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Allyrio Wanderley visto por José Motta Victor – Da série “Allyrio Wanderley visto por…” (de José Ozildo)

O homem que se transformou em personagem de si mesmo

Entre as muitas maneiras de compreender a vida e a obra de Allyrio Meira Wanderley, poucas são tão reveladoras quanto aquela construída pelo escritor patoense José Mota Victor. Em seu livro O Louro do Jabre – Aforismos, Máximas e Pensamentos de Allyrio Meira Wanderley, publicado por ocasião do centenário de nascimento do romancista, José Mota Victor não se limita a reunir frases, pensamentos ou manifestações isoladas. Procura reconstruir o homem por trás do escritor e, sobretudo, demonstrar que a obra literária de Allyrio constitui uma das mais importantes fontes para o conhecimento de sua própria trajetória.

Era um patoense escrevendo sobre outro patoense. Pertenciam a gerações distintas e viveram experiências históricas diferentes, mas estavam unidos por uma mesma terra, pela vocação literária e pelo interesse em compreender a realidade humana. José Mota Victor, escritor, teatrólogo, romancista, poeta, engenheiro e homem público, aproximou-se de Allyrio não como simples pesquisador distante, mas como alguém que reconhece, na vida do autor de Bolsos Vazios, uma das mais originais expressões da inteligência produzida no sertão paraibano.

O capítulo intitulado “Allyrio segundo ele mesmo”, do trabalho escrito por José Mota Victor possui uma proposta particularmente instigante. Em vez de construir a imagem do escritor apenas com base em depoimentos de contemporâneos ou interpretações críticas, José Mota procura ouvir o próprio Allyrio. Para isso, percorre as páginas de seus romances, identifica personagens, episódios e confissões literárias e demonstra que, muitas vezes, o escritor transformou a própria vida em matéria de ficção.

A chave interpretativa aparece logo no início. Para José Mota Victor, não resta dúvida de que Bolsos Vazios constitui, em grande medida, um livro de memórias. A conclusão é sustentada por uma declaração do próprio escritor:

“Quem se liberta de si? Ninguém; nem os deuses. Por isso, quando escrevo, eu próprio sou o meu personagem predileto…”

A frase oferece uma espécie de teoria pessoal da criação literária. Ninguém consegue libertar-se completamente de sua própria história. Mesmo quando inventa personagens e situações, o escritor leva consigo lembranças, experiências, desejos, frustrações e conflitos. A imaginação não elimina a memória; transforma-a.

Em Allyrio, essa presença parece ainda mais intensa. Seus romances não apenas refletem aspectos de sua vida. Em muitos momentos, aproximam-se de uma autobiografia disfarçada, construída por meio de nomes alterados, personagens transfigurados e acontecimentos reorganizados pela ficção.

José Mota Victor observa que a força memorialística também se encontra em Ranger de Dentes. O avô, o pai, o filho, a fazenda, os rios, o velho casarão e as paisagens sertanejas reaparecem sob diferentes nomes e formas. A literatura torna-se espaço de reencontro com a própria origem.

O escritor norte-americano David Streitfeld afirmou que, antigamente, o memorialista utilizava suas melhores energias para “desmascarar o personagem que conhecia e amava mais do que ninguém: a si mesmo”. Para José Mota Victor, foi exatamente isso que Allyrio realizou em suas obras mais importantes. Ao escrever, o romancista não apenas criou personagens. Procurou compreender a si próprio.

A literatura como espelho da memória

A leitura de José Mota Victor permite perceber que a vida de Allyrio está espalhada por sua obra. Os romances funcionam como espelhos fragmentados, nos quais aparecem diferentes imagens do autor. Em Ranger de Dentes, por exemplo, surgem figuras relacionadas à história familiar. O avô, o pai e o filho encontram correspondências com pessoas reais. Os nomes são modificados, mas a estrutura memorialística permanece.

O comandante Cassiano Ururaí remete a Roldão Meira de Vasconcelos. Evergisto Vasconcelos Ururaí aproxima-se da figura de Chiquinho Wanderley. Pedro Fragoso Ururaí apresenta características que também aparecem em Lourival Meira, de Sol Criminoso, e em Cimaldo Olídio, protagonista de Bolsos Vazios.

Essas aproximações demonstram que determinados personagens representam diferentes projeções de uma mesma experiência. Allyrio parece retornar constantemente a certas imagens, conflitos e figuras familiares.

