Historiador talentoso, Mário Gregório Cabral Diniz era patoense, ou seja, nascera na cidade que foi o berço de Allyrio Meira Wanderley. No entanto, quando o autor de ‘Bolsos Vazios’ faleceu na capital paraibana em 15 de janeiro de 1955, Mário Gregório ainda não existia. Nasceria aproximadamente três décadas depois, pertencendo, portanto, a uma geração completamente distinta.
Essa distância cronológica, contudo, não impediu que os dois estabelecessem uma relação intelectual extraordinariamente fecunda. Pelo contrário. Foi justamente porque Mário Gregório não conheceu pessoalmente Allyrio que pôde aproximar-se dele de outra maneira: como historiador, como leitor e como pesquisador. E essa aproximação não foi superficial.
Entre os conterrâneos de Allyrio Wanderley, poucos – talvez nenhum – tenham realizado um estudo tão sistemático de sua produção quanto Mário Gregório. Seu trabalho de conclusão do curso de Licenciatura em História, apresentado à Universidade Federal de Campina Grande, em 2007, possui uma dimensão muito superior àquilo que normalmente se espera de uma monografia de graduação: representa uma verdadeira tese de doutorado.
Intitulado “Entre a História e a Literatura: uma contribuição ao tema a partir da leitura do romance Bolsos Vazios de Allyrio Meira Wanderley”, o estudo – em 133 páginas – mergulha na biografia do escritor, no contexto histórico em que produziu sua obra, nas características do romance moderno, na experiência urbana de São Paulo, nos conflitos entre tradição e modernidade e nas relações entre literatura e história.
Mais do que estudar um livro, Mário Gregório tentou devolver Allyrio ao campo da História e da Literatura. Essa, ao meu entender, é a melhor definição da relação construída entre esses dois talentos patoenses.
Allyrio deixou uma obra que, depois de sua morte, mergulhou em um longo processo de esquecimento. Mário Gregório, décadas depois, encontrou essa obra quase sem fortuna crítica e decidiu enfrentá-la. Onde outros talvez enxergassem um escritor ultrapassado ou esquecido, Mário encontrou um objeto de pesquisa. Onde havia silêncio, Mário procurou perguntas. Onde faltavam estudos, Mário Gregório construiu uma interpretação.
Por isso, escrever sobre “Allyrio Wanderley visto por Mário Gregório” é escrever também sobre o reencontro de dois intelectuais nascidos na cidade de Patos, separados pelo tempo, mas unidos pela inquietação diante da realidade brasileira.
Um patoense estudando outro patoense
A relação entre Allyrio e Mário Gregório começa por uma circunstância que não pode ser tratada como mero detalhe biográfico: ambos nasceram em Patos.
Allyrio Meira Wanderley nasceu na fazenda Campo Comprido, no município de Patos, no sertão paraibano, em 22 de outubro de 1906. Mário Gregório também era filho daquela cidade. A distância entre os dois não era, portanto, apenas temporal. Era também uma distância de gerações, experiências históricas e formação intelectual. Ainda assim, havia entre eles um território comum: a cidade sertaneja que havia produzido ambos.
No caso de Allyrio, Patos aparece como ponto de partida de uma trajetória que o levaria para Recife, São Paulo e para o universo da grande imprensa brasileira. No caso de Mário Gregório, Patos foi o ponto de partida de uma trajetória acadêmica que o conduziria à Universidade Federal de Campina Grande e, posteriormente, ao Mestrado em Teoria da História, na Unicamp.
Há uma ironia particularmente bonita nessa aproximação. Allyrio saiu de Patos para conhecer o mundo. Mário Gregório conheceu o mundo intelectual e voltou-se para Patos para redescobrir Allyrio.
O primeiro levou consigo as marcas do sertão para a metrópole. O segundo, décadas depois, voltou-se para os livros do conterrâneo e percebeu que neles havia uma experiência histórica que ultrapassava em muito as fronteiras de sua cidade natal.
Essa dimensão é perceptível desde a maneira como Mário Gregório apresenta seu objeto de estudo. Ele reconhece que estava trabalhando com um escritor praticamente desconhecido e que as informações disponíveis sobre sua vida eram escassas. Por isso, não pretendia simplesmente fazer uma biografia tradicional, mas reunir os poucos elementos existentes, contextualizá-los e torná-los compreensíveis ao leitor.
Esse cuidado metodológico é importante porque demonstra que Mário Gregório tinha consciência da situação particular de Allyrio na memória literária brasileira. Ele não partia de uma extensa fortuna crítica. Partia, ao contrário, de um grande vazio. E foi nesse vazio que Mário construiu seu trabalho.
Mário Gregório descobriu Allyrio onde quase ninguém mais procurava
Talvez a característica mais importante da pesquisa de Mário Gregório seja a disposição de estudar um escritor que já havia perdido grande parte de sua visibilidade.
O historiador percebe que Allyrio tivera reconhecimento em vida. Depois do episódio político relacionado ao livro ‘As Bases do Separatismo’, o escritor ainda publicou ‘Bolsos Vazios’, em 1940, pela Editora Guaíra, e ‘Ranger de Dentes’, em 1945, pela Companhia Editora Leitura. Também se tornou colaborador importante da crítica literária de grandes jornais, especialmente ‘O Jornal’, do Rio de Janeiro, durante a segunda metade da década de 1940.
