O despertar do sertão sob o olhar de Ernest Foder
O artigo ‘O despertar do sertão’, de Ernest Foder, publicado em O Jornal, do Rio de Janeiro, na edição de domingo, 28 de outubro de 1945, pouco depois do lançamento de Ranger de Dentes, não se limita a apresentar uma apreciação crítica desse romance de Allyrio Meira Wanderley. Ele realiza algo mais significativo: recupera a trajetória anterior do escritor, estabelece uma continuidade entre o jornalista combativo dos anos 1930 e o romancista que se destacava no cenário nacional, identifica no novo livro uma interpretação social do sertão paraibano e, finalmente, reconhece em seu autor uma personalidade literária dotada de independência, coragem e profunda capacidade de observação.
O próprio início do artigo é revelador. Ernest Foder apresenta Allyrio como alguém que, embora estivesse estreando no romance, “não é um desconhecido para o público brasileiro”. A afirmação imediatamente desloca a leitura de ‘Ranger de Dentes’ do simples acontecimento editorial para o contexto mais amplo da atuação intelectual de seu autor. Antes de ser romancista, Allyrio já havia construído uma reputação na imprensa brasileira, especialmente por sua atuação como crítico literário e polemista. Foder, portanto, não apresenta um escritor que surgia do nada, mas um intelectual que havia chegado à ficção depois de uma trajetória marcada pela intervenção pública.
Essa observação é essencial para compreender a lógica do artigo. Para Ernest Foder, o romance não representa uma ruptura absoluta com o passado de Allyrio. Ao contrário, a obra literária parece ser consequência natural de uma personalidade intelectual que já se distinguira pela independência de pensamento. O crítico reconhece no romancista a mesma disposição de enfrentar questões difíceis, observar a realidade com rigor e assumir posições próprias que caracterizara o jornalista.
É justamente nesse ponto que o artigo adquire uma dimensão biográfica. Antes de discutir propriamente ‘Ranger de Dentes’, Foder volta a 1934, quando Allyrio, colaborando no ‘Correio de São Paulo’, enfrentou publicamente o nazismo em uma época na qual, conforme observa o articulista, o movimento ainda possuía numerosos simpatizantes em diferentes países. O gesto, na avaliação de Foder, foi de extraordinária coragem. Allyrio teria sido capaz de identificar no nazismo não apenas uma doutrina política adversária, mas uma ameaça civilizacional que precisava ser denunciada.
O jornalista que enfrentou o nazismo
A evocação da atividade jornalística de Allyrio é uma das passagens mais expressivas do artigo. Foder lembra que, em 1934, o escritor utilizou as páginas do ‘Correio de São Paulo’ para publicar dois rodapés intitulados ‘A Farândola Loura’, inspirados no livro francês ‘Tais quais eles são’. A intenção era examinar criticamente o nazismo, suas doutrinas e seus principais dirigentes.
O aspecto que mais impressiona Foder não é apenas a contundência da linguagem utilizada por Allyrio, mas o fundamento de sua crítica. Segundo o articulista, Allyrio não se deixou conduzir simplesmente por palavras violentas ou julgamentos apaixonados. Sua argumentação apoiava-se em uma exposição que Foder qualifica como ‘fria e científica’. Essa característica é importante porque revela o conceito de intelectual que o jornalista alemão projetava sobre Allyrio: um escritor que podia ser apaixonado pela causa que defendia sem abandonar a racionalidade da análise.
O combate ao antissemitismo é apresentado como uma das dimensões mais lúcidas daquela intervenção jornalística. Allyrio teria percebido que a perseguição aos judeus constituía uma forma de canalizar o descontentamento social para um alvo artificial, criando condições para que interesses econômicos e políticos se expandissem. Foder destaca ainda que o jornalista brasileiro antecipara a dimensão catastrófica que a perseguição aos judeus poderia assumir.