A ‘Fazenda Campo Comprido’ também se transforma em matéria literária. O Murzelo e o Tanjulá evocam a propriedade onde o escritor nasceu, às margens do Rio da Cruz, no município de Patos, no sertão paraibano. O velho casarão da Rua Miguel Sátyro, pertencente ao avô, aparece tanto na vida real quanto no universo ficcional.

A literatura preserva lugares que o tempo poderia apagar.

Ao transformar a casa, a fazenda e as paisagens sertanejas em elementos narrativos, Allyrio atribui permanência simbólica às experiências da infância. A memória individual converte-se em patrimônio literário.

Nesse sentido, José Mota Victor não vê os romances apenas como obras de imaginação. Considera-os documentos humanos. A ficção permite recuperar episódios, sentimentos e conflitos que talvez não aparecessem em uma biografia convencional.

A vida de Allyrio não se encontra apenas nos registros oficiais. Está também nos personagens, nas paisagens e nas frases que escreveu:

“Sou um livro escrito num idioma que ninguém entende”

José Mota Victor reconhece que não é simples falar sobre o autor de Bolsos Vazios. E apresenta Allyrio como uma figura enigmática, difícil de enquadrar e marcada por contradições. Uma de suas próprias frases parece resumir essa condição:

“Sou um livro escrito num idioma que ninguém entende”.

A metáfora é poderosa. O homem compara a si próprio a um livro, mas a um livro escrito em linguagem incompreensível. A frase sugere isolamento. Allyrio possuía uma maneira própria de pensar e interpretar o mundo. Talvez acreditasse que os outros não eram capazes de compreender plenamente suas ideias, seus sentimentos ou suas atitudes.

Mas a afirmação também revela consciência da complexidade. O escritor reconhecia que sua personalidade não podia ser lida facilmente. Era um livro aberto e, ao mesmo tempo, indecifrável.

José Mota Victor percorre esse “livro” com cautela. Não tenta eliminar suas contradições nem construir uma imagem idealizada. Ao contrário, apresenta o homem por meio de suas próprias declarações.

Allyrio surge como alguém capaz de afirmar:

“Eu não te amei, porque homens como eu não amam”.

A frase transmite dureza e parece negar a capacidade afetiva. Contudo, outras passagens da obra de Allyrio revelam profunda sensibilidade, nostalgia e apego à terra natal. A contradição é evidente. O homem que afirma não amar é o mesmo que descreve o sertão com ternura e intensidade poética. Ele também se apresenta como alguém de orgulho excessivo:

“Os homens da minha marca deveriam nascer com um sinal na testa”.

A declaração revela consciência de singularidade. Allyrio acreditava pertencer a uma categoria humana diferente, marcada por inteligência, originalidade e força de personalidade. Sua imodéstia era assumida. Em uma de suas páginas, chegou a declarar:

“Poucos defeitos me repugnam tanto quanto a modéstia”.

A frase pode ser lida como provocação, mas também como manifestação de uma personalidade que recusava a falsa humildade. Para Allyrio, a modéstia talvez representasse uma forma de disfarce social. Ao rejeitá-la, preferia assumir abertamente a confiança em sua própria inteligência.

O sertanejo que carregava a terra dentro de si

Embora tenha vivido em diferentes cidades e conhecido outros ambientes culturais, Allyrio permaneceu profundamente ligado ao sertão. José Mota Victor recupera uma passagem de Bolsos Vazios na qual o escritor descreve sua origem:

“Nasci por ali mesmo, numa fazendola sertaneja; criei-me entre vacas de leite, serrotes povoados de mocós, touranas e duendes, o rangido harmonioso de um perpétuo canavial e córregos que aprenderam música com os anjos ou com os índios”.

A descrição ultrapassa a simples lembrança geográfica. A infância é apresentada como experiência poética. O sertão não aparece apenas como espaço físico. É um universo povoado por animais, lendas, sons e mistérios.

Os serrotes possuem vida. Os córregos aprendem música. O canavial produz harmonia. A paisagem é transformada pela imaginação. Essa capacidade de poetizar a terra revela um dos aspectos mais importantes de Allyrio: embora afirmasse não dar importância à poesia, sua prosa é profundamente poética.

José Mota Victor define Allyrio como “o poeta da prosa que não dava importância à poesia”.

A expressão resume uma contradição central. Allyrio possuía linguagem rica em imagens, símbolos e musicalidade, mas não desejava ser reconhecido como poeta.