Mário Gregório observa, portanto, que as dificuldades políticas não destruíram a reputação literária de Allyrio. O problema veio depois. Depois da morte, Allyrio caiu no esquecimento.
Mário Gregório chega a empregar uma expressão forte para definir esse processo: “ostracismo sem tamanho”. E procura explicá-lo não por uma única causa, mas pela combinação de vários fatores. Entre eles, considera os posicionamentos políticos e ideológicos do escritor, sua independência intelectual, as críticas que dirigiu a nomes importantes da cultura brasileira e, sobretudo, sua morte precoce, que o impediu de continuar defendendo e divulgando sua própria obra.
Essa interpretação revela algo essencial sobre o próprio Mário Gregório. Ele não confundia esquecimento com falta de importância. Ao contrário, ele parece ter percebido que o esquecimento de Allyrio era justamente uma razão para estudá-lo.
Essa atitude distingue sua pesquisa de uma simples homenagem local. Mário Gregório não escreveu sobre Allyrio apenas porque ambos eram patoenses. Ele escolheu Allyrio porque encontrou em sua produção um escritor capaz de iluminar questões fundamentais da história brasileira.
O encontro entre História e Literatura
O próprio título do trabalho de Mário Gregório já anuncia o caminho que ele pretendia percorrer: História e Literatura.
A escolha de Bolsos Vazios não ocorreu por acaso. Mário Gregório percebeu que o romance poderia ser utilizado como fonte para compreender uma experiência histórica concreta: a modernização urbana de São Paulo durante a década de 1920.
Ele próprio afirma que pretendia analisar a obra como elemento importante para uma pesquisa sobre a modernização urbana, considerando as transformações artísticas e políticas do período e, especialmente, as experiências traumáticas de um jovem intelectual que procurava afirmar-se em uma grande cidade.
Aqui está um dos pontos mais importantes da relação intelectual entre os dois. Allyrio escreveu um romance. Mário Gregório descobriu nele um documento histórico. Não um documento no sentido tradicional, evidentemente. Não se tratava de tomar a narrativa como descrição objetiva dos fatos. O historiador percebeu que a literatura registra sensibilidades, conflitos, expectativas, medos, desejos e percepções de uma época.
Por isso, seu interesse pelo romance ultrapassa a pergunta “o que Allyrio quis contar?”.
Mário Gregório pergunta também:
O que esse romance nos permite compreender sobre o Brasil que Allyrio viveu?
A resposta é ampla. Permite compreender a cidade moderna, o choque entre o sertanejo e a metrópole, as transformações provocadas pela industrialização, o nascimento de novos valores, a crise de antigos padrões, a situação do intelectual, as contradições da imprensa, as relações de trabalho, as transformações no comportamento feminino e a tensão permanente entre tradição e modernidade.
O romance, dessa maneira, converte-se em testemunho de uma época.
A descoberta decisiva: ‘Bolsos Vazios’ era um romance dos anos 1920
Uma das contribuições mais interessantes da pesquisa de Mário Gregório está na reconstrução da história de ‘Bolsos Vazios’.
O romance foi publicado em 1940. Seria natural, portanto, associá-lo àquele momento. Mário Gregório, entretanto, volta às próprias obras de Allyrio e procura as datas de conclusão registradas pelo escritor.
É aí que surge uma descoberta fundamental: o romance já estava pronto em 1928.
Mário Gregório identifica, nas listas de obras deixadas por Allyrio, a indicação de que ‘Bolsos Vazios’ já existia naquele ano. O mesmo procedimento permitiu perceber que outros livros também haviam sido concluídos muito antes de sua publicação. ‘Sol Criminoso’, por exemplo, publicado em 1931, teria sido concluído em 1925.
Essa descoberta altera profundamente a maneira de compreender o romance. Bolsos Vazios não é um livro escrito em 1940 sobre uma experiência passada. É, essencialmente, uma obra concebida no calor da experiência vivida por Allyrio na São Paulo dos anos 1920.
Mário Gregório percebe isso com clareza: enquanto ‘Sol Criminoso’ estava ambientado em Patos e voltado para questões relacionadas ao mundo rural, ‘Bolsos Vazios’ constituía a primeira experiência de Allyrio em configurar artisticamente as experiências traumáticas vividas na cidade de São Paulo. O romance nasceu, segundo sua leitura, das experiências colhidas desde os primeiros momentos da permanência de Allyrio na Paulicéia.
Essa é uma das razões pelas quais Mário Gregório considera a obra tão importante. Ele não estava apenas lendo um romance. Estava lendo um registro quase imediato do choque de um jovem sertanejo com a modernidade urbana.
O sertanejo na metrópole: talvez o ponto de maior aproximação entre os dois
É nesse momento que a relação entre Allyrio e Mário Gregório ganha uma dimensão ainda mais profunda.
Mário Gregório era também um homem do sertão paraibano. Não viveu a mesma experiência de Allyrio, mas conhecia a geografia cultural de onde o escritor havia partido. Por isso, quando lê em ‘Bolsos Vazios’ a experiência de Cimaldo Olídio, personagem que deixa uma cidade sertaneja para buscar formação e oportunidades em São Paulo, Mário Gregório não está diante de uma experiência absolutamente estranha. Ele encontra ali um homem de sua própria região tentando compreender um mundo maior.
