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Allyrio Wanderley visto por Geraldo Sobral – Da série “Allyrio Wanderley visto por…” (de José Ozildo)

Uma conversa que ficou na história

Entre os testemunhos produzidos sobre Allyrio Meira Wanderley ao longo do tempo, alguns se destacam pelo rigor da análise literária; outros, pela dimensão memorialística. Há, ainda, aqueles que ganham importância justamente por terem sido escritos por pessoas que conviveram de perto com o escritor, acompanharam seus gestos cotidianos, ouviram suas confidências e conheceram, para além da obra publicada, o homem que existia por trás dela. É nessa última categoria que se insere Geraldo Sobral de Lima, jornalista paraibano de grande renome e um dos nomes vinculados à história do jornalismo paraibano do século XX.

Publicado em 20 de janeiro de 1955, o artigo ‘Uma Conversa com Allyrio Wanderley’ possui uma característica que o torna especialmente valioso para a compreensão da personalidade e da trajetória intelectual de Allyrio: Geraldo Sobral não escreve como um crítico distante, que observa o escritor exclusivamente através de seus livros. Escreve como alguém que conviveu com ele, trabalhou ao seu lado e teve acesso ao homem em sua intimidade intelectual e emocional. O próprio texto deixa isso evidente desde as primeiras linhas, quando o autor recorda um dos últimos contatos que manteve com Allyrio, poucos dias antes de sua morte.

Essa proximidade modifica inteiramente a natureza do testemunho. Geraldo Sobral não pretende construir uma biografia de Allyrio, tampouco elaborar uma apreciação sistemática de sua produção literária. O que faz é registrar uma conversa. Entretanto, dessa conversa emerge um retrato extraordinariamente expressivo: o de um escritor inconformado com a crítica, profundamente comprometido com sua obra, atormentado pela incompreensão dos contemporâneos e, ao mesmo tempo, marcado por uma personalidade irônica, sarcástica e aparentemente agressiva, atrás da qual se escondia um homem profundamente sensível.

É justamente essa dimensão humana que faz de ‘Uma Conversa com Allyrio Wanderley’ um dos testemunhos mais significativos já escrito sobre esse grande escritor patoense.

Geraldo Sobral conheceu Allyrio Wanderley por dentro de seu cotidiano. E, ao fazê-lo, conseguiu perceber aquilo          que talvez muitos leitores e críticos não tenham percebido: a ironia de Allyrio era, em boa medida, uma máscara. Por trás dela havia um homem amargurado, solitário e dolorosamente consciente da distância entre aquilo que pretendia realizar literariamente e aquilo que seus contemporâneos conseguiam compreender.

Geraldo Sobral: o amigo que fala do amigo

A primeira particularidade que precisa ser ressaltada quando se lê Geraldo Sobral falando sobre Allyrio é exatamente a natureza da relação entre os dois. Não estamos diante de um crítico que encontrou os livros de Allyrio numa biblioteca e decidiu analisá-los. Estamos diante de um jornalista que trabalhava com ele, convivia com ele e compartilhava o ambiente da redação de “O Norte”.

Essa circunstância é fundamental.

Geraldo Sobral de Lima foi um dos principais redatores de O Norte e, ainda na década de 1940, tornou-se secretário da redação daquele importante jornal paraibano. É nesse espaço profissional que sua trajetória se aproxima da de Allyrio. A redação, portanto, não era apenas o cenário físico do encontro entre os dois. Era também o ambiente no qual se estabelecia uma convivência intelectual cotidiana, feita de conversas, observações, discussões, opiniões e, sobretudo, de uma proximidade que permitia a Geraldo enxergar aspectos de Allyrio que dificilmente seriam percebidos por alguém que tivesse apenas contato eventual com o escritor.

Essa condição explica o tom do artigo. Geraldo não constrói um personagem distante. Ele se coloca dentro da cena. A certa altura, lembra que Allyrio bate violentamente com o punho “na minha banca de secretário deste jornal” enquanto discute a maneira como sua obra vinha sendo recebida pela crítica.