A observação assume significado ainda maior quando considerada a própria trajetória de Ernest Foder, que nascera em Berlim, em 1881, era judeu e desenvolveu carreira como jornalista, escritor, editor e jurista. Seu posicionamento político contrário ao nacional-socialismo e sua ascendência judaica fizeram com que ele fosse obrigado a deixar a Alemanha em 1933, iniciando uma trajetória de exílio que passaria pela Suíça, França e Portugal antes de sua chegada ao Brasil, em 1941.
Assim, quando Foder recupera a luta de Allyrio contra o nazismo, não fala apenas como observador distante. Sua própria história confere uma densidade especial à apreciação. O homem que escreve sobre o jornalista brasileiro – que denunciou o antissemitismo – é alguém que havia experimentado diretamente as consequências políticas e humanas da ideologia combatida por Allyrio.
Essa circunstância não precisa ser transformada em explicação exclusiva do elogio de Foder, mas constitui elemento relevante para compreender a intensidade com que ele descreve a atuação do escritor e jornalista paraibano. A coragem de Allyrio aparece, para Foder, como uma qualidade intelectual e moral.
A coragem cívica como marca de Allyrio
O artigo reproduz duas passagens particularmente expressivas dos textos de Allyrio. Na primeira, o jornalista patoense advertia que o Ocidente não poderia permanecer indiferente enquanto o nazismo avançasse pela Europa. Na segunda, exigia uma reação concreta contra os propagadores do preconceito, estabelecendo uma comparação entre o combate aos vendedores de entorpecentes e o combate aos “vendedores de crueldade”.
Para Foder, essas manifestações possuíam caráter excepcional. Ele afirma que aquela linguagem era “franca e direta” e praticamente inédita naquele momento. Por isso, considera os dois textos publicados no jornal paulista como exemplos de coragem cívica na luta contra o nazismo.
A expressão “coragem cívica” é particularmente significativa para a compreensão que Foder constrói de Allyrio. Não se trata apenas da coragem de um jornalista que escreve contra determinada ideologia. Trata-se da coragem de um intelectual que assume riscos para defender aquilo que considera essencial à dignidade humana. A crítica política, nessa perspectiva, transforma-se em responsabilidade moral. Essa característica aproxima o jornalista de 1934 do romancista de 1945. Foder parece sugerir que há, sob diferentes formas de expressão, uma mesma personalidade intelectual. O homem que combateu o nazismo na imprensa seria o mesmo que, anos depois, mergulhou na realidade do sertão para revelar suas contradições.
A reação dos nazistas e o preço da independência
Outro aspecto relevante do artigo é a descrição das consequências enfrentadas por Allyrio em razão de sua postura antinazista. Foder afirma que os nazistas alemães, particularmente os instalados em São Paulo, reagiram com extrema hostilidade. A ofensiva teria alcançado os jornais nos quais Allyrio colaborava e envolvido o próprio cônsul alemão em São Paulo, Rudolf Rabe.
A intervenção não teria ocorrido apenas no terreno das ideias. Segundo Foder, interesses econômicos da colônia alemã também entraram em cena. Empresas industriais e comerciais que anunciavam nos jornais paulistas teriam pressionado os veículos de imprensa em razão da colaboração de Allyrio, considerado hostil à Suástica e contrário às doutrinas do Terceiro Reich. O episódio demonstra, na narrativa de Foder, a dimensão concreta do conflito entre liberdade intelectual e interesses econômicos.
Essa passagem é importante para a construção da imagem de Allyrio porque mostra que sua independência não era meramente retórica. Ela possuía consequências práticas. O escritor teria enfrentado forças políticas e econômicas que dispunham de mecanismos para pressionar a imprensa.
Foder afirma que Allyrio não conseguiu resistir aos ataques combinados e acabou suspendendo sua atividade jornalística. Esse momento é interpretado como uma espécie de inflexão decisiva em sua trajetória. O jornalista deixa a arena imediata da política e retorna à Paraíba. Mas o retorno, na leitura de Foder, não representa uma derrota intelectual. Ao contrário, transforma-se em condição para o nascimento de romancista mais comprometido com as questões sociais.