Durante os estudos no Colégio Diocesano Pio X, ele  chegou a iniciar um livro de versos. Posteriormente, confessou que escondera o trabalho para evitar uma estreia poética.

Em Bolsos Vazios, quando uma personagem perguntou se ele era poeta, interpretou a pergunta como ofensa.

Em Ranger de Dentes, chegou a desprezar:

“Sonhar é uma função tão simples como beber água ou fazer versos”.

A frase reduz a poesia a uma atividade simples e comum. Entretanto, sua própria escrita contradiz essa visão. Allyrio rejeitava o título de poeta, mas escrevia como poeta. Talvez recusasse a poesia porque não desejava ser identificado com uma sensibilidade desligada da realidade. Sua literatura procurava interpretar problemas sociais, econômicos e humanos. Entretanto, mesmo quando analisava a miséria ou o sofrimento, sua linguagem permanecia marcada pela imaginação.

A partida para São Paulo e a nostalgia da origem

Em 1924, Allyrio deixou Patos e seguiu para São Paulo. A decisão foi incentivada por um amigo, que acreditava que sua inteligência não deveria permanecer limitada pelo ambiente sertanejo. O conselho era direto:

“Cimaldo, por que não procura outro meio, melhor, no sul do país? Siga o meu alvitre; não enterre sua inteligência num deserto… Seja duro, bote a proa para o alto mar e você irá longe!”.

A metáfora da navegação representa a partida para um mundo desconhecido. Era necessário colocar a “proa para o alto mar”, abandonar a segurança da origem e buscar novos horizontes.

No início, a cidade grande representou novidade e esperança. Tudo parecia possível. Entretanto, o entusiasmo foi gradualmente substituído pela saudade. A distância transformou Patos em território da memória.

Em uma conversa literária, Allyrio confessou:

“Crucia-me a nostalgia do verde barro natal com o seu sol fabuloso, e coles cheios de relâmpagos, e folhas cheias de perfumes, e águas cheias de músicas”.

A terra natal é apresentada como espaço de beleza intensa. O sol é fabuloso. As folhas possuem perfumes. As águas produzem música. A paisagem não é descrita de maneira objetiva. É recriada pela saudade.

O escritor continua:

“Amo aquele recanto do mundo, desprezado e ameno, a procissão azul das suas montanhas, o seu rio caduco e verdoengo, a igrejinha de cal, e casas que dormem pelas barrancas como um rebanho de ovelhas brancas, ao luar”.

A passagem constitui uma das mais belas demonstrações do vínculo de Allyrio com sua origem. O lugar é “desprezado”, mas também “ameno”.

A pobreza ou o abandono não anulam o afeto. Em Allyrio, nas observações feitas por José Mota Victor, o sertão possui beleza própria, percebida por quem aprendeu a enxergá-lo. As casas parecem ovelhas brancas adormecidas. A paisagem torna-se rebanho. A imaginação transforma a cidade em imagem poética. A saudade não é simples lembrança. É reconstrução afetiva.

O intelectual poliglota e o orgulho da inteligência

José Mota Victor apresenta Allyrio como homem de vasta cultura e grande confiança em sua capacidade intelectual. Era poliglota. Falava diversas línguas europeias. Realizou traduções de autores importantes, entre eles Fedor Dostoiévski, Leon Tolstói e Leonide Andreiev.

O conhecimento linguístico demonstrava curiosidade intelectual e capacidade de diálogo com diferentes tradições literárias. Em determinada ocasião, um secretário de jornal perguntou:

“O amigo, se não me engano, fala uma língua estrangeira…”

Allyrio respondeu:

“Falo várias”.

A resposta é breve, direta e carregada de autoconfiança.

Em Allyrio, a inteligência não era escondida. Era afirmada.

Em outra ocasião, desempregado e procurando trabalho, Allyrio Wanderley entrou em uma redação. O diretor perguntou:

“Que é que o senhor sabe?”

A resposta foi inesperada:

“Eu sei grego!”

A frase demonstra orgulho do conhecimento, mas também revela a distância entre a erudição e as necessidades práticas. O diretor zombou da declaração e, depois de informar que não havia emprego, perguntou se Allyrio desejava ensinar grego.

A resposta foi marcada pelo temperamento sertanejo:

“Ao senhor, não; grego não é galope… Faça um curso de galope, meu velho!”

A reação revela inteligência rápida, ironia e disposição para o confronto.

Mesmo humilhado, Allyrio não aceitou permanecer em posição de inferioridade. Transformou a situação em resposta ferina.

