José Ozildo dos Santos
Historiador e professor universitário
Algumas pessoas não apenas vivem uma época: elas ajudam a defini-la. Seus gestos, suas palavras, sua produção intelectual e sua atuação pública tornam-se parte da identidade da comunidade onde residem e atuam, permanecendo vivos muito além de sua existência física. Foi exatamente isso que ocorreu com o professor Virgílio Trindade Monteiro, uma das figuras mais expressivas da história cultural, intelectual e política de Patos.
Embora nascido em Piancó, Virgílio Trindade fez da ‘Morada do Sol’ a sua terra definitiva, dedicando-lhe sua inteligência, sua criatividade e sua extraordinária capacidade de trabalho. Ao longo de décadas, tornou-se uma referência para diferentes gerações, influenciando a imprensa, a educação, a política, a cultura e até mesmo o esporte, numa demonstração rara de pluralidade intelectual.
Tive o privilégio de conhecer Virgílio Trindade e de manter com ele uma convivência marcada pelo respeito, pela admiração e pelas inúmeras conversas sobre a história da cidade de Patos, sobre seus personagens, seus desafios e suas perspectivas de futuro. Essa convivência permitiu-me conhecer não apenas o jornalista admirado por todos, o professor respeitado ou o cronista talentoso, mas, sobretudo, o homem simples, cordial, acessível e profundamente comprometido com a construção de uma sociedade mais consciente e mais culta.
A lembrança que guardo do professor Virgílio Trindade vai muito além da imagem pública. Recordo-me de um homem sempre disposto ao diálogo, atento aos acontecimentos cotidianos e permanentemente interessado em compreender as transformações sociais que ocorriam ao seu redor.
Em janeiro de 2024, publiquei no jornal ‘A União’ o artigo ‘Virgílio Trindade: O Inesquecível’, no qual procurei apresentar uma síntese biográfica de sua trajetória e destacar a multiplicidade de funções que ele desempenhou ao longo da vida. Naquele texto, ressaltei que Virgílio reunia, numa única personalidade, o economista, o professor universitário, o jornalista, o radialista, o cronista, o compositor, o desportista e o homem público, características que o transformaram numa das maiores expressões intelectuais do sertão paraibano. Também procurei demonstrar que sua produção escrita constitui um patrimônio documental de valor inestimável para todos aqueles que desejam compreender a evolução histórica, política e cultural da cidade de Patos.
Passado algum tempo, sinto a necessidade de retomar essa reflexão. Não porque o artigo anterior tenha esgotado o assunto – ao contrário, a dimensão de Virgílio Trindade jamais caberia em poucas páginas -, mas porque determinadas personalidades precisam ser constantemente revisitadas. Elas representam referências permanentes para a sociedade e exercem um papel fundamental na preservação da memória coletiva. Virgílio é um desses casos. Sua obra continua atual, suas ideias permanecem inspiradoras e seu exemplo de vida continua ensinando às novas gerações. Pois, o verdadeiro legado de um intelectual está na capacidade de servir à comunidade.
Conheci Virgílio quando ele já era um nome consolidado na vida pública patoense. Sua voz fazia parte do cotidiano da cidade de Patos por meio da Rádio Espinharas, onde, diariamente, comentava os acontecimentos políticos e administrativos com uma serenidade admirável. Em seus programas radiofônicos nunca encontrei agressividade gratuita ou discursos inflamados pelo radicalismo. Havia firmeza nas posições, mas também profundo respeito pelas diferenças de opinião. Essa postura lhe conferia enorme credibilidade junto à população, que o reconhecia como um comentarista equilibrado, ético e comprometido com a verdade.
Essa mesma postura refletia-se em seus textos jornalísticos. Virgílio escrevia como poucos. Dominava a língua portuguesa com elegância. Mas, jamais fazia da erudição um instrumento de distanciamento do leitor. Ao contrário, utilizava uma linguagem clara, objetiva e acessível, capaz de alcançar tanto o homem simples quanto o intelectual mais exigente. Sua escrita possuía leveza, sem perder profundidade; simplicidade, sem abrir mão do rigor argumentativo. Era um cronista que compreendia que a verdadeira comunicação nasce da capacidade de dialogar com o leitor, e não de impressioná-lo com palavras difíceis.