O retorno à Paraíba e a produção de um novo romance
É justamente nesse momento que o título ‘O despertar do sertão’ começa a ganhar toda a sua força. Foder afirma que Allyrio abandonou sua atividade jornalística e voltou ao “seu torrão”, a Paraíba, onde passou a observar, examinar e comparar o país e seus habitantes. Depois, teria esboçado, escrito e burilado o romance de sua terra.
Essa formulação apresenta a criação literária como resultado de um longo processo de observação. O romancista não teria simplesmente imaginado o sertão: teria retornado a ele, estudado sua realidade, observado seus habitantes e transformado essa experiência em matéria ficcional.
Há, nessa leitura, uma relação direta entre silêncio e criação. Foder considera acertada a decisão de Allyrio de renunciar à política e dedicar-se à observação das particularidades e dos mistérios de sua terra. O escritor teria deixado de falar imediatamente para, durante algum tempo, observar e elaborar aquilo que posteriormente transformaria em literatura.
É nesse contexto que Foder recorre a Nietzsche, reproduzindo a conhecida imagem da nuvem que precisa acumular-se antes de desencadear o raio. A metáfora é extremamente feliz para a compreensão do processo criativo atribuído a Allyrio: o silêncio não significa ausência de atividade, mas concentração de energia. O afastamento da polêmica política teria permitido ao escritor acumular observações, experiências e reflexões até transformá-las em obra literária. O romancista, portanto, ressurge do silêncio do jornalista. O silêncio não elimina a combatividade anterior, apenas modifica sua forma de manifestação.
A mesma independência em duas fases
Um dos juízos mais importantes de Ernest Foder aparece quando ele compara explicitamente o Allyrio polemista do passado com o autor de ‘Ranger de Dentes’. Apesar de reconhecer a diversidade entre as duas atividades, afirma encontrar na obra atual “a mesma independência do espírito, a mesma intransigência do caráter, a mesma intensidade do sentimento humano”.
Essa passagem constitui, talvez, a chave interpretativa de todo o artigo. Para Foder, não existem dois Allyrios completamente distintos. Existe uma mesma personalidade intelectual que se expressa por meio de gêneros diferentes. O jornalista político, o crítico literário e o romancista são manifestações de uma mesma consciência.
A independência de espírito permanece. A intransigência do caráter permanece. A intensidade do sentimento humano permanece. Mudam o gênero, o objeto e os instrumentos. Não muda, entretanto, o núcleo moral do escritor. Essa interpretação permite compreender por que Foder começa seu artigo pelo passado jornalístico de Allyrio antes de discutir o romance. Ele deseja mostrar que ‘Ranger de Dentes’ não é uma obra isolada. É o resultado de uma trajetória intelectual.
O sertão paraibano encontra seu romancista
Depois de recuperar o passado de Allyrio, Foder chega ao que parece ser o núcleo principal de sua avaliação: a representação literária do sertão. Ele afirma que, pela primeira vez, o sertão da Paraíba – que considera um resumo bastante completo do sertão nordestino – havia encontrado seu romancista. A afirmação é de grande alcance. Ela coloca Allyrio ao lado de dois nomes já consagrados da literatura regional brasileira: José Lins do Rego e José Américo.
Foder estabelece uma espécie de geografia literária do Nordeste. O litoral e a várzea, marcados pela cultura da cana-de-açúcar, já possuíam em José Lins do Rego seu “experimentado historiador”. O brejo e o planalto, associados ao gado e aos cereais, haviam sido tornados familiares pelo talento de José Américo. Faltava, entretanto, quem narrasse a zona seca, seus algodoais e a vida de sua população.
É nesse espaço que Foder situa Allyrio. A importância dessa afirmação ultrapassa a simples classificação de ‘Ranger de Dentes’ como romance regional. O que está em jogo é a incorporação de uma região específica à literatura brasileira. O sertão seco, segundo a leitura de Foder, ainda aguardava uma representação capaz de revelar sua vida interna. Allyrio aparece, assim, como escritor de uma região que permanecera parcialmente ausente do grande mapa literário nordestino.
