Convivi durante a vida toda com a gente do povo. Gente mais velha que eu, semi ou totalmente analfabetas, mestres e artífices de ofícios pesados, cumpridos fielmente, todos oriundos do meio rural ou dos arrabaldes dos grandes centros. Nenhum pedigree no sobrenome.
Representantes, penso eu, do que poderíamos chamar de “Brasil profundo”, sem macular a expressão. Um mix de ingenuidade genuína e “conhecimento sábio das coisas vividas”, experienciadas e sentidas na flor da pele e bem abaixo dela.
Sempre gostei de ouvi-los falar, de apreciar sua linguagem, aprender e apreender, sobretudo, da sua maneira particular de entender o mundo a partir de suas próprias noções. Um tanto limitadas geograficamente, um tanto telúricas, mágicas e fantásticas. Um mundo particular de construções admiráveis, sinuosas, distantes, porém, só alcançáveis pelos limites de seu conhecimento e crença. Para essas pessoas é impossível compreender, a fundo, a estrutura complexa das grandes organizações – ou corporações – que os circunda.
Para elas a mastodôntica igreja católica, por exemplo, só tem duas personalidades: o padre da paróquia e o papa. Não há hierarquia intermitentes além disso, crêem eles. Outras instituições são compreendidas da mesma forma. Na polícia só há soldado e cabo, sendo este último o posto mais elevado.
De sargento acima, a coisa se complica, sobretudo porque esta se mostra em degraus hierárquicos. Para o alto, a formação constitui uma zona nebulosa de seres fabulosos – um coronel, um general, um almirante, um brigadeiro – bem distantes dos olhos e compreensão dos simples mortais.
Se bem que a patente de “capitão” virou lenda no anedotário popular, por conta do cangaceiro Lampião e suas incursões sertões afora. Enquanto o “Coronel”, então, é patente aplicada a qualquer sinhozinho, herdeiro de algum latifúndio e alguns tantos subservientes posseiros. O personagem deixou sua marca na política nacional, sendo responsabilizado por muitas de suas mazelas e, inclusive, sendo largamente aplicado cada vez que um grupo oligárquico sequestra as rédeas políticas de uma região.
A profusão de patentes, fez-me lembrar a história de um amigo cujo pai havia sido cabo/delegado da cidade em tempos idos. Em cidades assim é deus no céu e o “inspetor de quarteirão” na terra. Patentes que inspiram o temor, a admiração, o respeito e a sensação de segurança. Que também podem intervir na resolução de problemas mais imediatos. Pois bem, de passagem pela cidade, esse amigo, já de patente superior, foi interpelado por uma senhorinha sobre o que fazia da vida, “sou da Polícia, tenente já!”, respondeu orgulhoso, ao que a senhora respondeu prontamente: “continue assim, um dia será cabo igual seu pai foi!”.
Assim é a visão da pessoa comum. Alguns setores, assim como grandezas geográficas, tendem a ser reduzidos à sua menor fração na percepção do povo. É uma forma particular de entendê-las e explicá-las. Tal compreensão se aplica bem ao campo da justiça, por exemplo. Os juízes, assim como toda a liturgia dos tribunais, nunca fez parte do repertório de conhecimentos da população. E não se pode dizer que é por ignorância não; é pelo puro elitismo que caracteriza o meio.
Ela só se faz presente, no meio popular, quando o indivíduo incide em algum delito e é levado, à fórceps, a audiência de custódia ou de processos de reintegração de posse, evento este a que só comparecem oficiais de justiça, advogados dos requerentes e os “puliça” para garantir o cumprimento da ordem. Os juízes que determinam as penas não dão as caras. Mantém-se alheios como figuras “miticas”, ocupantes do Olimpo, trajados de suas becas pretas e proibidos aos olhos do povo. A frieza da lei se corporifica nos seus agentes. O mutismo também. Isso é tradição brasileira.
Quem são? Onde vivem? O que comem? O que fazem? Todas perguntas irrespondíveis pelo simples fato de quem nunca os viu, só ouviram rumores e especulação sobre sua existência. A única certeza que o populacho tinha era sobre o que eles vestiriam, pois a capa preta a lá Bento Carneiro, não por acaso o vampiro brasileiro, compõe sua indumentária fundamental.
Eis que, de repente, os holofotes da mídia se voltam para os juízes. O STF ganha luzes e os superiores começam a mostrar a cara. Quem nunca nem ouvir falar em juízes e procuradores federais e morreria sem sequer ter visto as fuças de um, passa a conviver diuturnamente com suas figuras soturnas. Sobrenomes como Moro e Dallagnol saem da parte escura do palco para as luzes. Infelizmente, claro, tal exposição não atendia a um chamamento popular – o povo continua pouco se lixando para eles – mas a um projeto particularíssimo de poder.
Entraram e não saíram mais de cena. A lenda institucional mantém-se intacta, mas a fratura exposta de que matéria é feita – os homens que compõem aquele poder – mostraram suas poções humanas e contradições. São de carne e osso, idiossincrasias, vícios, rompantes animalescos e prepotência natural dos que derem poder e se mantém acima de toda justica. Até da divina. Ambição, mau uso das instituições, locupletação, incompetências letradas e manipulações da ritualística dos processos revelam uma parte do combo.
Explica-se assim desconfiança com a qual os “do povo” saúdam a justiça brasileira, esses olimpianos cujas decisões atingem o cotidiano das gentes, mas da qual ninguém vê os rostos. A política, enfim, como acabei de ler, atrai os seres mais desprezíveis da nação. Não importa, ao que parece, a instituição a que pertençam. A revelação, em ¾, da cara da justiça mostra que o fosso que abriga políticos, também os agasalha.
Dia desses provoquei um amigo juiz, já sabendo que receberia uma réplica, sobre a relação juízes e política, sobretudo no que tange às candidaturas a um tempo em que se discutia a possibilidade de imposição de uma “quarentena” aos magistrados que desejassem postular cargos eletivos. Asseverou ele que existem mais juízes honestos que políticos. Não repliquei. Faltou dizer a ele que, pela sabedoria popular, gente honesta não sobrevive na política. Ou ainda também perguntar que atrativo pode haver na política para membros das mais sólidas, estáveis e privilegiadas das carreiras de Estado?
por Edson de França, pessoense, jornalista, cronista e poeta!