José Mota Victor conclui:

– “Era assim, ferino e petulante”.

A frase resume uma dimensão essencial da personalidade do escritor. Allyrio utilizava a linguagem como defesa. Sua inteligência era também uma arma.

O sonho separatista e o sertão como país imaginado

A ideia do separatismo acompanhou Allyrio durante muitos anos. Para ele, o Brasil parecia uma estrutura política incapaz de compreender plenamente suas diferentes regiões.

Em uma pensão, ao fazer referência romântica à terra natal, foi questionado por uma professora alemã:

“E qual é o seu país?”

A resposta foi simbólica:

– “Fica muito distante daqui, é bronzeado e doloroso, e nada eternamente em sol”.

A descrição transforma o sertão em país. É uma terra marcada pela dor, pelo sol e pela identidade própria. Quando a professora perguntou o nome do país, Allyrio respondeu:

“Ainda não tem nome; está amarrado, como uma colônia…”

A frase revela insatisfação política. A região seria uma espécie de nação aprisionada, sem autonomia e sem reconhecimento.

Em 1935, Allyrio Meira Wanderley publicou As Bases do Separatismo, propondo a divisão do Brasil em cinco grandes nações. A obra provocou perseguição e processo.

Allyrio precisou esconder-se no sertão. A família construiu uma casa de pedra no sopé da serra para protegê-lo. Do esconderijo, aquele inteligência rara e inquieta podia contemplar o Pico do Jabre.

A imagem possui força simbólica. O escritor perseguido encontrava abrigo na própria terra. O sertão que deixara para buscar novos horizontes transformava-se em refúgio.

Em determinadas noites, Allyrio Wanderley saía do esconderijo para conversar com o amigo de infância, padre Fernando Gomes, futuro arcebispo de Goiânia e uma das maiores vozes do clero brasileiro no século passado.

A amizade entre o intelectual rebelde e o sacerdote revela outra dimensão de sua personalidade. Apesar das críticas à religião, Allyrio manteve vínculos profundos com homens de fé. A história do filho que desejava chamar de Satã demonstra seu gosto pela provocação.

O padre reagiu e repreendeu o amigo. O menino recebeu o nome de José Jabre, tendo Fernando Gomes como padrinho. A anedota revela um homem que provocava as convenções, mas também preservava laços afetivos.

O autodidata e o homem cercado por lendas

José Mota Victor questiona algumas versões tradicionais sobre a formação acadêmica de Allyrio. Circulava a informação de que o escritor teria realizado doutorado em Filosofia na Universidade de Heidelberg, na Alemanha.

Entretanto, o próprio Allyrio teria afirmado:

“Estudei; corri mesmo o risco de formar-me, felizmente, hoje estou livre desse ridículo”.

A frase possui tom irônico. O escritor parece rejeitar a ideia de que o diploma fosse condição necessária para a inteligência. Sua formação teria sido construída principalmente por meio do estudo independente, da leitura e da experiência.

José Mota Victor o apresenta como autodidata. A ausência de formação acadêmica formal não impediu que desenvolvesse conhecimentos amplos.

Entretanto, sua trajetória também foi cercada por dúvidas e controvérsias. Alguns questionaram a veracidade de suas viagens pela Europa.

O escritor Adonias Filho chegou a acusá-lo de mitomania e afirmou que Allyrio imaginava viagens e encontros com grandes intelectuais europeus. A crítica é severa.

No entanto, a presença de Allyrio no texto de José Mota Victor não tem a finalidade de destruir a imagem do escritor. Ao contrário, demonstra que Allyrio foi figura cercada por versões contraditórias. Sua vida tornou-se mistura de fatos, memórias, exageros e lendas.

O homem que afirmava ser “um livro escrito num idioma que ninguém entende” também se transformou em personagem de narrativas criadas por outros.  A dificuldade de separar realidade e imaginação constitui parte de seu enigma.

O sertão como morfina para as dores da existência

Quando os problemas começaram a se acumular em São Paulo, a lembrança da terra natal tornou-se fonte de conforto. O pai informou que enfrentava dificuldades financeiras e que poderia perder a propriedade hipotecada.

A ajuda enviada ao filho seria interrompida. Allyrio enfrentou desemprego, pobreza e solidão. Nessas circunstâncias, a memória do sertão tornou-se espécie de proteção emocional.

José Mota Victor afirma que a lembrança telúrica da terra natal era “a morfina para as dores da existência”.