Um romance regional diferente
Foder reconhece que ‘Ranger de Dentes’ pode ser chamado de romance regional, mas imediatamente faz uma ressalva fundamental: não no sentido tradicional de uma literatura dedicada apenas às imagens pitorescas da paisagem ou às considerações sentimentais sobre as dificuldades e a miséria da existência sertaneja.
Essa distinção é decisiva. Para o crítico, Allyrio não utiliza o sertão simplesmente como cenário. O espaço regional funciona como estrutura explicativa da vida social. O escritor procura compreender a relação entre os fatores físicos, as condições econômicas, o comportamento coletivo e a formação individual.
O romance, portanto, não se limita a mostrar o sertão. Procura explicá-lo. Essa é uma das maiores qualidades identificadas por Foder. A paisagem não é um elemento decorativo. As condições materiais da existência interferem na formação da sociedade e dos indivíduos. O sertão é apresentado como espaço histórico e econômico, marcado por relações de poder, desigualdades e transformações.
O choque entre o antigo e o moderno
Entre os elementos que Foder identifica em ‘Ranger de Dentes’, destaca-se o conflito entre o antigo feudalismo e as ideias modernas. O romance apresentaria uma sociedade em transformação, na qual estruturas antigas começam a perder sustentação diante de novas concepções e novas condições econômicas.
Essa interpretação confere ao romance uma dimensão histórica. Não se trata apenas da história de personagens particulares, mas de uma sociedade submetida a um processo de mudança. Foder identifica, de um lado, o atraso de uma civilização que avança lentamente; de outro, o processo de desaparecimento das bases econômicas e psicológicas de determinada camada social. A literatura de Allyrio seria, nesse sentido, uma forma de registrar o momento em que uma ordem histórica começa a perder sua estabilidade.
O título do romance ganha, sob essa perspectiva, uma dimensão simbólica. O “ranger de dentes” corresponde ao momento anterior à explosão da rebeldia. É a manifestação de uma tensão acumulada, de uma insatisfação que ainda não se transformou completamente em revolta aberta.
O “acordar do sertão”
Foder classifica ‘Ranger de Dentes’ com um “romance de tese” e identifica sua tese como sendo justamente o “acordar do sertão”. O conceito é desenvolvido como tomada de consciência de uma população diante de antigas injustiças e desigualdades que não deveriam ter sido suportadas.
Essa leitura oferece uma interpretação particularmente rica do título ‘Ranger de Dentes’. O ranger não seria ainda a rebelião. É o ruído que antecede a rebelião. É o sintoma de uma consciência que começa a perceber a própria situação.
Há, portanto, uma dimensão coletiva na obra. O despertar não pertence exclusivamente a um personagem. É o despertar de uma sociedade.
Ao mesmo tempo, Foder faz questão de esclarecer que a tese não é apresentada de maneira artificial. O romance não seria composto de personagens construídos como simples “bonecos” encarregados de representar diferentes ideias. São, segundo ele, homens vivos, convincentes, personagens com os quais o leitor convive e de quem se recorda como se os tivesse encontrado na rua ou em casa. Essa observação constitui um elogio à capacidade de Allyrio de transformar ideias sociais em personagens humanos.
Entre a tese e a humanidade
O grande mérito de ‘Ranger de Dentes’ na visão de Foder, consiste justamente em evitar que a dimensão social destrua a dimensão humana. O romance é regional e é de tese, mas é, acima de tudo, uma história humana. Os personagens são paraibanos, porém sua humanidade ultrapassa as fronteiras da Paraíba. São homens e mulheres submetidos a qualidades, defeitos, conflitos e contradições que pertencem à experiência humana em geral.
Essa observação é fundamental porque impede uma interpretação estreitamente localista do romance. O sertão é o ponto de partida, mas não é o limite da obra. Os personagens podem ser compreendidos porque seus conflitos são universais. O leitor reconhece neles qualidades que possui e defeitos que muitas vezes não percebe em si mesmo.