Cimaldo deixa a terra natal para buscar conhecimento e oportunidades na metrópole. Em São Paulo, deseja estudar, trabalhar em jornais e desenvolver sua vocação literária. Sua formação, porém, entra em conflito com a necessidade de sobrevivência. O personagem abandona os estudos e procura ingressar no jornalismo, iniciando uma trajetória marcada pelo choque entre suas convicções e as exigências do mundo moderno.
É impossível não perceber que Mário Gregório encontrou nesse personagem uma das principais chaves para compreender Allyrio.
A literatura transforma a experiência biográfica em ficção, mas a ficção conserva marcas da experiência.
O sertanejo que chega à metrópole descobre que o mundo moderno não é necessariamente o mundo que imaginara. A cidade oferece oportunidades, mas também humilha. Oferece liberdade, mas também isolamento. Oferece conhecimento, mas também desorientação. Oferece trabalho, mas submete o trabalhador a relações que podem destruir sua autonomia.
Mário Gregório percebe esse paradoxo.
A saudade de Patos no coração de Cimaldo
Uma das partes mais bonitas da pesquisa de Mário Gregório é aquela em que ele observa a relação do protagonista com a terra natal.
Cimaldo não abandona Patos completamente.
Mesmo vivendo em São Paulo, procura pessoas do Nordeste. Nelas encontra uma espécie de refúgio, como se buscasse reconstruir sua pátria perdida dentro da metrópole. Mário Gregório interpreta esse comportamento como uma tentativa de recuperar, entre os conterrâneos, valores que o personagem julgava ameaçados pela experiência urbana.
Essa leitura merece especial atenção quando pensamos na relação entre Allyrio e Mário Gregório.
Mário Gregório, décadas depois, realiza movimento semelhante, embora no sentido inverso.
Cimaldo procura o sertão dentro de São Paulo. Mário Gregório procura Allyrio dentro da memória de Patos. Essa é talvez uma das metáforas mais fortes para explicar a relação entre os dois.
No romance, o personagem busca nos nordestinos encontrados em São Paulo um pedaço do mundo que deixou para trás. Na pesquisa histórica, Mário Gregório busca em Allyrio uma parte da história intelectual de sua própria cidade.
E ele encontra. Encontra um escritor que conservou em sua obra a memória da terra natal, mesmo depois de ter vivido experiências urbanas e cosmopolitas. Encontra um intelectual que, apesar de sua abertura para o mundo, não apagou completamente sua origem. Encontra, enfim, um sertanejo que carregou o sertão para dentro da modernidade.
O conflito entre tradição e modernidade
Mário Gregório identifica no conjunto da obra de Allyrio uma característica que ultrapassa ‘Bolsos Vazios’: o conflito entre mundos.
O intelectual que recebeu formação mais ampla já não consegue retornar integralmente ao universo dos antepassados. Ao mesmo tempo, tampouco se sente completamente integrado ao mundo moderno.
Esse conflito, segundo o pesquisador, constitui uma marca definitiva dos romances de Allyrio. O chamado “herói problemático” é aquele que percebe a impossibilidade de retornar ao antigo modo de vida familiar, tornando-se inadequado tanto ao mundo de origem quanto à nova realidade em que procura se inserir.
Essa observação permite uma interpretação mais ampla do escritor. Allyrio não foi apenas alguém que saiu de Patos e chegou a São Paulo. Ele foi um homem que viveu a ruptura entre dois mundos. O sertão e a metrópole. A tradição e a modernidade. A formação familiar e a autonomia intelectual. A literatura e o mercado. A vocação e a sobrevivência. A independência e a necessidade de reconhecimento.
Mário Gregório percebe que essas tensões não são apenas elementos da narrativa. Elas estruturam a própria experiência de Allyrio.
O jornalista contra a imprensa
Outro ponto em que Mário Gregório se aproxima profundamente da personalidade intelectual de Allyrio é sua leitura do jornalismo.
Em Bolsos Vazios, Cimaldo deseja trabalhar em jornais porque acredita que a imprensa poderia cumprir uma função social e intelectual. O personagem espera encontrar no jornalismo um espaço para discutir as questões de seu tempo e contribuir para a formação da opinião pública. Mas encontra outra realidade.
A imprensa aparece como indústria, submetida à lógica comercial, ao interesse dos proprietários e à necessidade de vender.
Mário Gregório destaca esse conflito e mostra que Cimaldo se recusa a aceitar a exigência de “abaixar a crista” para sobreviver profissionalmente. A consequência é a perda do emprego e, posteriormente, uma visão ainda mais amarga da imprensa.
Essa passagem é particularmente significativa porque dialoga com a trajetória do próprio Allyrio, jornalista de atuação intensa.
Mário Gregório percebe que o romance contém uma crítica ao funcionamento da imprensa e, ao mesmo tempo, apresenta um personagem que se recusa a abandonar sua dignidade para alcançar estabilidade.
O jovem Cimaldo poderia ser lido, assim, como uma projeção literária de determinadas experiências do próprio escritor. E isso torna ainda mais interessante o encontro entre o pesquisador e seu objeto. Mário Gregório não apenas descreve o que Allyrio escreveu. Ele procura compreender por que Allyrio escreveu daquela maneira.
A independência de Allyrio e a leitura de Mário Gregório
Mário Gregório também percebe que Allyrio possuía uma personalidade incompatível com a submissão intelectual.
