Enquanto busco a melhor expressão, os fios tênues de minha alma se conectam ao pensamento de um velho cronista. Ele conta do seu tempo e sua fala escorre tépida, carinhosa, saudosa, nostálgica e um tanto quanto amargurada. É um rio de memórias, um manancial de coisas, figuras e hábitos cordiais do mundo que ele viveu. Do qual ele não encontra ressonância nas ruas por onde flana e que já não o vêem passar com os mesmos olhos de ontem.

Li, hoje pela manhã, um texto evocativo de um recorte de tempo do desenvolvimento da cidade em que vivo. Senti nas palavras e em toda construção textual arquitetada pelo cronista a consciência de que algo d’alma da cidade foi arranhado ou se perdeu, irremediavelmente. A partir do título “Muita casa e pouca fala”, de Gonzaga Rodrigues, nota-se que enquanto as cidades se agigantam, as relações humanas tendem a perecer.

Sem a fala, parece cantar o cronista, a cidade é apenas um amontoado de tijolos; um cenário onde o Homem agora flana como um fantasma de um tempo onde as pessoas ainda eram o destino umas das outras

O cronista conclui que a cidade continua. Uma crônica, porém, produzida outrora por ele, é que envelheceu. Talvez seja isso que irmana os cronistas: a dolorosa consciência do efêmero. Ele pela releitura da reminiscência; nós, pela matéria vida que teima escapar por entre nossos dedos sem dar tempo ao registro bucólico ou terno.

Já houve uma época, talvez aquele onde flagramos nosso cronista, onde a cidade emanava uma Ilusão da permanência, da crença na eternidade do banco da praça. Ao lado desta, a celebração do presente, onde o futuro era algo distante e, portanto, inquestionável. Essa é a consciência que nos legou quadros vivos da memória, a arqueologia das rotinas, dos hábitos e das mentalidades de um tempo. Outra vez, talvez seja isso que irmane os cronistas: o trabalho com as ilusões ou angústias da idade que os abriga.

Escrever foi e sempre será a atitude possível diante da torrente dos dias. É intenção do cronista clicar um momento, seja grandioso ou prosaico, movido por um desejo, uma constatação ou um medo. A crônica contemporânea incorpora está última faceta: escrevemos hoje não para pintar um quadro eterno, mas para tentar segurar, por um parágrafo que seja, o que já está se desfazendo.

Pelas mãos do cronista Rodrigues revisitamos uma cidade, seus lugares, seus hábitos. São as  praças, o banco, o aperto de mão, o ritual do café. São as estruturas que dão a sensação de que o mundo tem um chão firme. A constatação de que nada daquilo mais existe aponta para o efêmero:  a velocidade da informação, a desintegração dos espaços físicos de convívio e a pressa que atropela o detalhe.

O  “medo do efêmero” é, na verdade, o maior combustível da sensibilidade atual. O cronista em sua obra setentista escreveu para registrar a beleza. Hoje, escrevemos para que a beleza não seja esquecida antes mesmo do próximo clique.

No fim das contas, talvez a crônica seja o último território onde o tempo não tem pressa de passar. Se para o velho cronista a cidade de hoje é um estranhamento, para nós, a leitura de suas palavras é o que impede o desmoronamento total. Ao lermos sobre a “pouca fala” ou o banco da praça perdido, operamos uma pequena mágica: o efêmero pausa.

O que estava se desfazendo ganha, por um instante, o peso da eternidade. Escrever — e ler — continua sendo a nossa única forma de olhar para o que o progresso arranhou e dizer que, apesar de tudo, o que foi vivido com alma ainda pulsa. Somos todos, afinal, costureiros desses mesmos fios tênues, tentando remendar com palavras o que a pressa insiste em rasgar.

Edson de França, pessoense, jornalista, cronista e poeta.