O regional, portanto, transforma-se em universal. Essa é uma das características mais importantes da literatura regional quando ela alcança verdadeira dimensão artística: representar profundamente um espaço particular para revelar, por meio dele, problemas que ultrapassam seus limites geográficos.
As condições econômicas e o fator individual
Outro aspecto de grande importância na crítica de Foder é sua observação sobre a relação entre as condições econômicas e a personalidade individual. Ele reconhece que, em ‘Ranger de Dentes’, os homens e suas ideologias são apresentados como elementos profundamente relacionados às condições econômicas. Entretanto, o crítico ressalta que Allyrio não elimina o papel do indivíduo. Ao contrário, o romance preserva um espaço significativo para a personalidade.
Foder chega a invocar Goethe para afirmar a importância da personalidade no curso da evolução humana. Assim, sua leitura percebe no romance uma tensão entre dois princípios: de um lado, as condições objetivas, econômicas e sociais; de outro, a capacidade individual de reagir, escolher e interferir.
É importante destacar que essa observação formulada por Foder impede que ‘Ranger de Dentes’ seja reduzido a uma interpretação puramente determinista da sociedade sertaneja. Esse é mais um ponto que merece ser destacado no artigo daquele renomado crítico alemão.
O indivíduo não é simplesmente produto do meio. As condições econômicas influenciam, condicionam e pressionam, mas a personalidade também participa da história. Essa dimensão humana é particularmente importante para compreender o tratamento que Allyrio dá aos seus personagens.
Ururaí e a voz do próprio autor
Foder encontra no diálogo entre os personagens uma das manifestações mais fortes do talento de Allyrio. Considera a naturalidade e a dimensão espiritual dos diálogos um dos aspectos mais atraentes do romance.
Entre as passagens selecionadas pelo crítico está o diálogo entre a bem-amada e Ururaí. A pergunta sobre se os ricos não sofreriam tanto quanto os pobres recebe de Ururaí uma resposta que Foder considera particularmente significativa. Para ele, nessa resposta parece estar encarnado o próprio autor.
A identificação de Allyrio com Ururaí é uma das observações mais interessantes do artigo. O crítico percebe naquele personagem uma espécie de porta-voz de determinada visão de mundo do escritor.
A resposta de Ururaí não expressa apenas uma revolta econômica. Ela contém uma percepção amarga da condição humana: a dor se torna ainda mais insuportável quando não é compartilhada por todos. Se apenas um grupo sofresse, haveria uma espécie de consolo egoísta. Mas, a consciência de que o sofrimento é distribuído de forma desigual torna a injustiça mais dolorosa.
Ao selecionar essa passagem, Foder identifica no romance uma dimensão que vai além da denúncia social. O problema não é simplesmente a pobreza. É a desigualdade, a comparação entre sofrimentos, privilégios e condições de existência.
A crítica de Foder: o excesso de diálogo
A apreciação de Ernest Foder não é exclusivamente elogiosa. Esse é outro elemento que confere valor ao seu texto. Depois de reconhecer a maestria de Allyrio no diálogo, Foder identifica uma possível fragilidade estrutural: a desproporção entre o diálogo, que ocupa lugar preponderante, e a narrativa propriamente dita, que considera a espinha dorsal de qualquer romance.
A observação é importante porque demonstra que Foder não está produzindo mera homenagem. Ele realiza efetivamente uma leitura crítica. Seu elogio à capacidade dialogal de Allyrio é acompanhado de uma ressalva sobre a arquitetura narrativa. Para o crítico, o grande romance deve apresentar a evolução de um homem.
Em ‘Ranger de Dentes’, entretanto, as figuras principais já surgem praticamente formadas, revelando caracteres previamente constituídos. A crítica, portanto, não diminui o valor do romance. Ao contrário, revela uma expectativa literária específica: Foder gostaria de acompanhar a formação dos personagens e perceber mais claramente o processo pelo qual as condições objetivas e subjetivas, materiais e psicológicas, interferem nessa formação.
