Por mais de quinze anos residi no sertão paraibano, na cidade de Patos, terra natal de Allyrio Meira Wanderley. No entanto, minha aproximação com aquele grande e talentoso escritor não começou em Patos, nem nasceu de uma pesquisa histórica ou acadêmica. Começou muito antes, em 1981, de maneira absolutamente casual, numa situação que hoje considero simbólica. Em um sebo de Natal, na Av. Rio Branco, havia, logo na entrada, um balaio contendo vários livros antigos, alguns rasurados, vendidos a preços promocionais. Entre aqueles volumes encontrei ‘Bolsos Vazios’ e o título chamou-me a atenção.
Àquela época, eu não conhecia Allyrio Wanderley. Não sabia quem era aquele autor, não conhecia sua história e muito menos imaginava a dimensão que sua obra tivera no cenário literário e jornalístico brasileiro. Eu apenas procurava um livro. Tinha pouco dinheiro e queria voltar para o Colégio onde era aluno interno, levando alguma coisa para ler.
Hoje, decorridos quarenta e cinco anos daquele primeiro contato, costumo pensar que não fui exatamente eu quem escolheu ‘Bolsos Vazios’. Talvez tenha sido o livro que me escolheu. O título correspondia, naquele momento, à minha própria realidade. Órfão de pai, eu era e aluno interno do Colégio Agrícola de Jundiaí, na vizinha cidade de Macaíba. Tinha pouco dinheiro e, quando conseguia uma carona, ia a Natal visitar seus sebos e livrarias. Gostava de olhar os livros, percorrer as estantes, observar as vitrines e descobrir autores. Poucos eram os volumes que conseguia comprar. Por isso, aquele balaio de livros baratos representava para mim uma oportunidade.
Levei ‘Bolsos Vazios’ comigo. Não poderia imaginar que aquele livro permaneceria comigo durante essas últimas quatro décadas e que o nome de seu autor acabaria ocupando um espaço tão significativo em minha trajetória de leitor, pesquisador e escritor.
Antes de Allyrio, os livros
Minha história com Allyrio Wanderley não pode ser separada da minha história com os livros. Meu gosto pela leitura surgiu muito cedo. Em Parelhas [no Seridó potiguar], onde vivi parte da infância e da adolescência, a antiga Biblioteca Rui Barbosa tornou-se o meu lugar preferido. Foi ali que conheci os primeiros romances e os primeiros livros de história regional. Naquele ambiente, descobri que os livros poderiam ser muito mais do que objetos de leitura. Poderiam ser portas para outros mundos, instrumentos de conhecimento e, sobretudo, formas de preservar aquilo que o tempo insiste em apagar.
A história regional, particularmente, despertou em mim uma paixão que permanece até hoje. Há aproximadamente cinquenta anos venho me dedicando a ela. Primeiro como leitor curioso. Depois, como pesquisador.
Foi dentro dessa trajetória que Allyrio apareceu. Talvez por isso o encontro com ‘Bolsos Vazios’ tenha produzido efeitos que eu só compreenderia muito mais tarde. Naquela época, eu ainda não tinha capacidade para interpretar a obra que tinha em mãos. Não conhecia a trajetória de seu autor. Não sabia que aquele romance carregava muito da experiência de um homem, que também conhecera as dificuldades, a solidão e os desencontros de uma grande cidade.
Naquele dia, adquiri um livro de um escritor que eu não conhecia. E aquele livro ficou comigo. Guardo-o em lugar especial em minha estante. Algumas folhas soltas, capa rasgada e quase sem lombada. Alguns livros ficam conosco de maneira especial. É o caso daquele ‘Bolsos Vazios’, ficou comigo e tem proporcionado novas descoberta sempre após uma nova releitura.
O reencontro em Patos e o início de uma pesquisa
Em 2002, minha trajetória levou-me a Patos, onde fixei residência. Permaneci naquela cidade até finais de 2017. Foi ali, na Capital do Sertão paraibano, que reencontrei Allyrio Wanderley. O reencontro foi diferente daquele primeiro contato de 1981. Em Natal, eu havia encontrado um livro. Em Patos, reencontrei um escritor.