Ao analisar ‘Os Carneiros Cinzentos’, Mário observa sua crítica à bajulação existente em determinados ambientes literários e políticos. Para o pesquisador, a independência e o orgulho de Allyrio podem ter contribuído para suas dificuldades iniciais em São Paulo, tanto para conseguir trabalho jornalístico quanto para publicar seus primeiros romances.
Essa leitura ajuda a aproximar o homem do escritor.
O personagem de ‘Bolsos Vazios’ que afirma “sou um homem” diante do coronel e se recusa a transformar sua necessidade financeira em submissão representa uma atitude que Mário Gregório reconhece na própria trajetória de Allyrio. É um dos momentos em que o pesquisador parece aproximar biografia e literatura.
Mário não afirma que tudo no romance aconteceu exatamente como narrado. Seria metodologicamente imprudente fazê-lo. Mas, percebe que existe uma atmosfera biográfica, uma experiência emocional, uma maneira de enxergar o mundo que aproxima o autor de sua criação. E isso é precisamente o que torna sua leitura sofisticada.
‘As Bases do Separatismo’: Mário Gregório encontra o intelectual político
Embora ‘Bolsos Vazios’ seja o centro de sua pesquisa, Mário Gregório não reduz Allyrio ao romancista. Ao analisar ‘As Bases do Separatismo’, de 1935, Mário encontra um escritor profundamente envolvido nos debates sobre a formação da identidade brasileira.
Allyrio defendia a possibilidade de uma reorganização territorial do país e procurava demonstrar que as diferentes regiões brasileiras possuíam características econômicas, sociais, históricas, geográficas e culturais próprias. Sua proposta combinava dados estatísticos, históricos, etnográficos, geográficos e outros argumentos, adquirindo um caráter simultaneamente sociológico, político e panfletário.
Mário Gregório compreende que essa obra colocava Allyrio dentro de um dos grandes debates intelectuais de seu tempo: o problema de compreender o Brasil.
Nesse sentido, aproxima-o do ambiente intelectual em que também surgiriam interpretações de Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda, Nelson Werneck Sodré e Caio Prado Júnior. Allyrio, evidentemente, tinha uma posição própria e muitas vezes radical, mas participava de uma geração preocupada em entender um país de dimensões continentais, marcado por diferenças regionais profundas.
Mário Gregório, portanto, retira Allyrio da categoria de escritor isolado. Ele o recoloca no debate intelectual brasileiro.
O escritor perseguido e o pesquisador que o resgata
A leitura de ‘As Bases do Separatismo’ permite ainda a Mário Gregório recuperar uma dimensão dramática da vida de Allyrio.
O governo Vargas reagiu fortemente ao ensaio. Suas edições foram cassadas e proibidas. Allyrio foi considerado subversivo e comunista, processado, preso e submetido a interrogatórios. Precisou deixar São Paulo e retornar a Patos e, mesmo na terra natal, passou determinado período escondido na região do Jabre, na Serra de Teixeira, enquanto o processo seguia seu curso. Posteriormente, foi absolvido.
Essa passagem é importante para a compreensão do trabalho de Mário Gregório porque demonstra que ele não procura construir uma imagem idealizada de Allyrio. Ele o apresenta em suas contradições.
Allyrio podia ser brilhante e controverso. Poderia ser reconhecido e, ao mesmo tempo, marginalizado. Poderia ocupar espaço na grande imprensa e, simultaneamente, enfrentar perseguições políticas. Poderia ser um intelectual nacionalmente conhecido e depois cair em esquecimento.
Essa complexidade é justamente aquilo que torna sua trajetória atraente para o historiador.
Mário Gregório não quis apenas estudar Allyrio; quis fazê-lo ser lido novamente
Talvez o trecho mais revelador da monografia de Mário Gregório esteja em sua conclusão. Depois de reconhecer as limitações próprias de um primeiro trabalho acadêmico, o pesquisador afirma que ‘Bolsos Vazios’ deveria ser percebido como um romance resultante de uma experiência traumática na grande metrópole e como uma obra rica em imagens, falas e sensibilidades sobre a modernidade. Mário considera-o um romance moderno, original para seu tempo e merecedor de atenção especial de pesquisadores, leitores e críticos.
No entanto, há uma frase implícita nessa conclusão que merece ser destacada: Mário Gregório queria que o leitor voltasse a Allyrio. Seu trabalho não termina no próprio trabalho. Ele pretende despertar uma curiosidade. Quer que o leitor termine a monografia e procure o romance. Quer que o pesquisador descubra o escritor. Quer que a crítica volte a examiná-lo. Quer, enfim, que Allyrio deixe de ser um nome esquecido.
Essa postura confere à pesquisa uma dimensão quase testamentária, embora Mário Gregório evidentemente não pudesse imaginar que sua própria vida seria interrompida tão cedo.
O historiador que sabia estar diante de um escritor esquecido
Há uma sinceridade muito bonita na escrita acadêmica de Mário Gregório. Em vários momentos, ele reconhece as dificuldades de sua própria pesquisa. Não disfarça as limitações documentais nem apresenta suas interpretações como verdades definitivas.
Chega a afirmar que, diante de um escritor praticamente desconhecido e de um romance sem crítica atual, sua leitura tinha necessariamente um caráter experimental. Mais adiante, Mário reconhece inclusive limitações em sua compreensão inicial da teoria de Lukács e admite que algumas aplicações poderiam conter equívocos. Para ele, porém, o erro fazia parte do processo de iniciação à pesquisa e deveria ser reconhecido e superado.