A trilogia ‘Crônica de um ocaso’ e um escritor que promete
A crítica ganha uma dimensão prospectiva quando Foder menciona que ‘Ranger de Dentes’ seria a primeira parte de uma trilogia intitulada “Crônica de um ocaso”, seguida por ‘As Formigas’ e ‘Espinho Branco’. Essa informação é importante para a história da obra de Allyrio porque demonstra, que o romance foi concebido dentro de um projeto literário mais amplo.
Foder manifesta o desejo de que as partes seguintes da trilogia apresentem justamente aquilo que, em sua avaliação, faltava parcialmente ao primeiro romance: a evolução de uma personagem, acompanhada ao longo de sua formação sob a influência de fatores objetivos e subjetivos, materiais e psicológicos.
O comentário é, ao mesmo tempo, crítica e expectativa. Foder identifica em Allyrio capacidade suficiente para enfrentar essa tarefa. Não trata, portanto, a observação como uma limitação definitiva, mas como uma possibilidade de desenvolvimento da obra.
O crítico alemão parece enxergar naquele romance que Allyrio publicou em 1945 não apenas uma realização acabada, mas também uma promessa. A conclusão de Foder é sintética e significativa: ‘Ranger de Dentes’ é considerado uma “obra notável”, resultado de observações detidas e sinceras e capaz de despertar reflexões. É, sobretudo, um trabalho que “promete”.
A expressão final é extremamente adequada ao momento em que o artigo foi publicado. Allyrio estava retornando ao romance. Ele não era estreante na vida intelectual. Foder reconhece justamente essa combinação: um escritor experiente na imprensa e na crítica, que agora retornava à ficção. A promessa, nesse sentido, não é apenas a de um livro. É a promessa de uma trajetória literária.
O sertão como espaço de transformação histórica
A grande contribuição da leitura de Foder está em compreender o sertão não como espaço imóvel, mas como realidade histórica em transformação. O sertão de ‘Ranger de Dentes’ não é apenas paisagem. É uma sociedade atravessada por conflitos. É um espaço onde antigas estruturas convivem com ideias novas; onde determinadas camadas sociais veem desaparecer as bases econômicas e psicológicas, que sustentavam sua posição, e, onde indivíduos começam a tomar consciência das injustiças que os cercam.
O “despertar” é, portanto, social, econômico, psicológico e moral.
A obra de Allyrio, na leitura de Foder, registra um momento de transição. O sertão começa a despertar porque suas antigas certezas já não conseguem explicar completamente a realidade. As velhas estruturas ainda existem, mas sua permanência é questionada. O “ranger de dentes” torna-se, então, metáfora da tensão histórica. É o som de uma sociedade que ainda não se revoltou plenamente, mas que já não consegue aceitar passivamente determinadas condições.
Foder chama a atenção para a capacidade de Allyrio de observar detidamente a realidade. O romance nasce de uma experiência de observação, comparação e reflexão. Essa característica aproxima o escritor do historiador e do sociólogo, embora sua obra permaneça essencialmente literária.
Allyrio não produz uma exposição acadêmica sobre o sertão. Produz personagens, conflitos, diálogos e situações. Entretanto, por meio deles, registra estruturas sociais e processos históricos. Essa combinação explica a força que Foder reconhece em Ranger de Dentes. O romance é capaz de despertar reflexões justamente porque não abandona a humanidade dos personagens para transformar a literatura em tratado de sociologia. A tese social existe, mas está incorporada à experiência humana.
Um crítico estrangeiro diante de um escritor paraibano
Há ainda um aspecto simbólico que merece destaque: a avaliação de Allyrio por um intelectual estrangeiro radicado temporariamente no Brasil. Foder era alemão, formado em uma tradição intelectual europeia, com experiência no jornalismo internacional e na imprensa política. Allyrio era um escritor paraibano profundamente ligado ao sertão. O encontro entre ambos ocorre por meio da literatura.
O resultado é particularmente expressivo: um intelectual de trajetória internacional reconhece na experiência sertaneja de Allyrio uma dimensão que ultrapassa o regional. O sertão paraibano, visto por Foder, não é uma periferia literária. É matéria capaz de produzir uma literatura universal. A experiência local transforma-se em reflexão sobre as relações humanas, a desigualdade, a mudança social, a personalidade, a injustiça e a liberdade.