A expressão é aparentemente simples, mas possui grande força documental. Ela situa os dois homens no espaço concreto da redação. Não estamos diante de uma lembrança abstrata. Geraldo recorda onde estava, o que fazia, como Allyrio se comportava e até mesmo os gestos corporais que acompanhavam suas palavras. A entrevista, por isso, possui uma qualidade quase cinematográfica.

O jornalista vê Allyrio diante de si. Observa-lhe os olhos, o movimento do corpo, o tom de voz, o gesto teatral, a mão no queixo, a mudança de expressão. Mais do que reproduzir suas palavras, Geraldo registra sua presença. É exatamente por isso que o artigo ultrapassa o âmbito da crítica literária e se transforma em documento humano sobre Allyrio Wanderley.

Não é, portanto, exagero afirmar que Geraldo Sobral fala de Allyrio como um amigo fala de outro amigo. E essa perspectiva constitui uma das maiores riquezas do texto. O jornalista não pretende ser imparcial no sentido frio e distante da crítica. Ele procura compreender. E, ao procurar compreender, revela um Allyrio que dificilmente poderia aparecer apenas através de resenhas e referências bibliográficas.

O escritor diante da crítica

O ponto de partida da conversa é a literatura. Allyrio fala de seus livros e, particularmente, da trilogia da qual ‘Ranger de Dentes’ constituía o primeiro volume. Geraldo registra que o escritor fala de sua produção “com paixão” e que, ao fazê-lo, manifesta uma mistura de revolta e amargura.

É nesse momento que aparece um dos temas centrais do depoimento: a relação conflituosa de Allyrio com a crítica literária.

A frase é contundente:

“Não temos uma crítica literária”.

A partir daí, Allyrio questiona a classificação de ‘Ranger de Dentes’ como ‘romance telúrico’. O que o incomoda não é apenas a expressão, mas aquilo que ela representa: uma espécie de rotulação crítica que, em sua visão, não alcançava a verdadeira natureza de sua obra.

Sua pergunta – “Mas meu Deus, que entendem eles por ‘romance telúrico’?” – é mais profunda do que parece. Ela traduz a insatisfação de um escritor que não se reconhecia nas categorias utilizadas para defini-lo.

Allyrio não queria ser simplesmente classificado. Queria ser compreendido.

A diferença é importante. A classificação pode ser rápida. No entanto, a compreensão exige leitura, reflexão e disposição para penetrar na estrutura da obra. Na percepção de Allyrio, a crítica de seu tempo permanecia na superfície. Usava adjetivos [‘poderoso, ’telúrico’, ‘vigoroso’] sem explicar efetivamente aquilo que os livros representavam.

Allyrio retorna à questão de maneira insistente:

“Escreve um ‘romance poderoso’, ‘romance telúrico’, ‘romance vigoroso’. Mas que significa romance poderoso, romance vigoroso, romance telúrico?”

Geraldo percebe que há, naquela revolta, muito mais do que vaidade de escritor. Há uma necessidade de reconhecimento intelectual. Allyrio não parece simplesmente desejar elogios. O que deseja é que sua obra seja lida de maneira séria, que seus críticos consigam penetrar no universo que construiu.

É nesse ponto que a conversa alcança uma das passagens mais importantes de todo o artigo.

Geraldo pergunta:

“Mas Allyrio, você escreve para os críticos?”

A pergunta surpreende o escritor. Depois de alguns instantes de hesitação, ele responde que não escreve para os críticos literários. E acrescenta uma afirmação que talvez seja uma das mais reveladoras de sua concepção de literatura:

“Primeiro a gente escreve para si e depois, sim, para os outros. É — a gente escreve para si mesmo”.

Essa declaração modifica a leitura de toda a conversa. Se Allyrio se mostra tão ressentido com a crítica, isso não significa que escreva para agradá-la. Ao contrário. Sua indignação parece nascer precisamente da convicção de que sua obra possui uma autonomia que não deveria ser reduzida às fórmulas empregadas pelos críticos.

Ele escreve primeiro para si. Depois, para os outros.

A literatura, nessa perspectiva, nasce de uma necessidade interior. O escritor não produz para satisfazer expectativas externas: produz porque precisa dizer aquilo que carrega dentro de si. A crítica, portanto, deveria ser capaz de acompanhar esse processo, e não simplesmente impor rótulos.