Essa humildade metodológica é importante.
Mário Gregório não pretendia apresentar a palavra definitiva sobre Allyrio. Pretendia abrir caminho. E conseguiu.
Sua monografia mostrou que havia muito mais a estudar.
“O coração é meu tinteiro”: Mário Gregório diante do Allyrio escritor
Entre as passagens analisadas por Mário Gregório, uma das mais significativas é justamente a abertura de ‘Bolsos Vazios’.
Cimaldo começa sua narrativa afirmando que vai contar sua história e que “o coração é meu tinteiro”. Mário Gregório percebe nesse início o tom pessimista e fatalista do personagem e identifica a relação entre sua trajetória e a própria estrutura do romance.
A expressão poderia também servir como metáfora para o próprio Allyrio. Ele escreveu a partir da experiência. Escreveu a partir do conflito. Escreveu a partir da memória. Escreveu a partir das feridas produzidas pelo contato com um mundo que se transformava rapidamente.
Mário Gregório percebeu isso. E talvez seja essa a razão mais profunda de sua admiração intelectual pelo escritor. Ele não encontrou apenas uma obra: encontrou uma consciência histórica transformada em literatura.
O ‘anticapitalismo romântico’ e a originalidade da leitura de Mário Gregório
Outro mérito da pesquisa de Mário Gregório está na tentativa de inserir ‘Bolsos Vazios’ em uma tradição mais ampla de crítica à modernidade.
Mário Gregório aproxima o romance, com todas as ressalvas necessárias, do conceito de ‘anticapitalismo romântico’, associado às análises de Georg Lukács e a determinadas obras de Thomas Mann.
A ideia não é afirmar uma influência direta. O próprio pesquisador é cuidadoso ao dizer que não há elementos suficientes para estabelecer uma relação conclusiva entre Allyrio e Thomas Mann. Sua intenção é utilizar o contexto europeu como modelo de compreensão, e não como explicação mecânica da obra brasileira.
Essa cautela é reveladora da qualidade de sua leitura. Mário Gregório percebe que Allyrio experimentava a modernização brasileira com uma combinação de fascínio e rejeição.
O novo era inevitável. Mas não era necessariamente desejável em todos os seus aspectos. A industrialização criava oportunidades, mas também produzia desigualdade. A metrópole ampliava os horizontes, mas também destruía referências. A imprensa era moderna, mas podia transformar opinião em mercadoria.
A sociedade capitalista ampliava certas liberdades, mas submetia indivíduos a novas formas de exploração. O artista precisava acompanhar seu tempo, mas corria o risco de produzir uma arte subordinada ao mercado.
Mário Gregório encontrou em ‘Bolsos Vazios’ essa tensão. E foi justamente essa tensão que lhe permitiu situar Allyrio em uma discussão mais ampla sobre a modernidade.
O artista diante de seu próprio tempo
Mário Gregório também observa que Allyrio não desejava uma arte meramente contemplativa. Em sua leitura do romance ‘Bolsos Vazios’, Mário percebe que Cimaldo defende uma literatura e uma arte capazes de fazer sentir e pensar, interessadas nas dores e aspirações humanas e não apenas na paisagem. A arte deveria ultrapassar a simples descrição e voltar-se para os conflitos do homem e da sociedade.
Essa percepção é decisiva para compreender Allyrio como intelectual. Ele não queria simplesmente registrar o mundo. Queria interpretá-lo. E, em alguns momentos, queria transformá-lo.
Mário Gregório percebe que essa disposição percorre a obra. Por isso, seu Allyrio não é um escritor de gabinete. É um intelectual inquieto. É alguém que deseja participar dos debates de seu tempo. É um homem que escreve porque acredita que a literatura, o jornalismo e o pensamento podem intervir na realidade.
A cidade que destrói e a memória que salva
A análise das imagens urbanas produzidas por Allyrio é outro momento particularmente rico da monografia de Mário Gregório. Ele observa que São Paulo aparece muitas vezes como uma cidade de multidões apáticas, de pessoas que se movimentam sem que o observador consiga compreender plenamente seus desejos e suas motivações. A metrópole aparece como espetáculo, mas também como espaço de anonimato e estranhamento.
Em oposição a esse mundo urbano aparece a memória do sertão.
O personagem recorda as montanhas, o rio, a igreja, as casas, a paisagem e as pessoas de sua terra. Mário Gregório entende essas lembranças como tentativa de reconstruir uma “pátria perdida” dentro do mundo moderno.
Aqui, novamente, a relação entre Allyrio e Mário Gregório torna-se extraordinariamente significativa. O historiador também estava, de certa forma, reconstruindo uma pátria perdida.
Não a pátria geográfica do personagem, mas a pátria intelectual de um escritor de Patos. Ao recuperar Allyrio, Mário Gregório recuperava uma parte esquecida da história cultural de sua cidade.
Dois homens prematuramente interrompidos
É impossível escrever sobre a relação entre Allyrio e Mário Gregório sem considerar a tragédia comum de seus destinos. Allyrio morreu em 1955, ainda relativamente jovem, deixando uma obra que poderia ter sido ampliada e uma trajetória intelectual que ainda poderia produzir novos livros, novos ensaios, novas polêmicas e novas intervenções.