Talvez a maior contribuição de Ernest Foder para a compreensão de Allyrio Wanderley esteja na identificação da continuidade entre o jornalista e o romancista. O Allyrio de 1934, que denuncia o nazismo, e o Allyrio de 1945, que escreve sobre o sertão, podem parecer, à primeira vista, personagens intelectuais distintos. Foder, entretanto, recusa essa separação.
Para Foder, o mesmo espírito independente está presente nos dois momentos. No jornalismo, essa independência manifesta-se na denúncia do nazismo e do antissemitismo. No romance, manifesta-se na disposição de examinar criticamente as estruturas sociais do sertão.
No primeiro caso, Allyrio enfrenta uma ideologia autoritária. No segundo, enfrenta as estruturas históricas que sustentam desigualdades e injustiças. Nos dois casos, há uma mesma atitude: não aceitar passivamente a realidade. É justamente essa continuidade que confere unidade à trajetória de Allyrio na interpretação de Foder.
‘O despertar do sertão’: um título que sintetiza uma época
O título escolhido por Ernest Foder é mais do que uma referência ao conteúdo do romance. Ele funciona como uma síntese de sua interpretação.
O sertão desperta porque toma consciência de sua própria condição. O escritor desperta porque retorna à sua terra depois de um período de silêncio e observação. O romance desperta porque transforma uma realidade regional em objeto de reflexão nacional. E o leitor desperta porque é convidado a perceber, por meio dos personagens, problemas que ultrapassam o espaço sertanejo.
Há, portanto, vários níveis de despertar no artigo de Foder.
O sertão é despertado pela consciência de seus habitantes. Allyrio desperta literariamente depois do silêncio imposto pela experiência jornalística. A literatura brasileira desperta para uma região ainda insuficientemente representada. E o leitor é despertado para uma realidade social que talvez permanecesse distante de sua experiência cotidiana.
Uma apreciação crítica marcada pela confiança
Ernest Foder não apresenta Allyrio como escritor perfeito. Reconhece a força dos diálogos, mas aponta o desequilíbrio entre diálogo e narrativa. Observa que os personagens principais já aparecem formados e manifesta o desejo de acompanhar sua evolução nas partes seguintes da trilogia.
Entretanto, essas ressalvas são acompanhadas de uma confiança inequívoca. Foder considera Allyrio capaz de realizar a tarefa que lhe atribui. O romance ‘Ranger de Dentes’ é visto como obra notável, resultado de observação sincera e capaz de provocar reflexão.
A palavra final – “promete” – é, nesse sentido, uma espécie de aposta literária. Em 1945, Foder não estava apenas avaliando o que Allyrio já havia realizado. Estava dizendo ao público que aquele escritor merecia ser acompanhado. O crítico alemão oferece uma visão externa e, simultaneamente, profundamente sensível do escritor paraibano.
Foder não o vê apenas como romancista regional. Não o vê apenas como jornalista. Não o vê apenas como polemista: ele identifica uma personalidade intelectual coerente, cuja trajetória passa da crítica política à literatura sem perder sua independência fundamental.
A Paraíba, nesse processo, não representa um recuo do escritor para um espaço menor. Ao contrário, é o lugar onde ele encontra a matéria capaz de produzir sua obra mais ambiciosa. O retorno ao sertão é, assim, um retorno às origens, mas também uma nova etapa de sua atividade intelectual.
Allyrio visto por um crítico alemão
O artigo ‘O despertar do sertão’, publicado por Ernest Foder em O Jornal, em sua edição de 28 de outubro de 1945, constitui um dos mais significativos testemunhos críticos contemporâneos ao lançamento de ‘Ranger de Dentes’. Seu valor ultrapassa a apreciação estética do romance porque Foder compreende a obra dentro de uma trajetória intelectual mais ampla e estabelece uma relação direta entre o jornalista que enfrentou o nazismo e o romancista que passou a investigar as contradições do sertão paraibano.
