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Ariano Suassuna visto por Carlos Castello Branco – Da série “Ariano Suassuna visto por…” (de José Ozildo)

Um olhar crítico diante de uma obra fora do comum

Em 1971, quando ‘O Romance d’A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta’ chegou ao público pela Livraria José Olympio Editora, Ariano Suassuna já possuía lugar de destaque na cultura brasileira, sobretudo, como dramaturgo. O ‘Auto da Compadecida’ havia projetado nacionalmente seu nome e revelado a força de uma criação profundamente vinculada às matrizes populares do Nordeste. A publicação do extenso romance, contudo, apresentava outra dimensão de seu projeto literário. Carlos Castello Branco percebeu imediatamente que não estava diante de uma narrativa convencional, mas de uma obra que procurava condensar, reorganizar e transfigurar um universo cultural inteiro.

No artigo “Ariano Suassuna, o armorial popular de ‘A Pedra do Reino’”, publicado no ‘Jornal do Brasil’, 25 de setembro de 1971, Castello Branco parte da própria definição oferecida por Suassuna – “romance armorial popular brasileiro” – para compreender a singularidade do livro. A expressão não aparece como simples rótulo. Ela contém uma proposta estética: unir materiais provenientes da tradição popular a estruturas literárias elaboradas, aproximando romance, poesia, memória, folheto, cavalaria, mito, história e imaginação. Para o crítico, essa combinação permitia a Ariano Suassuna oferecer uma “visão nova do Brasil”, alcançando simultaneamente dimensões sociais, psicológicas, culturais, poéticas, filosóficas, mágicas e políticas.

Essa amplitude é decisiva para entender a leitura de Castello Branco. O que o impressiona não é apenas a riqueza episódica de ‘A Pedra do Reino’, mas a capacidade de a obra converter o sertão em espaço de interpretação do país. O romance deixa de ser visto como narrativa regional circunscrita a uma geografia particular. A experiência sertaneja torna-se matéria para uma reflexão muito mais ampla sobre a formação brasileira, suas contradições, suas memórias e seus modos de imaginar o mundo.

O sertão como núcleo da experiência brasileira

Um dos pontos mais fortes da interpretação de Carlos Castello Branco está na maneira como ele compreende o sertão. Em vez de tratá-lo como cenário exótico ou paisagem periférica, identifica nele um núcleo no qual continuam sendo elaboradas a sensibilidade e a inteligência de determinado tipo humano brasileiro. Nesse espaço acumulam-se influências “remotas e atuais, das origens mais diversas”. O sertão de Suassuna é, portanto, território de encontros, permanências e conflitos históricos.

Castello Branco descreve esse universo como chão pedreguento e caatinga áspera, habitat de negros, indígenas e mestiços, marcado por pequenos feudos rurais, vilas e cidades nas quais se assimilam e se transformam as franjas da cultura e da civilização europeias. A formulação revela uma percepção importante: a cultura sertaneja não é apresentada como realidade isolada, pura ou imóvel. Ela resulta de processos históricos de apropriação, choque e recriação. Elementos de origens distintas encontram no sertão novas formas de existência.

É justamente essa capacidade de assimilação que explica a potência simbólica atribuída ao espaço sertanejo. Segundo o crítico, a representação construída por Ariano Suassuna é tão poderosa que o restante do país parece, por instantes, periferia de um mundo cuja força expressiva estaria concentrada naquele “cerne rude e escuro”. Trata-se de uma inversão significativa. O centro cultural deixa de ser necessariamente a metrópole e passa a localizar-se no interior nordestino, onde tradições desprezadas pelas perspectivas cosmopolitas revelam enorme capacidade criadora.

Nessa leitura, ‘A Pedra do Reino’ realiza uma espécie de deslocamento do olhar nacional. O sertão não pede licença para entrar na literatura brasileira: ele se apresenta como lugar a partir do qual o próprio Brasil pode ser interpretado. Castello Branco percebe que Ariano Suassuna não transforma sua região em curiosidade folclórica. Ao contrário, faz dela um mundo dotado de linguagem, memória, hierarquias, crenças, conflitos, humor e imaginação próprios.