Por trás da ironia, o homem amargurado

Talvez a passagem mais importante do artigo de Geraldo Sobral não seja aquela em que Allyrio fala sobre literatura, mas aquela em que o jornalista deixa de ouvir apenas suas palavras e passa a observar o homem.

Depois da pergunta sobre os críticos, Geraldo afirma ter percebido que Allyrio era um amargurado. O semblante do escritor, naquele instante, parecia refletir “toda a tristeza da humanidade”.

É uma imagem literariamente poderosa.

Geraldo está dizendo que, durante alguns instantes, conseguiu enxergar o verdadeiro Allyrio. Não o escritor irônico, não o polemista, não o homem sarcástico, não a figura pública que costumava analisar homens e situações com mordacidade. Viu algo que normalmente permanecia oculto. Por isso afirma:

“Foi aí, nesse instante de tão pouca duração, que o compreendi, que vi sem a máscara que utilizou por tanto tempo”.

A expressão ‘máscara’ constitui uma das chaves de leitura de todo o artigo. Para Geraldo Sobral, Allyrio possuía uma máscara de ironia impiedosa. Era através dela que enfrentava o mundo. Era por meio dela que analisava homens, situações e, provavelmente, também as próprias circunstâncias que o cercavam. Mas, naquele momento a máscara caiu. E o que apareceu por trás dela foi um homem triste.

A percepção de Geraldo é particularmente importante porque permite compreender a personalidade de Allyrio para além das imagens que poderiam ter sido construídas por seus contemporâneos. O sarcasmo não era necessariamente expressão de uma personalidade superficialmente agressiva. Poderia ser, antes, uma forma de defesa.

O homem que ironiza talvez seja o mesmo homem que sofre. O homem que ridiculariza determinadas atitudes talvez seja aquele que mais profundamente sente a incompreensão. O homem que parece não se importar com o julgamento alheio talvez seja justamente aquele que sofre por não ser compreendido.

Geraldo percebe essa contradição e a registra com precisão. O Allyrio que aparece diante dele é “amargurado”, “triste”, “não se sentindo compreendido” e, por isso mesmo, ainda mais irônico e sarcástico.

A interpretação é de enorme importância para qualquer estudo biográfico ou literário sobre Allyrio Wanderley. Ela sugere que sua ironia não deve ser analisada isoladamente. É necessário enxergá-la em relação à sua experiência de escritor, à recepção de sua obra e à sensação de incompreensão que o acompanhava.

O drama do escritor incompreendido

A partir desse momento, a conversa adquire uma dimensão quase confessional. Geraldo percebe que Allyrio encontrou nele alguém diante de quem poderia falar. O jornalista observa que o escritor parecia calcular que poderia ser compreendido e que, por isso, desabafou.

A palavra “desabafo” é fundamental. Não se tratava mais de uma conversa sobre literatura em sentido estrito. Allyrio estava falando de si mesmo, de sua experiência, de seus livros, de sua frustração e de sua relação com aqueles que não haviam conseguido compreender plenamente aquilo que escrevera.

O jornalista, por sua vez, percebe-se tão absorvido pela conversa que quase se esquece de suas próprias obrigações profissionais. Estava na redação, havia trabalho a fazer, havia matérias que precisavam ser encaminhadas às linotipos, mas a narrativa de Allyrio o prendia.

Esse pequeno detalhe é extremamente revelador. Geraldo não está simplesmente registrando uma entrevista formal. Está reproduzindo uma conversa que se prolonga porque havia, entre os dois, confiança suficiente para que Allyrio abandonasse por algum tempo a postura pública e falasse de suas inquietações.

O escritor então narra o esforço de mais de quatro anos dedicado à elaboração da trilogia. Geraldo enfatiza o “trabalho intenso”, o “duro labor” e o fato de que Allyrio muitas vezes escrevia repetidamente um único capítulo. Não se tratava apenas de uma preocupação com o estilo. Havia também uma preocupação profunda com o conteúdo.

A comparação com Flaubert é significativa: “como Flaubert, Allyrio também era um atormentado do estilo”.

Geral Sobral, portanto, não apresenta Allyrio como escritor improvisado. Ao contrário, apresenta-o como um autor extremamente exigente consigo mesmo. Sua literatura custava-lhe tempo, esforço e sofrimento.

