Não consigo me indignar o suficiente nem rebater as declarações do ecólogo Genebaldo Freire Dias que classificam João Pessoa como “caótica, violenta e poluída”. E explico. Sou raiz e envelheço com a cidade. Sou anterior ao primeiro shopping, ao império das facções e ao estreitamento das vias coronárias da cidade.

​Também me vejo anterior à multiplicação das aglomerações suburbanas, ao atrativo turístico doentio, à verticalização, aos sonhos de Dubailização dos meus recantos amados e da neófita gentrificação. Anterior à poluição total dos rios, com suas populações ribeirinhas crescentes; à crença de que a Mata do Buraquinho é apenas uma “mancha verde” no coração da cidade. Sim. Sou anterior, um pouquinho, ao clamor global frente às mudanças climáticas. Sou anterior ao medo de a Terra perder o status de planeta habitável. Sou contemporâneo da fé ingênua e genuína na Senhora da Penha.

​Acho natural, portanto, não um velho espírito reclamar, mas ponho toda fé nos espíritos que entendem qualidade de vida como um bem humano e percebem que nossa cidade anda a se tornar opressiva. Para desfrutar de algo que beire a mínima sanidade desejada, é preciso encontrar “ilhas de excelência” — essas mesmas que, com o tempo, vão se tornando raras de tanto que são brutalmente agredidas.

​Vim direto de uma João Pessoa de população ainda escassa. Nasci no Jardim Planalto, zona sul da capital, subúrbio, mas de onde, de carro ou mesmo de ônibus coletivo, com vinte minutos daria de cara com as águas de Tambaú. Atualmente, se for a pé como nos tempos de menino, faltam calçadas e multiplicam-se os riscos de ser atropelado ou perder os pertences; se me deslocar de automóvel, posso perder a paciência nos engarrafamentos; se for de coletivo, além da tarifa alta para tão pouco percurso, consome-se todo o tempo sagrado.

​Claro que a população haveria de crescer em algum momento. A cidade “bucólica e provinciana” almejava ser metrópole. Em algum momento isso, pelo menos, principiaria a acontecer. As tensões humanas, a desigualdade escancarada, o trânsito caótico, matas e rios ameaçados: sintomas de uma hecatombe anunciada.

​Nossas cidades não apresentam planejamentos capazes de suportar o futuro. Vivemos em núcleos de adaptação às necessidades imediatas. Adaptação pressupõe remendos temporários, gambiarras. Qualquer sinal de verticalização de moradias, engorda dos arrabaldes, crescimento populacional (por nascimento ou êxodo), aumento de frota veicular, necessária mobilidade, vendaval ou dias de chuva faz tudo ruir.

​Qualquer nova via que se abra com o objetivo de escoar o trânsito já nasce com um destino certo: colapsar ao curso de poucas semanas. Não há inteligência de trânsito suficiente, atualmente, para resolver os dramas da mobilidade urbana na cidade das acácias. Um percurso que antes levava meia hora, hoje percorre-se em pelo menos — e com sorte — uma hora e meia.

​As últimas chuvas deram uma mostra, em escala diminuta, eu diria, do que esta cidade pode sofrer em consequência de eventos climáticos até medianos. A rede de escoamento de águas pluviais neste território se equivale, em indecência, ao que se puder levantar em termos de esgotamento sanitário. Assim como os registros prefeiturais não mostram objetivamente as ruas que necessitam de pavimentação (vez ou outra, mostram lugares que jamais viram um paralelepípedo), imagine mostrar objetivamente a rede de “colhe-merdas” abaixo do chão.

​Nós somos produtos do meio tempo: entre a calmaria que se viu e um colapso que não queremos ver. Por enquanto, só constatamos a degradação. O ecólogo pode ser contestado, mas não desmentido. E o que mais dói em mim, cidadão anterior a tudo isso, não é o erro do diagnóstico. É a precisão cirúrgica dele.

por Edson de França, pessoense, jornalista, cronista e poeta.