A expressão é profundamente significativa. A memória não resolvia os problemas materiais, mas amenizava o sofrimento. Em uma passagem de extraordinária beleza, Allyrio escreveu:

“No sertão natal, nunca vivera assim, nunca. A terra gostava de mim, via-se, com ternura; açulava os seus pássaros e as suas folhagens, para que cantassem na minha presença”.

Nas palavras de Allyrio, a terra é personificada. Ela possui sentimentos e gosta do escritor. Prepara pássaros e folhas para recebê-lo. A relação entre homem e paisagem torna-se afetiva. O sertão não é apenas lugar de nascimento. É presença protetora.

Allyrio continua:

“Seduzia-me de noite com longos sonhos de índigo e de púrpura, embriagava-me de dia com perfumes de seiva e de carne”.

A linguagem revela sensualidade e intensidade. A terra seduz. A natureza embriaga. A paisagem participa da vida interior do escritor. A memória do sertão é construída por cores, sons, perfumes e imagens. É uma experiência total.

A faca na cintura e o intelectual sertanejo

Quando perdeu o emprego, Allyrio passou a enfrentar um período de profundo pessimismo. Tornou-se desleixado. Uma personagem observou sua aparência:

“Você é o tipo mais curioso que já vi. Sua linguagem de poeta, os olhos distraídos, esses trajes desleixados, a barba sempre em atraso, e os dentes mais alvos que os de toda gente…”

A descrição reúne características aparentemente incompatíveis. A linguagem é poética. Os olhos são distraídos. As roupas são desleixadas. A barba está sempre atrasada. Mas os dentes são extremamente brancos.

O retrato apresenta um homem que não se preocupa com a aparência convencional. A inteligência e a sensibilidade convivem com o abandono material.

Entretanto, o episódio mais marcante é o relato do jornalista Luiz Gonzaga Rodrigues. Ao observar Allyrio preparando um editorial para o jornal O Norte, aquele grande cronista paraibano surpreendeu-se com a faca que carregava.

O contraste era evidente. Diante dele estava um artista, erudito e pensador. Mas, presa à cintura, havia uma faca de tropeiro. A arma parecia inadequada ao ambiente intelectual.

José Mota Victor recupera a descrição:

“Trazia à cinta, contrastando com o artista sensível, o erudito, o pensador, umas oito polegadas de faca caroca, cabo de madrepérola”.

A faca torna-se símbolo. Representa a permanência do sertanejo no homem cosmopolita. Mesmo inserido em ambientes urbanos e intelectuais, Allyrio carregava consigo um objeto associado à cultura popular e à vida sertaneja.

O intelectual não abandonara completamente suas origens. A faca também simbolizava disposição para o confronto. Era instrumento de defesa, mas podia representar a própria linguagem agressiva. Allyrio escrevia como quem carregava uma lâmina. Sua crítica era cortante. Sua palavra podia ferir.

A revolta contra Deus

A crise material e existencial aprofundou o pessimismo. Allyrio passou a revoltar-se contra tudo e contra todos. Nem Deus escapou de sua fúria. Declarou:

“Isso de Deus… Pela minha parte… Dispenso, sabe?”

A frase demonstra ruptura com a religiosidade tradicional. Entretanto, José Mota Victor revela que essa negação não era simples indiferença. A relação de Allyrio com Deus era marcada por conflito. Guardava uma frustração profunda: desejara ser padre. Era amigo de infância de Fernando Gomes, que se tornaria bispo e arcebispo. Quando manifestou à família o desejo de seguir a vida religiosa, o pai reagiu:

“Não criei filho para usar saia!”

A resposta interrompeu uma possibilidade de vida. O menino que desejara ser sacerdote tornou-se escritor, intelectual e crítico das instituições. Mas a religião continuou presente em sua consciência.

A revolta contra Deus pode ser interpretada como relação intensa, e não como ausência de relação. Quem discute com Deus ainda o reconhece como interlocutor.

Em um episódio dramático, Allyrio entrou na Igreja de Santa Ifigênia, escondeu-se até o fechamento e permaneceu diante do crucifixo.

Ali iniciou um diálogo provocador com Cristo. Questionou a permanência da imagem na cruz e criticou aqueles que se beneficiavam economicamente da religião. A cena revela sarcasmo, sofrimento e indignação.