Essa informação ajuda a compreender a revolta diante da crítica. Se uma obra havia sido construída durante anos, com sucessivas revisões e enorme investimento intelectual, reduzi-la a adjetivos poderia parecer, para o autor, uma forma de incompreensão.

Allyrio, o escritor e o homem sob pressão

Outro aspecto importante da conversa é a referência às dificuldades enfrentadas por Allyrio durante a elaboração de sua trilogia. Geraldo registra que o trabalho literário ocorria em circunstâncias particularmente difíceis. O escritor corria risco de ser preso e havia sido condenado pelo Tribunal de Segurança Nacional. Segundo o relato, teria permanecido “socado numa grota”, perdido nos confins do sertão, recebendo mantimentos, tinta e papel, enquanto escrevia a trilogia.

Independentemente de qualquer discussão posterior sobre a precisão histórica de cada detalhe desse episódio, o que interessa aqui é que é assim que Geraldo registra a memória transmitida pelo próprio Allyrio. E essa memória é parte fundamental do testemunho.

A literatura aparece, então, como resultado de uma experiência de isolamento, risco e adversidade. O escritor não estava simplesmente sentado diante de uma mesa confortável, produzindo uma obra distante das circunstâncias históricas. Sua produção estava ligada a uma existência marcada por tensões políticas e pessoais.

Nesse contexto, ‘Ranger de Dentes’ assume uma dimensão ainda mais significativa. Era o primeiro volume da trilogia e aquele que chegou ao público. Mas, segundo Geraldo, a recepção crítica não correspondeu à expectativa do autor. As manifestações foram, talvez, lisonjeiras, mas não alcançaram aquilo que Allyrio esperava.

O resultado foi dramático: os outros dois romances foram guardados. Allyrio teria decidido preservá-los daquilo que considerava a ignorância e a incompreensão dos homens. Deixou-os numa gaveta, perdidos.

A imagem da gaveta é uma das mais fortes do artigo. A gaveta passa a representar não apenas o lugar físico onde os manuscritos foram guardados, mas também o destino de uma obra que o autor julgava não ter encontrado ainda seus leitores. É como se Allyrio preferisse silenciar seus livros a permitir que fossem novamente submetidos a uma leitura que considerava superficial.

Stendhal, o conforto dos incompreendidos

Percebendo o drama de Allyrio, Geraldo tenta confortá-lo recorrendo a Stendhal. A escolha não é casual. Stendhal tornou-se, na conversa, uma espécie de símbolo do escritor que não encontra imediatamente a compreensão de seus contemporâneos. Geraldo recorda que o autor de Le Rouge et le Noir também conheceu dificuldades de recepção.

A resposta de Allyrio, porém, é reveladora:

“Stendhal ainda teve um Balzac, e mais tarde um Taine”.

Em poucas palavras, Allyrio expõe novamente sua própria solidão. Stendhal poderia ter encontrado, em algum momento, leitores e críticos capazes de reconhecê-lo. Balzac e Taine aparecem como referências de uma posteridade crítica que, de algum modo, contribuiria para sua valorização. Allyrio, entretanto, parece não enxergar ao seu redor essa mesma possibilidade.

A conversa sobre Stendhal reforça, assim, o grande tema do artigo: o drama do escritor incompreendido por seu tempo. Geraldo compreende que Allyrio não está simplesmente reclamando de uma crítica ruim. Ele está falando de algo muito mais profundo: do medo de que sua obra não encontre, em vida, os leitores capazes de entendê-la. Por isso, a história de Stendhal funciona como espelho. E o próprio Allyrio parece reconhecer-se nele.

O teatrólogo alemão e a profecia sobre a posteridade

No encerramento da conversa, retorna à memória de Allyrio a figura de um teatrólogo alemão, cujo nome Geraldo afirma não recordar. O escritor conta a história de um autor teatral que produziu uma peça, levou-a ao palco e conheceu o fracasso. Não desistiu imediatamente. Escreveu outra peça, mais trabalhada e melhor acabada. Novamente fracassou. Depois disso, desistiu de tentar apresentar suas obras ao público.