Ao longo de sua carreira jornalística, Virgílio Trindade colaborou com importantes veículos de comunicação da Paraíba, deixando centenas de artigos espalhados pelos jornais estaduais e regionais. Grande parte da memória política e cultural da cidade de Patos encontra-se registrada nesses textos, que hoje representam preciosas fontes para historiadores, sociólogos, antropólogos e estudiosos da cultura regional. Mas, que lamentavelmente ainda não foram reunidos em merecidas antologias.
Como escrevi anteriormente em ‘A União’, as crônicas de Virgílio Trindade são verdadeiros retratos da cidade ‘Morada do Sol’, registrando personagens, acontecimentos, costumes e sentimentos, que dificilmente seriam preservados por outros meios. Se no jornalismo Virgílio alcançou enorme reconhecimento, na educação seu legado não foi menor. Professor universitário da então Faculdade de Ciências Econômicas de Patos, participou da formação de inúmeras gerações de economistas e profissionais de diversas áreas. Lecionava com segurança, domínio dos conteúdos e extraordinária capacidade didática. Seus ex-alunos recordam, até hoje, a clareza de suas explicações e a forma respeitosa com que conduzia o processo de ensino-aprendizagem. Em sala de aula, ele nunca confundiu autoridade acadêmica com autoritarismo. Exercia a docência com humildade, reconhecendo que ensinar também significa aprender.
Sua contribuição para o desenvolvimento do ensino superior em Patos foi igualmente relevante. Em uma época em que a interiorização da educação universitária ainda enfrentava inúmeras dificuldades, Virgílio participou ativamente da consolidação das instituições locais, colaborando para transformar a cidade ‘Morada do Sol’ em um importante polo educacional do sertão paraibano. Não por acaso, sempre manteve estreita relação com educadores locais, a exemplo de José Gomes Alves, compartilhando com aquele o sonho de construir uma cidade onde o conhecimento ocupasse lugar central no desenvolvimento social.
Mas, reduzir Virgílio Trindade ao professor e ao jornalista seria ignorar a extraordinária amplitude de sua atuação. Poucos intelectuais conseguiram exercer, simultaneamente, papéis tão diversos quanto ele o fez. Economista de sólida formação, radialista respeitado, compositor premiado, dirigente esportivo, técnico de futebol, conferencista, escritor e homem público, transitava por diferentes áreas do conhecimento com notável naturalidade. Não acumulava atividades por vaidade pessoal, mas porque compreendia que o intelectual possui responsabilidades, que extrapolam os limites de sua profissão.
Na política, Virgílio também deixou marcas importantes. Exerceu os cargos de vereador, vice-prefeito e de prefeito interino da cidade de Patos, sempre pautando sua atuação pela ética e pelo compromisso com o interesse coletivo. Como homem público, ele nunca enxergou a política como espaço de promoção pessoal. Via nela um instrumento de transformação social, capaz de produzir melhorias concretas para a população. Mesmo aqueles que eventualmente divergiam de suas posições reconheciam sua honestidade, sua intelectualidade, seu equilíbrio e sua postura republicana. Da política, Virgílio saiu com as mãos limpas, fato que dignifica sua vida como homem público.
Outro aspecto que merece permanente reconhecimento é sua contribuição para a música e para a cultura patoense. Autor de dezenas de composições musicais, participante ativo dos festivais de música realizados em Patos durante várias décadas, Virgílio ajudou a fortalecer uma das mais importantes manifestações culturais da cidade. Ao lado de nomes consagrados da música regional, produziu letras, que revelavam sensibilidade artística e profundo amor pela terra sertaneja. Essa atuação demonstra que sua compreensão da cultura era ampla, integrando literatura, música, rádio, história e memória numa mesma visão humanista.
Nas conferências que proferia, Virgílio Trindade encantava plateias pela facilidade de comunicação e pelo vasto conhecimento acumulado. Falava sem afetação, recorrendo a exemplos concretos e aproximando a história da experiência cotidiana das pessoas. Recordo, como destaquei no citado artigo publicado em ‘A União’, sua memorável conferência sobre a evolução histórica da música patoense, ocasião em que conseguiu alternar explicações históricas e interpretações musicais, proporcionando ao público uma experiência singular de aprendizado e de emoção.