Passei a conhecer e ler os livros que Allyrio publicou. Comecei a procurar informações sobre sua vida, sobre sua produção literária e sobre sua atuação jornalística. Descobri o escritor, o jornalista, o crítico literário, o conferencista, o ensaísta, o homem de posições fortes e de personalidade igualmente forte. E comecei a perceber que havia muito mais a ser pesquisado.
O artigo que publiquei em 2004, nas páginas de ‘A Voz do Povo’, foi o primeiro resultado público dessa aproximação. Aquele jornal era editado pelo jornalista Joacil Martins, uma das figuras que, em vida, mais contribuíram para a movimentação cultural de Patos. Joacil compreendia a importância de preservar a memória da cidade e de seus personagens. Seu jornal era também um espaço de resistência ao esquecimento. Foi ali que publiquei meu primeiro texto sobre Allyrio. No entanto, eu não sabia que naquele momento, estava iniciando uma pesquisa que se prolongaria por mais de duas décadas.
Depois daquele primeiro trabalho, continuei pesquisando. Outros textos foram publicados. Antes desta série que agora chega às páginas da Folha Patoense, em agosto de 2026, foram nove os trabalhos que dediquei a Allyrio. Cada um deles corresponde a uma etapa dessa caminhada.
O conhecimento sobre Allyrio foi se modificando à medida que novas fontes apareciam. O escritor que eu conhecia em 2004 não é exatamente o mesmo que conheço hoje. Não porque Allyrio tenha mudado, evidentemente, mas porque mudou o meu olhar sobre ele.
A pesquisa faz isso conosco. À medida que lemos mais, descobrimos que aquilo que julgávamos conhecer era apenas uma parte. Uma notícia de jornal pode modificar uma interpretação. Um depoimento pode lançar luz sobre um episódio obscuro. Um livro antigo pode revelar uma informação que permaneceu esquecida por décadas. Uma nova leitura pode nos fazer perceber, sob outra perspectiva, um texto que já conhecíamos. É assim que vem acontecendo comigo em relação a Allyrio. A cada etapa, ele se torna mais complexo. E, paradoxalmente, mais próximo.
Procurando Allyrio nos velhos jornais
Grande parte da minha pesquisa até agora foi dedicada à recuperação de textos de Allyrio, que permanecem dispersos em vários jornais e revistas. Essa é uma das dificuldades centrais para quem pretende estudar sua obra. Allyrio escreveu muito. Escreveu em diferentes épocas, para diferentes veículos e em diferentes lugares. Sua produção não está concentrada em um único arquivo ou em uma única publicação.
Uma parte considerável encontra-se no eixo São Paulo–Rio de Janeiro. Foi ali que Allyrio construiu grande parte de sua carreira jornalística. Escreveu para jornais paulistas, trabalhou como tradutor, participou de projetos editoriais e se envolveu com importantes círculos intelectuais. Posteriormente, no Rio de Janeiro, atuou nos Diários Associados e manteve a coluna ‘A Ronda dos Livros’, além de colaborar com outros jornais.
Esse Allyrio jornalista precisa ser reencontrado. Não apenas porque sua atuação na imprensa foi importante, mas porque uma parcela significativa de seu pensamento está justamente nos artigos, nas críticas, nos ensaios, nas conferências e nos textos publicados nos periódicos de seu tempo.
É por isso que a minha pesquisa ainda está longe de terminar. Há vários jornais a consultar. Há vários textos a localizar. Há várias informações a confrontar. E há, sobretudo, uma obra que precisa das gavetas do esquecimento e voltar a ser lida.
O Allyrio que se revela por suas próprias palavras
Ao longo de minhas pesquisas, uma questão passou a me preocupar particularmente: como reconstruir a vida de Allyrio sem transformar em verdade absoluta aquilo que talvez seja apenas repetição de uma informação incerta?
Considero minha preocupação importante porque existem lacunas na biografia desse ilustre paraibano. Há episódios conhecidos apenas através de relatos posteriores. Há informações que foram reproduzidas por diferentes autores, mas que ainda necessitam de comprovação documental. O próprio artigo que publiquei em ‘Allyrio em Sete’ registra dúvidas relacionadas, por exemplo, à suposta formação de Allyrio em Filosofia na Universidade de Heidelberg [Alemanha] e à sua alegada permanência de quatro anos na Europa.