A história poderia terminar aí, como mais uma narrativa sobre o fracasso de um artista. Mas há uma reviravolta. Muitos anos depois de sua morte, foram encontradas entre seus objetos outras peças. E, então, ocorreu aquilo que não havia acontecido em vida: o teatrólogo foi compreendido. Suas peças encontraram aplauso e consagração.

A história funciona como uma espécie de parábola. Allyrio está falando de outro escritor, mas é impossível não perceber que está também falando de si mesmo.

O teatrólogo alemão representa o artista que não encontra reconhecimento em seu próprio tempo e que somente posteriormente é compreendido. A morte, paradoxalmente, abre espaço para uma leitura diferente da obra.

É nesse momento que a conversa atinge seu ponto mais simbólico. Allyrio afirma:

“Ainda pode haver autores desse tipo, perdidos pelo mundo afora. Até mesmo no Brasil”.

Geraldo, imediatamente, completa o pensamento:

“É. Até na Paraíba”.

E encerra o artigo com uma frase deliberadamente suspensa:

“Aqui na redação de ‘O NORTE’…”

Essa interrupção é extraordinariamente sugestiva. Geraldo não precisa dizer o nome. O leitor sabe. O homem que acabara de falar sobre autores incompreendidos, sobre obras esquecidas e sobre escritores que somente depois da morte encontraram consagração estava ali, na própria redação do jornal, diante do jornalista que registraria aquela conversa.

A frase interrompida transforma-se, assim, numa espécie de epitáfio literário antecipado.

A redação de ‘O Norte’ como espaço da memória

Há uma dimensão simbólica particularmente forte no fato de que toda essa conversa acontece na redação de O Norte.

O jornal não é apenas o local onde Geraldo e Allyrio trabalhavam. Na narrativa, ele se transforma em espaço de memória. É ali que o escritor fala de seus livros, reclama da crítica, expõe sua amargura, recorda outros escritores e manifesta sua preocupação com o destino de sua obra.

A redação funciona como cenário de uma espécie de confissão. E isso confere ao texto de Geraldo Sobral uma importância documental extraordinária. A história da literatura paraibana não se encontra apenas nos livros publicados. Também está nas redações dos jornais, nas conversas entre jornalistas e escritores, nos manuscritos guardados, nas discussões sobre crítica e nas memórias daqueles que conviveram com os autores.

Geraldo era testemunha privilegiada desse universo. Ao recordar que Allyrio bateu o punho em sua mesa, que ficou olhando-o longamente, que colocou a mão no queixo, que seus olhos estavam esgazeados e que, por alguns instantes, sua habitual ironia desapareceu, o jornalista preserva algo que nenhuma bibliografia conseguiria registrar. É justamente essa dimensão humana que diferencia seu testemunho.

Geraldo Sobral e a descoberta do ‘verdadeiro Allyrio’

O grande mérito de Geraldo Sobral talvez esteja em ter percebido que existiam dois Allyrios. Havia o Allyrio público, irônico, sarcástico, mordaz, capaz de enfrentar homens e situações com uma inteligência crítica que muitas vezes poderia parecer agressiva. E havia o Allyrio privado, que aparece quando a máscara desaparece: triste, amargurado, inseguro quanto à recepção de sua obra e profundamente ferido pela incompreensão.

Geraldo vê esse segundo homem. Por isso sua frase – “que o compreendi” – é talvez a mais importante de todo o texto.  Ele não afirma apenas que ouviu Allyrio. Afirma que o compreendeu. Essa diferença é essencial.

Ouvir significa registrar palavras. Compreender significa alcançar aquilo que está por trás delas. E Geraldo parece ter compreendido que a agressividade de Allyrio contra a crítica escondia uma necessidade muito humana de reconhecimento, que sua ironia escondia sofrimento, que sua aparente autossuficiência escondia solidão, e que sua insistência em falar dos escritores incompreendidos talvez revelasse uma preocupação consigo próprio.

O jornalista consegue, dessa maneira, construir um retrato psicológico de Allyrio sem jamais pretender fazer psicologia. Ele simplesmente observa. E, ao observar, revela.