A imagem de Allyrio construída por Foder é, sobretudo, a de um intelectual independente. A mesma independência que o levou a denunciar o nazismo em 1934 aparece, anos depois, na disposição de representar criticamente a sociedade sertaneja. O escritor patoense não procura apenas descrever a paisagem, registrar costumes ou reproduzir imagens pitorescas. Procura compreender os fatores econômicos, sociais e psicológicos que estruturam aquela sociedade.
É nessa perspectiva que Foder identifica em ‘Ranger de Dentes’ o “despertar do sertão”. A expressão sintetiza a ideia de uma sociedade que começa a tomar consciência das injustiças e desigualdades que a atravessam. O romance registra o momento anterior à rebelião aberta: o momento em que o indivíduo e a coletividade começam a perceber que as antigas estruturas já não podem permanecer indefinidamente.
Ao mesmo tempo, Foder recusa uma interpretação exclusivamente determinista. As condições econômicas possuem importância decisiva, mas a personalidade individual também interfere no curso da história. Essa combinação entre estrutura social e ação individual constitui, para o crítico, uma das forças intelectuais do romance.
A comparação com José Lins do Rego e José Américo também confere a Allyrio uma posição específica dentro da literatura regional nordestina. Se o litoral açucareiro e o brejo já possuíam seus grandes intérpretes, o sertão seco, marcado pelos algodoais e por uma realidade econômica e social particular, encontraria em Allyrio seu romancista.
O mais significativo, entretanto, é que Foder não considera esse regionalismo uma limitação. Os personagens são paraibanos, mas são, antes de tudo, seres humanos. Seus conflitos ultrapassam a geografia do sertão. A literatura de Allyrio alcança dimensão universal justamente porque parte de uma realidade concreta, particular e profundamente conhecida.
A própria trajetória de Ernest Foder confere especial densidade ao testemunho. Intelectual alemão, jornalista, jurista e escritor, obrigado ao exílio por sua origem judaica e por sua oposição ao nacional-socialismo, ele conhecia de perto os efeitos da intolerância política e da destruição das liberdades. Sua admiração pela coragem de Allyrio ao combater o nazismo no Brasil adquire, por isso, um significado humano particularmente forte.
Há, finalmente, uma espécie de encontro entre duas experiências de resistência. De um lado, um intelectual europeu que precisou abandonar sua pátria para sobreviver à perseguição nazista; de outro, um escritor brasileiro que enfrentou publicamente aquela ideologia e, posteriormente, encontrou na literatura uma nova forma de intervenção intelectual. As experiências não são equivalentes, mas dialogam pela defesa da liberdade de pensamento e pela recusa da submissão intelectual.
Por tudo isso, Ernest Foder vê em Allyrio Wanderley mais do que o autor de um romance regional. Vê um escritor em processo de amadurecimento, cuja obra nasce de uma longa experiência de observação e de uma personalidade marcada pela independência. ‘Ranger de Dentes’ aparece, então, simultaneamente como realização e promessa: realização porque já se apresenta como obra notável, promessa porque anuncia a possibilidade de uma produção literária ainda mais ampla.
O artigo de Foder registra, desse modo, um momento decisivo na trajetória de Allyrio: aquele em que o jornalista silencia para que o romancista possa falar. Depois de enfrentar, nas páginas dos jornais, o autoritarismo que ameaçava a Europa, Allyrio retorna à Paraíba e mergulha na realidade de sua terra. O resultado é uma obra que, na interpretação de Foder, transforma o sertão em matéria de literatura, história e reflexão social.
O “despertar do sertão” é, portanto, também o despertar de um escritor para sua vocação literária. E Ernest Foder, ao reconhecer esse movimento em 1945, deixou um dos primeiros testemunhos críticos sobre a importância de ‘Ranger de Dentes’ e sobre o lugar que Allyrio Wanderley poderia ocupar na literatura brasileira.
José Ozildo dos Santos
Historiador e professor universitário