Não me interessa, portanto, construir uma biografia artificialmente definitiva. Prefiro reconhecer as lacunas. Foi por essa razão que, no trabalho publicado em 2024, procurei utilizar, sempre que possível, as próprias palavras de Allyrio para ajudá-lo a contar sua história. Se alguém deseja saber quem foi aquele homem, talvez deva começar ouvindo o que ele próprio disse sobre sua vida.
A síntese biográfica que produzi naquele trabalho é, reconheço, incompleta. Ainda há fatos a esclarecer. A pesquisa continua justamente porque não considero encerradas as perguntas.
Um sertanejo diante do mundo
Quanto mais conheço a obra de Allyrio, mais me convenço de que ele não pode ser reduzido à condição de escritor regional. Ele foi um homem do sertão, mas não foi um intelectual provinciano.
Allyrio Meira Wanderley nasceu na Fazenda Campo Comprido, no município de Patos, em 22 de outubro de 1906. Ali começou sua história. Depois, ainda jovem, estudou em Patos, João Pessoa e Recife, chegando posteriormente a São Paulo. Sua trajetória intelectual seria marcada por deslocamentos, experiências, dificuldades, confrontos e descobertas.
Em São Paulo, Allyrio enfrentou dificuldades econômicas e empregos temporários. Foi nesse ambiente que ele viveu experiências, que seriam posteriormente transformadas em matéria literária. ‘Bolsos Vazios’, publicado em 1940, está profundamente relacionado a esse universo de dificuldades, conflitos e deslocamentos.
Sua passagem por São Paulo foi decisiva. Ali trabalhou como tradutor e jornalista e esteve ligado a importantes jornais e editoras. Participou, inclusive, do processo de tradução de obras de escritores russos consagrados, numa experiência que posteriormente foi objeto de pesquisas mais minuciosas.
Como jornalista, escreveu para A Razão, Correio de São Paulo, O Dia, A Plateia, A Gazeta, Correio Paulistano, Ação Livre e Revista de São Paulo. Mais tarde, no Rio de Janeiro, trabalhou em jornais ligados aos Diários Associados e manteve durante quase três anos a coluna A Ronda dos Livros, assinando também alguns textos com o pseudônimo Monte Brito.
Essa trajetória revela algo que considero fundamental: Allyrio nunca foi apenas um escritor sertanejo escrevendo sobre o sertão. Foi um intelectual sertanejo que conquistou espaços importantes na imprensa brasileira e dialogou com os grandes debates de seu tempo. Na realidade, aquele homem que saiu do sertão para procurar oportunidades nas grandes cidades não abandonou o seu lugar de origem. Ao contrário. O sertão acompanhou-o. Apareceu em seus romances, em suas conferências, em seus ensaios e em suas reflexões.
No entanto, na obra de Allyrio, o sertão aparece de maneira diferente daquela que encontramos em uma literatura meramente paisagística. Seu sertão é um espaço social. É território de desigualdades, conflitos, pobreza, poder e resistência. Talvez seja justamente aí que esteja uma das maiores forças de sua literatura.
O escritor que incomodava
Allyrio não foi um escritor confortável. Não escreveu para confirmar certezas. Ele não escrevia para agradar. Sua crítica era incisiva. Sua inteligência era acompanhada de uma disposição permanente para o confronto. Não surpreende, portanto, que tenha colecionado desafetos.
Na realidade, seu pensamento era marcado pelo conflito, pela crítica e pela disposição para enfrentar aquilo que considerava errado. Essa característica se manifestou de maneira particularmente forte em sua atuação jornalística.
Em São Paulo, ele enfrentou grupos nazistas que se expandiam naquele período e recebeu ameaças por causa de sua postura. A pressão foi tão intensa que o ‘Louro do Jabre’ acabou abandonando sua atividade jornalística naquele momento e retornando à Paraíba, em 1934.
No ano seguinte, publicou ‘As Bases do Separatismo’, obra que provocou uma das maiores controvérsias de sua trajetória como intelectual. A proposta de divisão do Brasil em cinco regiões independentes foi interpretada pelas autoridades como atentatória à unidade nacional, e o livro chegou a ser associado à propaganda comunista. E, em decorrência disto, a edição foi apreendida.
Não preciso concordar com todas as ideias de Allyrio para reconhecer sua coragem intelectual. Talvez seja justamente esse um dos maiores equívocos de algumas leituras posteriores: querer admirar o escritor somente quando suas ideias coincidem com as nossas.