Mário Gregório também morreu prematuramente, em 13 de fevereiro de 2014, quando sua trajetória acadêmica estava longe de ser concluída. Era aluno do mestrado em Teoria da História na Unicamp. Havia, portanto, ultrapassado a fase inicial da formação e começava a construir uma carreira intelectual própria.
Sua pesquisa sobre Allyrio, apresentada em 2007, pode ser vista hoje como o trabalho de um jovem historiador que estava apenas começando. E isso torna sua leitura ainda mais comovente.
Na conclusão, Mário Gregório reconhece que muitos autores, títulos e ideias encontrados durante a pesquisa permaneciam à espera de novos estudos. Afirma que o trabalho havia sido, em grande medida, seu primeiro contato com a teoria de Lukács e que ainda havia muito a compreender e discutir.
Mário pensava, portanto, no futuro. Pretendia continuar. Pretendia aprofundar. Pretendia pesquisar mais. Pretendia compreender melhor. Mas, o futuro que ele imaginava não chegou. E aqui ocorre uma das aproximações mais dolorosas entre Mário e Allyrio.
Allyrio morreu antes de poder desenvolver plenamente tudo aquilo que ainda tinha a dizer. Mário Gregório morreu antes de poder desenvolver plenamente tudo aquilo que ainda tinha a pesquisar.
Um deixou uma obra interrompida. O outro deixou uma pesquisa interrompida. Um precisava de leitores. O outro começava a construir a crítica que esses leitores poderiam produzir. E, talvez por isso, suas trajetórias possam ser aproximadas de maneira tão comovente: dois talentos nascidos em Patos, separados por uma geração, unidos pela inteligência e igualmente vencidos pela brevidade da existência.
O legado de Mário Gregório, nesse contexto, não se limita à sua monografia. Está também no gesto de ter reconhecido que Allyrio Wanderley ainda tinha algo a dizer. Ao devolver o escritor aos debates da História e da Literatura, o jovem historiador contribuiu para que a voz de seu conterrâneo não permanecesse sepultada junto com ele.
Mário Gregório tornou-se uma ponte entre duas gerações
Mário Gregório partiu cedo, como Allyrio. No entanto, deixou uma obra acadêmica que permite perceber a dimensão de seu talento e, sobretudo, sua capacidade de enxergar onde outros haviam deixado de olhar.
Allyrio Wanderley visto por Mário Gregório é, assim, o encontro de dois intelectuais de Patos que jamais conviveram, mas que a História acabou colocando frente a frente: um através da obra que deixou; outro através da pesquisa que realizou. Um escreveu para compreender o seu tempo; o outro escreveu para impedir que o primeiro fosse esquecido. E, nesse diálogo silencioso entre o escritor e o historiador, entre o sertão e a universidade, entre a literatura e a História, Mário Gregório conseguiu realizar talvez sua mais importante homenagem ao conterrâneo: demonstrar, com o rigor da pesquisa, que Allyrio Wanderley ainda merece ser lido, estudado e lembrado.
É justamente por isso que Mário Gregório deve ser compreendido não apenas como estudioso de Allyrio, mas como ponte entre duas gerações intelectuais de Patos. Allyrio pertenceu à geração que experimentou as primeiras grandes transformações da modernidade brasileira, a expansão urbana, a industrialização, os debates políticos dos anos 1930 e a renovação literária do período.
Mário Gregório pertenceu a uma geração posterior, formada em universidades, familiarizada com novas teorias historiográficas e preocupada em repensar as fronteiras entre História, Literatura e memória.
Entre eles havia décadas. Havia mudanças profundas no Brasil. Havia novos métodos. Havia novos problemas. Mas, havia também uma questão comum: a necessidade de compreender o homem diante das transformações do seu tempo.
Allyrio procurou fazê-lo por meio da literatura. Mário Gregório procurou fazê-lo por meio da História. Essa convergência talvez seja a chave mais profunda para compreender por que o historiador se interessou tanto pelo romancista.
O historiador que devolveu Allyrio à sua cidade
Há uma dimensão de memória regional que não pode ser esquecida. Quando Mário Gregório estudou Allyrio, não estava apenas contribuindo para a historiografia literária brasileira. Estava também ajudando a recuperar uma parcela da história intelectual da cidade de Patos.
Allyrio era um nome que havia ultrapassado os limites da Paraíba. Foi jornalista de circulação nacional, romancista, crítico literário, ensaísta e tradutor. Mas sua cidade natal não poderia ser privada dessa memória.
Mário Gregório compreendeu isso. Seu estudo recuperou o jovem patoense que partiu para São Paulo, o intelectual que enfrentou dificuldades, o escritor que publicou romances, o autor perseguido por suas ideias políticas, o jornalista que participou da grande imprensa e o homem que, ao morrer, foi progressivamente esquecido.
Ao fazer isso, Mário Gregório também afirmou implicitamente que a história intelectual de Patos não poderia ser escrita sem Allyrio Wanderley. E talvez essa seja uma das maiores contribuições de sua pesquisa.
Um estudo que foi também um ato de reparação
A pesquisa de Mário Gregório pode ser lida, portanto, como uma espécie de reparação intelectual. Não uma reparação no sentido de transformar Allyrio em um escritor perfeito ou de negar suas contradições. Mas uma reparação contra o silêncio.