Entretanto, talvez sua maior contribuição para a cidade Patos tenha sido menos visível do que suas atividades públicas. Virgílio ajudou a formar uma cultura intelectual baseada no diálogo, na reflexão crítica e no respeito às ideias. Incentivava jovens escritores, estimulava pesquisadores [inclusive a mim], compartilhava informações e nunca recusava prolongar uma conversa sobre a história da cidade de Patos. Sua casa, sua sala de aula, seu microfone na Rádio Espinharas e os espaços culturais onde atuava, transformavam-se, naturalmente, em ambientes de produção e de circulação do conhecimento.
Na convivência pessoal, Virgílio impressionava por sua simplicidade. Apesar do enorme prestígio que possuía, jamais cultivou qualquer sentimento de superioridade. Tratava igualmente autoridades, estudantes, trabalhadores e amigos. Seu comportamento elegante decorria de sua formação humana, e não de convenções sociais. Era, pois, um homem naturalmente educado, discreto e cordial, qualidades que lhe renderam enorme respeito em todos os ambientes por onde passou.
Ao revisitar a trajetória de Virgílio Trindade, compreendo ainda mais claramente a importância de preservar sua memória. As cidades constroem sua identidade não apenas por meio de monumentos, edifícios ou acontecimentos políticos, mas, principalmente, pela atuação daqueles que dedicam suas vidas ao desenvolvimento intelectual e cultural da comunidade. Virgílio Trindade pertence a esse grupo seleto de construtores da memória coletiva. Seu legado permanece vivo nas páginas que escreveu, nas aulas que ministrou, nas músicas que compôs, nas instituições que ajudou a fortalecer e nas inúmeras pessoas que influenciou ao longo de sua existência.
A cidade de Patos muito lhe deve. Deve-lhe parte significativa de sua memória escrita, da consolidação de seu jornalismo opinativo, do fortalecimento do ensino superior, do incentivo às manifestações culturais e da formação de uma consciência cidadã comprometida com os valores democráticos. Não é por acaso que seu nome permanece presente em ruas, biblioteca universitária, memorial e outros espaços públicos da cidade. São homenagens merecidas a quem fez de sua inteligência um instrumento permanente de serviço à coletividade.
Ao escrever estas linhas, não pretendo apenas recordar um amigo ou prestar mais uma homenagem a um intelectual que tanto admirei. Procuro reafirmar a necessidade de manter viva a memória daqueles que ajudaram a construir a identidade cultural de Patos. Em tempos marcados pela rapidez das informações e pelo esquecimento acelerado das referências históricas, recordar Virgílio Trindade significa reafirmar o valor da cultura, da educação, do jornalismo responsável e da produção intelectual comprometida com o desenvolvimento da sociedade.
Continuo convencido daquilo que afirmei em meu artigo publicado no jornal estatal paraibano em janeiro de 2004: a dimensão humana e intelectual de Virgílio Trindade não cabe em uma simples biografia, tampouco pode ser resumida em uma relação de cargos ou de títulos. Sua verdadeira grandeza encontra-se no conjunto de valores que cultivou durante toda a sua vida: honestidade, simplicidade, espírito público, amor ao conhecimento e dedicação incondicional à cidade que escolheu para viver.
Por tudo isso, Virgílio Trindade permanece como uma das maiores referências da cultura patoense. Sua história confunde-se com a própria história contemporânea da cidade de Patos. Conhecê-lo foi um privilégio; conviver com ele, uma permanente oportunidade de aprendizado. Escrever sobre sua trajetória de vida representa, antes de tudo, um dever de memória. Afinal, enquanto houver quem leia suas crônicas, consulte seus escritos, recorde seus ensinamentos e reconheça sua extraordinária contribuição para a vida intelectual do sertão paraibano, Virgílio Trindade continuará vivo – não apenas nas lembranças de seus contemporâneos, mas na própria identidade cultural da cidade que tanto amou e ajudou a engrandecer.
Campina Grande-PB,
julho de 2026.