Allyrio merece ser lido também quando nos incomoda. Porque é aí que seu pensamento revela sua verdadeira dimensão.
A construção de um perfil ou o homem por trás da obra
Uma das coisas que mais me interessam hoje em Allyrio é construir, a partir de sua obra, um perfil literário. Não pretendo apenas enumerar seus livros. Quero compreender o escritor. Quero saber o que há por trás de seus romances. Quero entender sua maneira de observar o mundo. Quero identificar os elementos recorrentes de sua escrita. Quero perceber como o sertão aparece em sua literatura, como ele interpreta a sociedade e como transforma seus próprios conflitos em matéria narrativa.
A leitura continuada tem me mostrado um escritor preocupado com a condição humana. Sua obra está marcada pela denúncia social. Há nela uma preocupação permanente com os direitos do homem e com as estruturas que (re)produzem as desigualdades. O regionalismo de Allyrio não se resume à paisagem: procura compreender as causas sociais e econômicas dos problemas que atingem o indivíduo e a coletividade.
Allyrio é um escritor que observa. Analisa. Interpreta. E, muitas vezes, acusa. Sua literatura possui, por isso, uma dimensão sociológica evidente. Seus personagens estão inseridos em um mundo de conflitos, e suas ações não podem ser compreendidas isoladamente das condições sociais que os cercam.
Quanto mais leio, mais percebo que Allyrio estava interessado não apenas em contar histórias. Ele queria compreender o homem.
Lendo sobre esse grande personalidade nascida nas Espinharas, percebi que não existe apenas o intelectual. Também existe o outro Allyrio: o homem. O Allyrio que não aparece integralmente em seus livros, artigos jornalísticos ou em suas conferências.
Os depoimentos de seus contemporâneos ajudam a reconstruí-lo. Allyrio era tímido, naturalmente simpático, de sorriso simples e às vezes irônico. Tinha consciência de sua capacidade intelectual, mas não era vaidoso. Tratava com naturalidade os trabalhadores das oficinas dos jornais como também as grandes figuras do jornalismo.
Fisicamente, era alto e magro, tinha cabelos alourados, rosto avermelhado pelo sol e uma voz ligeiramente anasalada. Falava com firmeza e possuía um vocabulário que impressionava os ouvintes. Mas, uma definição me parece particularmente expressiva: Allyrio teria sido um homem simultaneamente idealista, otimista e pessimista. Pessimista em relação aos dias vividos e otimista em relação aos dias futuros.
Essa contradição aparente talvez explique muito de sua obra. Quem conhece profundamente os problemas do seu tempo pode tornar-se pessimista diante do presente. Mas, quem continua escrevendo, pensando e lutando demonstra que ainda acredita em alguma possibilidade de futuro. Allyrio escreveu até o fim.
Um escritor que morreu cedo demais
Quando observo a trajetória de Allyrio Meira Wanderley, uma das coisas que mais me impressiona é a brevidade de sua existência. Allyrio morreu em 15 de janeiro de 1955, vítima de uma embolia cerebral. Tinha apenas 48 anos. Morreu em João Pessoa e foi sepultado na cidade de Patos, sua terra natal.
Morreu quando ainda tinha muito a escrever. Essa talvez seja uma das maiores tragédias de sua trajetória. Não apenas porque sua vida foi interrompida, mas porque sua obra ainda estava em processo de amadurecimento. Havia projetos, textos inéditos, estudos e romances que permaneceram inacabados ou não publicados. Houve, inclusive, uma tentativa de viabilizar a publicação de parte dessa produção depois de sua morte, iniciativa que infelizmente não se concretizou.
E então começou outro processo: o do esquecimento.
O escritor que fora manchete de jornais, que havia trabalhado em importantes órgãos da imprensa brasileira, que publicara romances reconhecidos pela crítica e que recebera homenagens de seus contemporâneos foi, aos poucos, desaparecendo da memória nacional.
Esse desaparecimento sempre me incomodou.
Por que continuo pesquisando?
Por que, depois de tantos anos, continuo pesquisando Allyrio Wanderley? A resposta não é simples.