O próprio Mário Gregório afirma que, por não existir uma crítica contemporânea significativa sobre ‘Bolsos Vazios’, decidiu aventurar-se a realizar uma leitura que desse visibilidade tanto à vida do autor quanto à narrativa.
Essa afirmação é extraordinariamente importante. Mário sabia que estava entrando em território pouco explorado. Sabia que poderia errar. Sabia que suas interpretações seriam experimentais. Mas também sabia que, se ninguém começasse, o escritor continuaria esquecido.
Mário Gregório começou. E talvez seja por isso que sua monografia, apesar de ser um trabalho acadêmico de graduação, adquira hoje um significado que ultrapassa sua origem. Ela é uma das portas pelas quais podemos voltar a Allyrio. Um trabalho de grande dimensão, produzido por um jovem intelectual que certamente teria sido uma mais maiores revelações da intelectualidade da cidade de Patos.
Allyrio visto por Mário Gregório: um homem entre dois mundos
Ao final da leitura da monografia de Mário Gregório Cabral Diniz, fica uma imagem muito forte de Allyrio. Ele aparece como um homem entre mundos. Entre Patos e São Paulo. Entre o sertão e a metrópole. Entre a tradição e a modernidade. Entre a literatura e o jornalismo. Entre o reconhecimento e o esquecimento. Entre a necessidade de sobreviver e a recusa de submeter-se. Entre a admiração pelo progresso e a crítica aos seus custos humanos. Entre o desejo de transformar o mundo e a percepção de que o indivíduo frequentemente é esmagado pelas estruturas sociais.
Essa imagem talvez seja a maior contribuição de Mário Gregório à história e à crítica literária brasileira. Mário não tentou simplificar Allyrio. Tentou compreendê-lo. E compreender Allyrio significou, para ele, compreender o Brasil que Allyrio viveu.
Dois sertanejos diante do tempo
Há, finalmente, uma dimensão quase simbólica nessa história. Allyrio morreu em 1955. Mário Gregório nasceu décadas depois. Quando começou a pesquisar o escritor, o Brasil já era outro. A universidade brasileira havia mudado profundamente. A História havia renovado seus métodos. A Literatura era estudada por novas perspectivas. Os debates sobre memória, cultura, representação e interdisciplinaridade haviam adquirido novas dimensões.
Mesmo assim, um jovem historiador voltou a um escritor morto décadas antes.
Por quê?
Porque percebeu que o passado ainda falava. E falou através de ‘Bolsos Vazios’. Falou através de ‘As Bases do Separatismo’. Falou através de ‘Os Carneiros Cinzentos’. Falou através das páginas deixadas por Allyrio. Mário Gregório ouviu essa voz. E decidiu registrá-la.
O encontro que a morte não conseguiu impedir
A história da relação entre Allyrio Wanderley e Mário Gregório é, em última análise, a história de um encontro impossível e, ao mesmo tempo, profundamente real.
Eles não viveram na mesma época. Não compartilharam a juventude. Não frequentaram as mesmas rodas. Não trabalharam juntos. Não trocaram cartas ou impressões. Quando Mário Gregório veio ao mundo, Allyrio já havia partido havia décadas. E, no entanto, Mário Gregório conheceu Allyrio.
Conheceu-o através dos livros. Conheceu-o através dos romances. Conheceu-o através das ideias. Conheceu-o através dos conflitos. Conheceu-o através das contradições. Conheceu-o, sobretudo, através da pesquisa. O que torna essa relação particularmente importante é que Mário Gregório não se limitou a admirar seu conterrâneo. Ele o estudou. E estudar Allyrio significou enfrentá-lo intelectualmente, contextualizá-lo, questioná-lo, compará-lo e, sobretudo, devolvê-lo ao debate.
Seu trabalho mostrou que ‘Bolsos Vazios’ era muito mais do que um romance esquecido. Era uma obra produzida a partir das experiências de Allyrio na São Paulo dos anos 1920, escrita em meio a dificuldades materiais, mas marcada por intensa riqueza intelectual. Mário Gregório demonstrou que o romance poderia ser lido como testemunho da modernização urbana, como registro de sensibilidades, como representação do conflito entre tradição e modernidade e como expressão da experiência traumática de um jovem intelectual diante da metrópole.
Também mostrou que Allyrio não era apenas romancista. Era um intelectual envolvido nos grandes debates sobre o Brasil. ‘As Bases do Separatismo’ revelou um homem disposto a desafiar ideias estabelecidas, mesmo quando isso lhe custou perseguições, prisões, interrogatórios e o retorno forçado à sua cidade natal.
Mário Gregório também identificou aquilo que talvez seja o traço mais humano de Allyrio: sua condição de homem deslocado entre mundos. O sertanejo que chega à metrópole não deixa de ser sertanejo. A cidade moderna não apaga a memória da terra natal. Ao contrário, torna essa memória ainda mais forte. O pesquisador percebeu isso ao analisar as passagens em que Cimaldo procura outros nordestinos em São Paulo para recuperar, entre eles, alguma coisa de sua pátria perdida. E é justamente nesse ponto que a relação entre os dois intelectuais se torna mais bela.
Cimaldo procurava o sertão dentro de São Paulo. Mário Gregório procurou Allyrio dentro da memória de Patos. Um procurava uma terra perdida. O outro procurava um escritor esquecido. Um tentava recuperar, na metrópole, as vozes e os valores de sua origem. O outro tentava recuperar, para a sua cidade e para a História, a voz de um dos seus filhos mais talentosos. Essa coincidência não é apenas literária. É também afetiva.