Entre o popular e o erudito

A aproximação entre cultura popular e tradição erudita constitui outro eixo fundamental da leitura. Castello Branco identifica em ‘A Pedra do Reino’ uma obra assentada sobre elementos tradicionais da expressão literária brasileira, mas desenvolvidos numa perspectiva extraordinariamente ampla. Os cantadores de feira, suas temáticas e suas técnicas narrativas convivem com poetas e escritores de formação sofisticada. Não existe, nesse universo, uma fronteira rígida separando aquilo que seria cultura elevada daquilo que pertenceria ao povo.

Essa ausência de hierarquia é central no projeto de Suassuna. O romanceiro popular, o folheto de feira, as histórias de cavalaria, os desafios dos cantadores, os relatos orais e a memória sertaneja não aparecem como materiais inferiores que necessitariam ser enobrecidos pela literatura culta. Eles já possuem dignidade estética própria. O escritor os recolhe, combina e recria dentro de uma arquitetura literária complexa, sem apagar sua origem.

Castello Branco observa, assim, uma espécie de parentesco que subverte as hierarquias habituais. Fontes populares e referências eruditas podem participar da mesma construção porque, na imaginação suassuniana, ambas fornecem matéria para uma grande rapsódia sertaneja e nacional. Essa concepção ajuda a compreender a palavra “armorial”: mais do que ornamentação medievalizante, ela designa uma tentativa de reconhecer grandeza, linhagem e força simbólica nas manifestações culturais do povo nordestino.

O resultado é uma literatura que não imita passivamente modelos europeus nem rejeita a herança ocidental. Ariano Suassuna apropria-se dessas tradições e as faz dialogar com o sertão. A cavalaria pode encontrar o cangaço, a epopeia pode conviver com o folheto, a genealogia aristocrática pode ser recriada pelo imaginário de personagens pobres, e, a linguagem solene pode ser atravessada pelo riso. É dessa mistura deliberada que emerge a originalidade percebida por Castello Branco.

A experiência pessoal transformada em literatura

Embora ressalte a dimensão coletiva da obra, Castello Branco não ignora a presença da experiência pessoal de Ariano Suassuna. No grande painel do romance, identifica como fonte inspiradora a própria problemática do autor, um sertanejo marcado “pelas tragédias e pelos sonhos de sua gente”. A observação alcança um ponto essencial da criação suassuniana: memória individual e memória coletiva não permanecem separadas.

A infância, o sertão, as perdas familiares, a violência política e as narrativas ouvidas ao longo da vida entram na literatura depois de submetidas a intenso processo de transfiguração. Castello Branco percebe que Ariano Suassuna recria o sertão de sua infância “com paixão e solidariedade”, mas sua relação com esse passado não é puramente nostálgica. Há também dor, julgamento, incompreensão e necessidade de elaborar antigas tragédias.

Por isso, o crítico emprega uma formulação particularmente forte ao dizer que o escritor como que “vomita o asco e a dor de antigas e incompreendidas tragédias”. A expressão revela que, sob a exuberância verbal, o humor e a fantasia, existe uma matéria dolorosa. O riso não elimina a tragédia; muitas vezes, é justamente o recurso utilizado para enfrentá-la. A imaginação oferece uma forma de reorganizar aquilo que a experiência histórica deixou fragmentado.

Castello Branco observa ainda que Ariano Suassuna “julga, premia e pune” em seu retrospecto, embora sem excluir a compreensão das misérias e grandezas de seu povo. A literatura aparece, então, como tribunal imaginário, espaço de memória e mecanismo de reconciliação impossível de reduzir a uma única chave interpretativa. ‘A Pedra do Reino’ contém afeto e violência, adesão e crítica, orgulho e sofrimento.