No começo, talvez era apenas curiosidade. Depois, tornou-se interesse histórico. Mais tarde, transformou-se em compromisso intelectual. Hoje, vejo como uma espécie de dívida com a memória. Não uma dívida apenas minha, mas de todos aqueles que reconhecem a importância da literatura e da história cultural da Paraíba.
Allyrio não precisa ser transformado em herói. Não precisa ser apresentado como um homem sem contradições. Não precisa ser protegido de suas próprias ideias.
Precisa ser lido. Precisa ser estudado. Precisa ser discutido. Precisa voltar a ocupar o espaço que um dia ocupou.
É por isso que continuo procurando seus textos.
Quando encontro uma crônica, um artigo ou uma referência a Allyrio em um jornal antigo, sinto a mesma curiosidade que provavelmente senti naquele primeiro contato com ‘Bolsos Vazios’, embora hoje ela seja acompanhada de uma consciência diferente.
Naquele tempo, em 1981, eu procurava um livro. Hoje, procuro um escritor.
‘Allyrio em Sete’: Uma etapa, não um ponto final
Em 2024, quando o pesquisador patoense Delyzmar Dias organizou ‘Allyrio em Sete’, tive a oportunidade de participar desse esforço coletivo de recuperação da memória de Allyrio.
O livro reuniu diferentes olhares. Bruno Gaudêncio, Delyzmar Dias, Gonzaga Rodrigues, José Motta Victor e outros autores contribuíram para que o escritor voltasse a ser discutido sob diferentes perspectivas.
Meu artigo, intitulado ‘Allyrio Meira Wanderley’, representou, para mim, uma espécie de balanço de uma longa etapa de pesquisa. Ali procurei reunir informações sobre sua vida, sua obra, sua atuação jornalística, seus conflitos, suas relações e sua personalidade. Procurei também mostrar que Allyrio não deveria ser visto apenas como o autor de alguns romances, mas como uma figura intelectual de grande amplitude.
No entanto, hoje, ao reler aquele artigo, percebo que ele era apenas a fotografia daquele momento. A pesquisa continuou. E o pesquisador também mudou.
O Allyrio de hoje
O Allyrio que vejo hoje é maior do que aquele que eu conhecia em 2004. Não necessariamente porque tenha descoberto um novo Allyrio, mas porque consegui enxergar melhor o que já estava diante de mim.
Vejo um escritor de dimensão nacional. Vejo um jornalista vigoroso. Vejo um crítico literário de grande coragem. Vejo um intelectual profundamente ligado aos problemas do seu tempo. Vejo um sertanejo que levou o sertão para dentro da literatura brasileira sem transformá-lo em caricatura, em espaço único da miséria.
Vejo um homem contraditório, inquieto, combativo e, por vezes, difícil. Mas vejo também um escritor que acreditava na força da palavra. E talvez seja essa a característica que mais me aproxima dele.
Eu também acredito que a palavra pode salvar do esquecimento aquilo que o tempo tenta apagar. E por isso, associo-me àqueles que escrevem sobre Allyrio na esperança de projetá-lo melhor no presente.
O pesquisador também faz parte da história
Há uma dimensão pessoal que não posso esconder. Ao escrever sobre Allyrio, estou também escrevendo um pouco sobre mim. Minha relação com ele começou quando eu ainda era um jovem estudante, que percorria sebos de Natal procurando livros que pudesse comprar. Depois, reencontrei-o em Patos, quando minha vida me levou à sua cidade natal. Em 2004, escrevi o primeiro artigo sobre Allyrio. Depois vieram outros. Vieram pesquisas, buscas em jornais, consultas a livros antigos, conversas, descobertas e também dúvidas.
Minha história com Allyrio é, portanto, uma história de um leitor que se transformou em pesquisador. Talvez seja por isso que não consiga tratá-lo apenas como objeto de pesquisa.
Existe uma dimensão afetiva nessa relação.
Quando volto àquele exemplar de ‘Bolsos Vazios’ adquirido em 1981 e que ainda guardo comigo, não vejo apenas um livro antigo. Vejo o jovem que eu fui. Vejo a situação em que eu estava. Vejo a vontade de ler, a curiosidade, as limitações financeiras e as caminhadas pelos sebos. E vejo também o começo de uma história que eu não sabia que estava começando.
Ainda há muito a descobrir
Não considero concluída a minha pesquisa sobre Allyrio. Ao contrário. Quanto mais avanço, mais percebo o tamanho da tarefa.
