José Ozildo dos Santos
Historiador e professor universitário
Ao longo da vida, Deus concede-nos a graça de conhecer pessoas que, pela grandeza de seu caráter, pela firmeza de seus princípios e pela beleza de sua missão, transformam-se em referências permanentes para todos aqueles que com elas convivem. Entre essas figuras inesquecíveis, ocupa lugar especial em minha memória o Monsenhor Luís Laíres da Nóbrega, o querido Padre Laíres, sacerdote exemplar cuja trajetória marcou profundamente a história religiosa, social e humana de Patos e de toda a Diocese.
Conheci o Padre Laíres quando ele já era uma figura consagrada no clero paraibano. Sua fama de homem culto, bondoso e dedicado ao sacerdócio precedia sua presença. Entretanto, bastava uma breve conversa para que qualquer pessoa percebesse que, por trás do sacerdote respeitado e admirado, existia um homem simples, afável e profundamente humano.
Filho legítimo do sertão paraibano, nascido na Fazenda Santa Gertrudes, em 27 de junho de 1918, Padre Laíres carregava consigo as marcas positivas de sua origem sertaneja: a honestidade, a perseverança, a fé inabalável e o amor pelas pessoas. Essas virtudes moldaram sua personalidade e o acompanharam durante toda a sua longa existência.
Desde cedo demonstrou vocação para a vida sacerdotal. Sua caminhada rumo ao sacerdócio não foi fácil. Enfrentou dificuldades familiares, perdeu a mãe ainda criança e precisou trabalhar muito jovem. No entanto, jamais abandonou o sonho de servir a Deus. Com determinação e fé, ingressou no Seminário Arquidiocesano da Paraíba e, após anos de estudos e preparação, recebeu a ordenação sacerdotal em dezembro de 1949, na Igreja Matriz de Nossa Senhora da Guia, em Patos.
Ao recordar o Padre Laíres, a primeira imagem que me vem à mente é a de um sacerdote sempre disponível. Sua casa estava constantemente de portas abertas. Não importava a hora do dia nem a condição social de quem o procurava. Todos eram recebidos com atenção, respeito e cordialidade. Os pobres encontravam acolhimento; os aflitos, uma palavra de conforto; os jovens, orientação; os idosos, escuta paciente; e os amigos, um sorriso sincero.
Era impressionante sua capacidade de dialogar com as pessoas. Embora possuísse sólida formação intelectual, jamais fazia uso do conhecimento para exibir superioridade. Ao contrário, colocava sua inteligência a serviço dos outros. Conversar com ele era uma experiência enriquecedora. Falava sobre religião, história, educação, cultura e sociedade com a mesma naturalidade com que comentava os acontecimentos cotidianos da cidade.
Sua dedicação à Igreja Católica foi absoluta. Em cada paróquia por onde passou deixou marcas profundas. Em Piancó, onde exerceu fecundo ministério durante uma década, tornou-se referência de liderança pastoral. Posteriormente, em Patos, desempenhou funções de enorme relevância, destacando-se como vigário da Catedral de Nossa Senhora da Guia, vigário geral da Diocese e administrador diocesano em um dos momentos mais delicados da história da Igreja local, após o falecimento de Dom Expedito Eduardo de Oliveira.
Nessas ocasiões, revelou extraordinária capacidade administrativa e grande espírito de serviço. Nunca buscou cargos ou honrarias. Aceitava as responsabilidades que lhe eram confiadas por dever de consciência e por fidelidade à missão sacerdotal. Talvez por isso tenha conquistado tamanho respeito entre seus confrades e entre os fiéis.
Padre Laíres possuía uma característica que sempre me chamou a atenção: sua serenidade. Mesmo diante das dificuldades mais complexas, mantinha a calma e a confiança em Deus. Essa serenidade transmitia segurança às pessoas que o cercavam. Seu equilíbrio emocional era resultado de uma espiritualidade sólida, construída ao longo de décadas de oração, estudo e serviço.
Como educador, também prestou relevantes serviços. Lecionou em instituições de ensino, formou gerações de estudantes e demonstrou permanente apreço pelo conhecimento. Defendia a educação como instrumento de transformação humana e social. Seu exemplo mostrava que fé e conhecimento não são realidades opostas, mas dimensões complementares da formação integral da pessoa.
Outra faceta admirável de sua personalidade era sua simplicidade. Apesar de ter recebido o título de monsenhor, concedido pela Santa Sé em reconhecimento aos seus relevantes serviços à Igreja, jamais permitiu que tal distinção alterasse sua maneira de ser. Continuou sendo o mesmo Padre Laíres de sempre: acessível, humilde e próximo do povo. Por isso, a população patoense continuou a chamá-lo carinhosamente de “Padre Laíres”, expressão que traduzia muito mais afeto do que formalidade.
Ao longo dos anos, testemunhei inúmeras demonstrações de carinho e respeito dirigidas a ele. Era comum encontrar pessoas que o procuravam apenas para conversar, pedir conselhos ou receber sua bênção. Sua presença inspirava confiança. Havia nele uma autenticidade rara, que fazia com que suas palavras fossem acolhidas com atenção e credibilidade.
Na condição de pesquisador da história regional, também aprendi a admirar o Padre Laíres pelo apreço que dedicava à memória e às tradições da capital do Sertão Paraibano. Conhecia profundamente a história de Patos, de suas famílias e de suas instituições. Suas recordações constituíam verdadeiras aulas sobre o passado sertanejo. Em muitas ocasiões, suas informações contribuíram para o esclarecimento de fatos históricos importantes.
Mas talvez sua maior virtude tenha sido a coerência entre o que pregava e o que vivia. Em uma época marcada por tantas contradições, Padre Laíres foi um homem cuja vida confirmava suas palavras. Sua fé não se limitava aos discursos ou às celebrações litúrgicas; manifestava-se concretamente na forma como tratava as pessoas, exercia o ministério e enfrentava os desafios da existência.
Quando faleceu, em 10 de outubro de 2011, aos noventa e quatro anos de idade, Patos perdeu uma de suas figuras mais representativas. A Diocese perdeu um de seus sacerdotes mais dedicados. Os amigos perderam um companheiro leal. E todos nós perdemos uma referência de humanidade, sabedoria e fé.
Contudo, homens como Padre Laíres não desaparecem com a morte. Permanecem vivos na memória coletiva, nos ensinamentos transmitidos, nas obras realizadas e no testemunho deixado às futuras gerações. Sua história continua inspirando sacerdotes, religiosos e leigos comprometidos com os valores cristãos e com a construção de uma sociedade mais justa e fraterna.
Hoje, ao recordar o Padre Laíres que conheci, não vejo apenas o sacerdote ilustre, o administrador competente ou o intelectual respeitado. Vejo, sobretudo, o homem simples que fez do amor ao próximo a razão de sua existência; o pastor que viveu integralmente sua vocação; o amigo sempre disposto a acolher; e o servo fiel que dedicou toda a sua vida ao serviço de Deus e de seu povo.
Por tudo isso, sua memória permanece viva e merece ser preservada. O Padre Laíres que eu conheci foi, acima de tudo, um homem de Deus. E essa talvez seja a maior homenagem que se pode prestar àquele que passou pela vida fazendo o bem, servindo à Igreja com humildade e deixando, em cada coração que tocou, uma marca indelével de bondade, fé e esperança.
Campina Grande-PB, junho de 2026.