Um romance que reúne muitos romances

Quando procura definir formalmente ‘A Pedra do Reino’, Carlos Castello Branco encontra uma obra que resiste às classificações convencionais. Retoma a multiplicidade sugerida pelo próprio universo narrativo: romance armorial popular, romance picaresco, romance de cavalaria, rapsódia e folheto de feira. A enumeração não é gratuita. Ela demonstra que Ariano Suassuna constrói deliberadamente um livro de fronteiras móveis.

Essa natureza híbrida corresponde ao próprio modo de funcionamento da memória e da cultura popular. Histórias circulam, transformam-se, incorporam elementos de outras histórias e reaparecem sob novas formas. O narrador de ‘A Pedra do Reino’ participa dessa lógica. Sua voz absorve discursos, modelos, gêneros e tradições, convertendo-os em matéria de uma narrativa que é simultaneamente pessoal e coletiva.

A exuberância classificatória também contém humor. O gosto suassuniano pelos títulos extensos, pelas genealogias imaginárias, pelas dignidades inventadas e pelas definições grandiosas produz uma linguagem que imita e parodia os códigos de autoridade. Reis, príncipes, cavaleiros e brasões podem surgir em meio ao sertão sem que isso represente simples fuga da realidade. Ao contrário: a fantasia oferece aos personagens uma maneira de disputar simbolicamente uma realidade social que frequentemente lhes nega poder.

Castello Branco reconhece, portanto, que a complexidade formal do romance está profundamente ligada à matéria que ele pretende representar. Não seria possível expressar aquele universo por meio de uma narrativa excessivamente disciplinada ou homogênea. O mundo de Ariano Suassuna exige mistura, excesso, oralidade, enumeração, memória, aventura, tragédia e comicidade.

A recuperação das formas primitivas da narrativa

Na parte final de sua análise, Castello Branco chama atenção para aquilo que denomina recuo às formas primitivas da literatura e reencontro com técnicas primitivas da manifestação poética. O termo “primitivo”, no contexto de seu artigo, não significa pobreza estética. Refere-se às matrizes antigas e fundamentais da narrativa: a oralidade, a epopeia, o romanceiro, a repetição, o canto, a aventura e a transmissão coletiva de histórias.

Ariano Suassuna volta a essas fontes não para reproduzi-las arqueologicamente, mas para descobrir nelas instrumentos capazes de expressar um mundo contemporâneo. O procedimento é simultaneamente retorno e invenção. Formas antigas são convocadas para dar conta de experiências brasileiras específicas. Assim, a tradição deixa de ser passado imóvel e transforma-se em força produtiva.

Essa perspectiva permite compreender por que Castello Branco percebe em ‘A Pedra do Reino’ uma tentativa de encontrar a forma adequada para a reconstituição de “um mundo novo, cheio de belezas imprevistas, de velhos mistérios com roupagens novas”. A frase sintetiza uma característica fundamental da obra de Suassuna: o novo nasce da reorganização criadora do antigo. Não há incompatibilidade entre tradição e invenção.

A literatura popular oferece, nesse processo, mais do que temas. Fornece estruturas narrativas, ritmos, procedimentos de composição, tipos humanos, imagens e modos de compreender a realidade. O folheto de feira, por exemplo, não aparece apenas como objeto citado dentro do romance. Sua lógica narrativa penetra a própria construção da obra. Da mesma forma, a cavalaria medieval é recriada segundo as condições simbólicas e sociais do sertão.

A procura de uma literatura brasileira autenticamente enraizada

A conclusão de Carlos Castello Branco situa ‘A Pedra do Reino’ dentro de uma questão muito mais ampla: a procura de uma literatura brasileira capaz de reconhecer suas próprias fontes. Para ele, o romance representa uma tentativa de oferecer ponto de partida à elaboração de uma expressão “brasileira autenticamente própria”. A autenticidade, contudo, não significa isolamento cultural nem recusa das tradições estrangeiras.