O legado de um escritor que se sentia incompreendido

Lido hoje, o texto de Geraldo Sobral adquire uma dimensão que provavelmente nem o próprio autor poderia imaginar completamente em 1955. Allyrio Wanderley aparece ali como alguém que tinha consciência de que poderia não ser compreendido em seu próprio tempo. A preocupação com os dois romances que permaneceram guardados, a crítica às classificações literárias, a referência a Stendhal e, sobretudo, a história do teatrólogo alemão convergem para uma mesma ideia: a posteridade poderia oferecer à obra aquilo que o presente lhe negava.

Essa consciência dá ao artigo uma tonalidade quase profética. Geraldo escreveu o texto quarto dias após a morte de Allyrio. Por isso, a conversa adquire retrospectivamente um significado ainda maior. Aquilo que, em vida, poderia parecer apenas uma manifestação de amargura passa a ser lido como uma reflexão sobre o destino de sua própria obra.

O escritor que temia não ser compreendido tornou-se, décadas depois, objeto de estudos, pesquisas, depoimentos e iniciativas de recuperação de sua memória. A própria existência de uma série dedicada a reunir diferentes olhares sobre sua trajetória – essa série de artigos que estamos desenvolvendo – constitui, de certa maneira, uma resposta tardia à inquietação manifestada naquela conversa. E talvez seja exatamente isso que torna o artigo de Geraldo Sobral tão importante. Ele não apenas descreveu Allyrio. Ele registrou a consciência que Allyrio tinha de sua própria incompreensão.

Um testemunho entre a amizade e a literatura

Ao final da leitura, percebe-se que Geraldo Sobral não pretende oferecer ao leitor uma interpretação definitiva de Allyrio Wanderley. Sua força está justamente no contrário. Ele oferece uma experiência de convivência.

O jornalista não fala simplesmente sobre Allyrio. Fala com Allyrio e, sobretudo, fala a partir da lembrança de uma conversa. Essa perspectiva faz toda a diferença.

O crítico literário poderia analisar ‘Ranger de Dentes’. O historiador poderia situar Allyrio em seu tempo. O biógrafo poderia reconstruir sua trajetória. Mas Geraldo Sobral oferece algo que somente uma pessoa próxima poderia oferecer: o som da voz, a mudança do semblante, o gesto, a irritação, o silêncio, a amargura, a ironia e o desabafo.

É o Allyrio que surge quando a personagem pública desaparece.

Por isso, entre os diversos testemunhos que podem ser reunidos para reconstruir a trajetória desse escritor paraibano, o artigo de Geraldo Sobral ocupa um lugar especial. Ele nos permite enxergar o autor de Bolsos Vazios e Ranger de Dentes não apenas como um nome da literatura paraibana, mas como um homem de carne e osso, com suas inquietações, suas contradições, suas esperanças e suas frustrações.

E há, finalmente, algo profundamente comovente no modo como Geraldo encerra seu relato.

Allyrio fala de escritores perdidos pelo mundo, incompreendidos durante a vida e reconhecidos somente depois da morte. Geraldo responde que isso poderia acontecer “até na Paraíba”. E, quando Allyrio ainda está dentro da própria redação de O Norte, o jornalista interrompe a frase:

“Aqui na redação de ‘O NORTE’…”

Não há necessidade de concluir.

A frase permanece suspensa porque o leitor já compreendeu.

Geraldo Sobral estava dizendo, sem dizê-lo explicitamente, que aquele escritor que se sentia incompreendido poderia ser justamente um desses autores. Um daqueles homens cuja obra talvez precisasse do tempo para encontrar seus leitores.

E é precisamente aí que reside a grandeza do testemunho de Geraldo Sobral de Lima: ele foi amigo de Allyrio, mas conseguiu transformar a amizade em documento; conviveu com o escritor, mas soube enxergar o homem; ouviu suas queixas, mas percebeu sua dor; testemunhou sua ironia, mas descobriu o sofrimento que havia por trás dela.

Se outros críticos falaram sobre os livros de Allyrio, Geraldo Sobral falou sobre o homem que escreveu esses livros. E, talvez por isso, seu depoimento permaneça como um dos mais humanos e reveladores retratos de Allyrio Wanderley visto por alguém que realmente o conheceu.

José Ozildo dos Santos
Historiador e professor universitário