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As francesinhas estão voltando – por Edson de França

O cronista EFE* não mata baratas. Ao menos individualmente. Não quer sujar os chinelos. Contudo, se tiver reais sobrando, não se escusa em promover baraticidios em massa. No resto do tempo, porém, arranja espaço para desvendar o ritmo da invasão das francesinhas no âmbito doméstico e até simpatiza com sua audácia militar.

Foi só o efeito dos venenos minorar que elas começaram a aparecer. As primeiras chegaram meio tímidas, andando pelos cantos, distantes da vista, arredias, fugindo de qualquer contato. Percebia-se que eram neófitas no ramo, uma geração novinha, de parto recente, sucessoras de gerações afligidas pelo êxodo forçado ou pelo extermínio massivo.

Com o ambiente parecendo, enfim, salubre, elas começaram a ousar. De forma paulatina e constante, passaram a executar seu plano de infestação. Mandaram as batedoras, que funcionaram como boi de piranha, depois os analisadores de ambiente, estes apareciam furtivos como se a cheirar e tatear. Logo se instalaram as primeiras colonas, com vistas a testar o tempo e as condições de resistência do corpo e as potencialidades alimentares de sobrevivência.

Era quase como se fosse uma operação minuciosa de reocupação de área. Eram elas as legítimas herdeiras de um império resistente, resiliente, prontas para retomar o território perdido, farejando o farelo esquecido na bancada como quem busca a terra prometida.

A estratégia, é preciso reconhecer, beirava a genialidade militar. Nenhuma audácia excessiva nas primeiras noites; apenas passeios calculados pela fresta do azulejo, testando o tempo de reação do dono da casa. Se a luz acendia, não havia pânico, mas sim um recuo tático e digno, como quem diz: “Ainda não, mas voltaremos”.

Em poucos dias, porém, a disciplina espartana deu lugar à arrogância dos conquistadores. Começava então uma nova fase: a do exibicionismo. Queriam a todo custo a volta ao tempo em que a raça parecia fazer parte da decoração da casa, para apreciação horrorizada dos visitantes. Já não esperavam a escuridão total para desbravar o micro-ondas, em um gesto até sensual, quando flagraram uma outra, de pé, desfilando seu traje de tule pelos salões da panela de pressão. 

Perderam o pudor. Uma delas, mais ousada — talvez um general da linha de frente —, chegou a parar no meio da bancada, erguer as antenas para o alto e encarar o morador de frente, desafiando a gravidade e o próprio espanador de teto. Não era mais uma infestação; era uma declaração explícita de guerra de guerrilha, onde o humano, armado de um chinelo ultrapassado, percebia com horror que já jogava no campo do inimigo.

Enquanto se restringem às aparições domésticas, as francesinhas até são aceitáveis. Ruim é quando elas partem pro confronto mais pesado, distribuindo performances escandalosas enquanto a “zelosa” dona do pedaço recebe visitas. Essa manobra ultrapassa qualquer suspeita de contaminação, atinge a moral do hospedeiro, humilha-o publicamente, põe sob suspeita sua capacidade de limpeza e assepsia do lar.

As francesinhas, queiram ou não queiram, são as verdadeiras donas do lar, resistentes a todas as soluções curiosas veiculadas pelas redes sociais. Já visualizei algumas rindo delas na assembleia das baratinhas. Quando elas resolvem invadir, ocupar, se exibir e humilhar um morador, estão prontas para a vitória. A solução afinal é perder o amor de alguns reai$ e contatar um exterminador para promover um baraticídio em massa.

Meses depois, creia, a saga ganhará novos episódios.

por Edson de França (EFE*), pessoense, jornalista, cronista e poeta.