O que se procura é outra relação com essas tradições. Em vez de reproduzir modelos externos como padrões superiores, Suassuna os incorpora a uma experiência histórica brasileira. O sertão torna-se lugar de transformação. A herança ibérica, a literatura de cavalaria, o catolicismo, as culturas populares, as matrizes indígenas e africanas, o romanceiro e a experiência social nordestina encontram-se numa composição que não poderia existir da mesma maneira em outro espaço.

Castello Branco vê nessa operação uma contribuição relevante para a cultura nacional porque ela altera o sentido de centro e periferia. Aquilo que frequentemente fora considerado atrasado, rústico ou marginal converte-se em fonte de invenção estética. O sertanejo deixa de ser somente objeto observado pelo escritor e passa a fornecer categorias, ritmos, imagens e formas de narrar.

É igualmente significativa a recusa de uma autenticidade fechada. Ao terminar sua análise mencionando o “grande curso da poesia de todos os tempos”, Castello Branco sugere que o enraizamento regional não impede a universalização. O caminho para uma literatura de alcance amplo pode passar justamente pelo aprofundamento de uma experiência local. Quanto mais Suassuna mergulha nas fontes sertanejas, mais condições encontra para dialogar com tradições literárias distantes no tempo e no espaço.

Carlos Castello Branco diante de Ariano Suassuna

O depoimento crítico de Carlos Castello Branco registra um momento privilegiado da recepção de Ariano Suassuna. Em 1971, ‘A Pedra do Reino’ surgia como obra nova e desafiadora, ainda sem o longo acúmulo de interpretações que posteriormente a transformaria em um dos livros fundamentais do autor. Castello Branco reconheceu desde cedo que aquele romance exigia parâmetros próprios de leitura.

Sua interpretação desloca Ariano Suassuna da condição restrita de dramaturgo regional e o apresenta como escritor empenhado em formular uma visão do Brasil. O sertão, em sua leitura, não diminui a abrangência da obra: é justamente o elemento que a amplia. Nele se concentram processos históricos, encontros culturais, conflitos sociais, mitologias e formas de imaginação capazes de iluminar questões nacionais.

Também merece destaque a percepção de que a obra nasce da convivência entre materiais populares e estruturas eruditas. Castello Branco não interpreta essa convivência como contradição. Ao contrário, percebe nela o princípio organizador da criação. A Pedra do Reino transforma a literatura de feira, o romanceiro, a cavalaria, a memória, a experiência familiar e as tradições literárias em componentes de uma construção nova.

O Ariano Suassuna revelado por Carlos Castello Branco é, assim, um escritor de sínteses audaciosas. É profundamente sertanejo sem permanecer limitado ao regionalismo; dialoga com a tradição sem se tornar prisioneiro dela; utiliza formas populares sem reduzi-las a folclore; recorre ao passado para produzir novidade; transforma a experiência pessoal em matéria coletiva e faz da imaginação um instrumento de conhecimento.

Mais de meio século depois da publicação do artigo, sua leitura conserva especial interesse porque registra a surpresa provocada pelo aparecimento de ‘A Pedra do Reino’. Castello Branco percebeu no romance aquilo que o tempo confirmaria como uma das marcas fundamentais de Ariano Suassuna: a capacidade de construir, a partir do sertão, um universo literário autônomo, povoado de símbolos, memórias, tragédias, sonhos, reis imaginários, cantadores, cavaleiros e homens comuns. Um universo profundamente brasileiro que, sem abandonar suas raízes, reivindica lugar no “grande curso da poesia de todos os tempos”.

Fonte do texto-base

CASTELLO BRANCO, Carlos. “Ariano Suassuna, o armorial popular de ‘A Pedra do Reino’”. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 1971. Artigo dedicado a O Romance d’A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta, de Ariano Suassuna, publicado pela Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro, 1971.

José Ozildo dos Santos
Historiador e professor universitário