Ainda existem episódios biográficos que precisam ser esclarecidos. Ainda há textos que precisam ser localizados. Ainda há jornais que precisam ser examinados. Ainda há obras que precisam ser recuperadas e, se possível, republicadas.
O artigo que publiquei em ‘Allyrio em Sete’ não encerrou minha pesquisa. Ele registrou uma etapa.
Esta série – que estamos agora publicando na Folha Patoense – também não a encerra. Talvez nenhum trabalho sobre Allyrio consiga fazê-lo. E isso não deve ser visto como uma deficiência. É uma característica própria da pesquisa histórica e literária. Sempre haverá uma nova fonte, uma nova descoberta, uma nova interpretação. O importante é que a busca continue.
O Allyrio que eu conheci sem conhecer
Existe uma ironia bonita em toda essa história. Eu conheci Allyrio antes de saber quem ele era. Conheci-o por um título. Conheci-o por uma história. Conheci-o por uma experiência que, naquele momento, dialogava com a minha própria vida.
Somente muitos anos depois descobri o homem que havia por trás daquele livro. E, mesmo assim, nunca o conheci pessoalmente.
Meu Allyrio é feito de palavras. De palavras que ele escreveu. De palavras que outros escreveram sobre ele. De palavras preservadas nos jornais. De palavras encontradas em livros antigos. De palavras esquecidas durante décadas.
É através delas que venho construindo seu rosto intelectual. E talvez seja essa a única maneira possível de conhecer verdadeiramente um escritor que morreu em 1955.
O Allyrio que vejo
Hoje, se eu tivesse de resumir o ‘meu’ Allyrio Wanderley em poucas palavras, diria que ele foi um escritor que viveu à frente de seu tempo e que, talvez por isso, ainda não tenha sido plenamente compreendido.
Foi um homem do sertão que se tornou cidadão do mundo. Foi um regionalista que alcançou dimensão universal. Foi um jornalista que não se curvou diante dos poderosos. Foi um crítico que não teve medo de criar desafetos.
Foi um romancista que transformou suas próprias inquietações em matéria literária. Foi um intelectual que tentou compreender as doenças de uma sociedade que ainda não havia aprendido a compreendê-lo. E foi, acima de tudo, um homem de palavra.
Sua obra permanece como testemunho de uma inteligência inquieta, original e inconformada. Uma obra que precisa ser melhor estudada para ser compreendida e valorizada em sua totalidade. Mas, existe ainda um outro Allyrio.
Aquele que encontrei, por acaso, em 1981. Aquele que voltou à minha vida na cidade de Patos. Aquele sobre quem escrevi pela primeira vez em 2004. Aquele que ajudei a reapresenta-lo em 2024, nas páginas de ‘Allyrio em Sete’.
E aquele que, agora, retorno a apresentar em 2026, aos 120 anos de seu nascimento, através da Folha Patoense, em espaço privilegiado gentilmente cedido pelo jornalista Wandeci Medeiros.
É esse o Allyrio que eu vejo. Não o Allyrio definitivo, porque ainda não existe uma leitura definitiva sobre ele. Vejo o Allyrio que fui descobrindo lentamente, ao longo de quarenta e cinco anos.
Vejo o Allyrio que continuo procurando nos jornais. Vejo o Allyrio que ainda procuro compreender. E vejo, sobretudo, um escritor que não merece permanecer esquecido.
Talvez tudo tenha começado naquele balaio de livros antigos de um sebo de Natal, quando eu tinha pouco dinheiro e procurava apenas alguma coisa para ler. Ali, encontrei ‘Bolsos Vazios’. E, sem saber, encontrei também uma pergunta que me acompanha até hoje: Como foi possível que um escritor como Allyrio Wanderley, que um dia foi manchete, que dialogou com grandes nomes da imprensa brasileira, que publicou romances, ensaios e críticas e que teve sua inteligência reconhecida por seus contemporâneos, pudesse desaparecer quase completamente da memória cultural brasileira?
Ainda não encontrei uma resposta satisfatória.
Talvez por isso continue pesquisando. Porque há perguntas que não nos abandonam. Existem escritores que, depois de encontrados, nunca mais nos deixam. Allyrio Wanderley é, para mim, um desses escritores.
José Ozildo dos Santos
Historiador e professor universitário
