Qualquer cidadão comum pode passar muito bem sem a Copa do Mundo, obrigado.

Ele sobreviverá a ela e, bem ou mal, permanecerá amargando os dias.  Independente da glória ou malogro de sua esquadra, os dias permanecerão exatamente iguais, assim como o volume de míseros reais que aporta em seus bolsos. 

A segunda-feira pós-final será rigorosamente igual aos dias pregressos. Infelizmente, a taça de ouro não servirá como garantia nenhuma para o cheque especial no banco. Talvez, sobre apenas uma ressaca braba dos excessos etílicos, junto aos impropérios comuns do dicionário dos frustrados e perdedores.

Na teoria, a competição é uma efeméride sazonal, de alto interesse humano, em que a excelência de um esporte é colocada em cena. Nada que, de imediato, desperte interesse àquele ente comum, preso às guerras insanas pelo pão de cada dia, enquanto assiste a rapazes milionários chorando por não conseguirem chutar uma esfera de couro para dentro de uma rede.

Porém, na real, a Copa é uma construção. Para sustentar um circo desse tamanho, uma façanha transnacional, contudo, a receita é velha: envelopa-se o livre mercado com a bandeira nacional e vende-se o patriotismo em doze vezes sem juros no cartão.

Dessa forma, qualquer resultado, assim como a torcida, é creditado na conta de todos. Até mesmo dos pouco aficionados ou entendidos no esporte.

A Copa é um produto de mídia e como tal, criticamente, deve ser lida. Há excessos tais de propaganda e convencimento que chega a beirar a lavagem cerebral.

A poucos dias da estreia do selecionado nacional, a mídia tradicional, timidamente até diria, está com seus canhões direcionados para as mentes incautas. A colheita é certa.

Nas redes sociais, o ‘convencimento’ coletivo cria bolhas de euforia digital, transformando o sujeito que mal sabe a diferença entre impedimento e escanteio em um fervoroso analista tático de sofá.

A ideia de pertencimento ufano, então, comanda a cruzada. Há indícios, “comprovados” por pesquisa, que há um desinteresse pela Copa que se aproxima. Mas não é condição que perdure. Isso é charme, desconfiança ou ato blasé.

Basta o primeiro gol, saído de um canelaço mal dado que balança as redes, para que o cinismo blasé se converta em lágrimas de emoção. O cético vira patriota, o crítico vira torcedor, e o país, temporariamente anestesiado, veste a chuteira que tanto criticava.

Finalmente, gritarão os reclames, a “pátria de chuteiras” está viva. Será possível até registrar os retardatários principiando a enfeitar os salões para a farra.

Não alimento a menor expectativa de que ocorra algo além das quatro linhas desse roteiro.

Edson de França, pessoense, jornalista, cronista e poeta.