Mário Gregório era um historiador. Sabia que precisava trabalhar com fontes, evidências, contextualização e método. Mas havia, por trás de sua pesquisa, uma pergunta que não era exclusivamente acadêmica: quem foi Allyrio Wanderley e por que Patos deveria continuar lembrando dele?
Sua resposta foi dada através de dezenas de páginas de pesquisa. E a resposta foi contundente: Allyrio merecia ser redescoberto.
O próprio Mário Gregório encerra seu trabalho defendendo que ‘Bolsos Vazios’ merece atenção especial de pesquisadores, leitores e críticos, classificando-o como obra moderna e original e manifestando a esperança de que seu estudo pudesse estimular os leitores a redescobrir o escritor paraibano.
Mário Gregório não sabia, naturalmente, que sua própria existência seria interrompida poucos anos depois. Quando morreu, em 13 de fevereiro de 2014, estava cursando o mestrado em Teoria da História, na Unicamp. Ainda havia muito a pesquisar, muito a escrever, muito a compreender. Na conclusão de sua monografia, ele próprio havia deixado aberta essa perspectiva: muitos autores, títulos e ideias aguardavam novos estudos.
Allyrio morreu cedo. Mário Gregório também. Um não teve tempo de acompanhar a longa história de recepção de sua obra. O outro não teve tempo de continuar a construir a fortuna crítica daquele que havia escolhido como objeto de estudo.
Dois homens de gerações diferentes, ambos marcados pela brevidade da existência. Um morreu quando sua produção intelectual ainda poderia crescer. O outro morreu quando sua carreira acadêmica apenas começava a alcançar novos horizontes.
Por isso, a relação entre ambos possui hoje uma dimensão que talvez não pudesse ser percebida enquanto Mário Gregório estava vivo. A pesquisa que ele realizou sobre Allyrio tornou-se também uma das últimas grandes homenagens que um intelectual de Patos poderia prestar a outro intelectual de Patos.
Mário Gregório não foi testemunha da vida de Allyrio. Foi algo diferente: tornou-se testemunha de sua permanência. E essa a forma mais profunda de testemunho. Porque o amigo pode recordar o homem. O colega pode recordar o jornalista. O contemporâneo pode recordar o escritor. Mas, o pesquisador, pode fazer algo que nenhum deles consegue fazer sozinho: recolocar a obra em circulação intelectual.
Foi isso que Mário Gregório fez. Ele leu Allyrio quando muitos já não o liam. Estudou Allyrio quando poucos ainda o estudavam. Escreveu sobre Allyrio quando o escritor já havia sido empurrado para bem próximo do esquecimento completo. E, sobretudo, mostrou que o silêncio não era a última palavra sobre sua obra.
Por isso, “Allyrio Wanderley visto por Mário Gregório” não é apenas mais um capítulo da série dedicada aos diferentes olhares sobre o escritor. É um capítulo especial.
Nos textos de amigos e contemporâneos, Allyrio reaparece como homem, companheiro, jornalista, mestre ou figura admirada. No olhar de Mário Gregório, ele reaparece como objeto de descoberta. Como um escritor que precisava ser retirado do esquecimento. Um intelectual que precisava ser recolocado no seu tempo. Um romancista que precisava ser relido. Um patoense que precisava voltar à memória de sua cidade. E, nesse sentido, Mário Gregório realizou uma tarefa que ultrapassa os limites de sua monografia.
Ele não apenas estudou Allyrio Wanderley. Ele ajudou a salvá-lo do esquecimento. Fez isso como historiador, mas também como conterrâneo. Fez isso por meio da universidade, mas também por meio de uma evidente inquietação diante do silêncio que havia se formado em torno daquele nome. E fez isso pouco mais de meio século depois da morte de Allyrio, quando já parecia difícil imaginar que alguém de uma geração tão distante pudesse estabelecer uma relação tão intensa com um escritor desaparecido.
Mário mostrou o quanto era genial e conseguiu estabelecer essa relação, porque os livros atravessam as gerações. Porque as ideias sobrevivem aos homens. Porque a literatura pode vencer o tempo. E porque, às vezes, um jovem historiador nascido décadas depois da morte de um escritor pode encontrá-lo nas páginas de um romance e perceber que ali ainda existe uma voz viva.
Mário Gregório ouviu essa voz. E, ao ouvi-la, fez com que outros também pudessem ouvi-la. É por isso que, hoje, ao procurar compreender Allyrio Wanderley, é indispensável lembrar de Mário Gregório Cabral Diniz. O historiador que nasceu muito depois do romancista tornou-se, paradoxalmente, um dos seus mais importantes companheiros intelectuais. Um companheiro que não caminhou ao seu lado em vida, mas que caminhou ao lado de sua obra depois da morte.
Allyrio partiu em 1955. Mário Gregório partiria quase seis décadas depois. Entre uma morte e outra, porém, houve um encontro que o calendário não conseguiu impedir: o encontro entre a obra de um escritor sertanejo e a inteligência de outro sertanejo que, décadas mais tarde, decidiu procurá-la, compreendê-la e devolvê-la ao mundo.
José Ozildo dos Santos
Historiador e professor universitário
