido, mais do que uma simples informação editorial. Ela representa uma das causas do afastamento progressivo entre o escritor e as novas gerações. Os livros continuavam vivos na memória de alguns leitores, mas sua circulação limitada dificultava a formação de um público mais amplo.
É nesse ponto que o verbo “resgatar” assume seu sentido mais profundo. Resgatar Allyrio não significava apenas reunir documentos, recuperar manuscritos ou reconstruir episódios de sua biografia. Significava transformar a memória dispersa em patrimônio cultural, aproximar novamente o escritor de seus leitores e devolver à vida pública uma obra que permanecia reconhecida, mas insuficientemente divulgada.
Firmo Justino percebia que a Paraíba possuía uma dívida para com Allyrio. Essa dívida não era apenas uma questão de homenagem. Tratava-se de uma responsabilidade cultural: estudar sua trajetória, preservar seus escritos, ampliar o acesso às suas obras e reconhecer sua participação na formação intelectual do Estado.
Ao escrever “Allyrio resgatado”, Firmo Justino realizou, ele próprio, uma parte desse trabalho. Seu artigo não apenas anunciou uma investigação. Recolheu lembranças, registrou experiências de leitura e reafirmou a importância de um escritor que continuava presente na memória de sua geração. O texto tornou-se, assim, um testemunho sobre Allyrio e, ao mesmo tempo, uma contribuição para o processo de recuperação de sua obra.
Um legado de ética, cultura e responsabilidade
Firmo Justino de Oliveira nasceu em 18 de março de 1936, na cidade de Sousa, Paraíba. Magistrado, professor e jornalista, construiu uma trajetória marcada pelo compromisso com a Justiça, pela dedicação ao serviço público e pela contribuição ao fortalecimento do Poder Judiciário paraibano.
Ao longo de sua vida, reuniu atividades que, de certa maneira, dialogavam com a própria visão ampla que expressou ao escrever sobre Allyrio. A magistratura representava seu compromisso com a Justiça e com a responsabilidade pública; o magistério revelava sua dedicação à formação; e o jornalismo lhe oferecia espaço para participar do debate cultural e registrar aspectos importantes da história paraibana.
Firmo Justino faleceu em João Pessoa, no dia 8 de abril de 2026, aos 90 anos. Sua partida encerrou uma trajetória marcada pelo respeito, pela ética e pelo senso de responsabilidade. Permanece, contudo, a contribuição deixada por sua atuação profissional e por seus escritos.
Entre esses textos, “Allyrio resgatado” ocupa lugar especial. Publicado há mais de quatro décadas, o artigo continua sendo um importante testemunho sobre a recepção da obra de Allyrio Wanderley e sobre a necessidade de preservar a memória de seus grandes intelectuais.
Ao recuperar Allyrio, Firmo também deixou um registro de sua própria geração: uma geração que encontrou nos livros, nas conversas e nos espaços culturais de João Pessoa elementos fundamentais para sua formação.
Assim, o olhar de Firmo Justino de Oliveira nos apresenta um Allyrio Wanderley que ultrapassa a condição de escritor regional. Surge um intelectual de dimensão ampla, um pensador inquieto, um homem de cultura e um autor cuja obra continua a merecer leitura, estudo e divulgação.
O resgate defendido por Firmo em 1982 permanece como uma tarefa cultural. Recolocar Allyrio Wanderley no centro da memória literária paraibana significa reconhecer uma inteligência que, como escreveu o próprio articulista, esteve entre as maiores expressões do saber bem aplicado que a Paraíba foi capaz de produzir.
Ao olhar para Allyrio Wanderley, Firmo Justino de Oliveira não procurou apenas recordar um grande escritor. Procurou compreender por que uma inteligência de tamanha dimensão ainda permanecia parcialmente afastada do reconhecimento público. Seu artigo, publicado em 1982, tornou-se, por isso, uma defesa da memória e um convite à redescoberta. Na realidade, seu olhar sobre Allyrio permanece especialmente valioso porque revela o escritor não apenas como autor de livros, mas como uma presença intelectual que marcou gerações e cuja obra continua a reclamar estudo, divulgação e permanência. Em resumo, Firmo Justino não apenas descreveu Allyrio Meira Wanderley: ele ajudou a recolocá-lo no debate cultural da Paraíba.
José Ozildo dos Santos
Historiador e professor universitário