Allyrio não fala com um Deus distante. Dirige-se a ele como alguém que exige respostas. A blasfêmia torna-se forma extrema de protesto. O fracasso, a fome e a sombra da morte

José Mota Victor apresenta um período de profunda decadência. Allyrio estava desempregado, sem recursos e sem estabilidade. A imagem que constrói de si mesmo é dolorosa:

“Morri; morri porque renunciei. E, enquanto não apodreço, relembro. A saudade é a decomposição dos vivos”.

A frase aproxima memória e morte. A saudade seria uma forma de decomposição. O homem vivo começa a desfazer-se interiormente quando permanece preso ao passado. Allyrio continua:

“Aqui, sentado a uma banca de pinho, no quarto de um guarda civil, conterrâneo meu, escrevo estas memórias de um fracassado e espero, friamente, que o corpo capitule como a alma capitulou”.

A declaração apresenta o escritor como homem derrotado. A alma teria capitulado antes do corpo. A existência física continuaria, mas a esperança estaria enfraquecida. A palavra “fracassado” revela a intensidade da autocrítica.

Entretanto, mesmo nesse momento, Allyrio continuava escrevendo. A escrita era sua última forma de resistência. Em determinada ocasião, saiu de casa levando uma corda e pensando em suicídio. Depois afirmou:

“Uma ocasião, saí com uma corda para enforcar-me fora da cidade, andei um dia inteiro e não encontrei árvore que me agradasse.”

A frase mistura tragédia e ironia. O desejo de morrer é apresentado com humor amargo. A procura da árvore adequada transforma o episódio em narrativa absurda. A morte aparece, mas a inteligência impede que o relato se torne inteiramente sombrio.

O suicídio também ocupa espaço na ficção. Personagens de Ranger de Dentes enfrentam situações semelhantes. A presença constante desse tema sugere que a literatura funcionava como espaço para elaborar angústias pessoais.

“Escrevo por escrever”

Nos momentos de maior sofrimento, a escrita tornou-se necessidade. Allyrio afirmou:

“Não escrevo para mim, que me considero acabado; não escrevo para os outros, que teimam em ignorar-me. Escrevo por escrever.”

A declaração parece negar qualquer finalidade externa. O escritor não escreve para obter reconhecimento. Também não escreve para satisfazer a si mesmo.

Escreve porque precisa. A explicação continua:

“Para matar as horas, porque nasci para isso. É contra o meu querer: se não escrever, de certo que enlouquecerei”.

A escrita é apresentada como destino. Não resulta apenas de escolha. É necessidade interior. Escrever significa evitar a loucura.

A literatura torna-se instrumento de sobrevivência. Mesmo quando se considera acabado, Allyrio continua produzindo. A criação permanece ativa quando a esperança parece desaparecer. Essa afirmação talvez seja uma das mais importantes para compreender sua trajetória.

Allyrio não escrevia apenas porque desejava ser escritor. Escrevia porque não conseguia deixar de escrever. A literatura era parte de sua própria existência. O pessimista que guardava sementes de esperança

Apesar do pessimismo, José Mota Victor demonstra que Allyrio também possuía uma visão esperançosa do futuro. O homem que se dizia fracassado e revoltado imaginava uma sociedade diferente. E assim escreveu:

“Um dia, quando se morrerem as nossas cobiças desenganadas e as nossas violências infecundas, todos os seres terão a sua ração de sorriso”.

A frase apresenta esperança coletiva. O mundo poderia superar a violência e a cobiça. A felicidade não seria privilégio. Todos teriam direito a uma “ração de sorriso”.

A imagem é simples e profunda. O sorriso torna-se alimento. A felicidade seria distribuída como condição necessária à existência.

Allyrio continua:

“As suas moradas transbordarão de alegria e de vinho; o sol entrará pelas portas e pelas almas adentro”.

A felicidade não ficaria limitada ao espaço físico. Entraria nas almas. O mundo seria transformado. Em outra passagem, escreve:

“Aí a felicidade virá armar entre os homens, no lar do mundo, a sua tenda branca”.

A imagem da tenda branca representa paz e convivência. O mundo seria um lar comum. A felicidade encontraria espaço entre os homens. Essas passagens revelam que o pessimismo não eliminara a esperança. O escritor criticava a sociedade porque desejava sua transformação. A revolta era consequência da sensibilidade. O sonho permanecia vivo.

A franqueza e a fabricação dos desafetos

Allyrio não possuía “papas na língua”. Dizia o que pensava. Essa característica contribuiu para a formação de numerosos desafetos. Durante a vida jornalística e literária, acumulou conflitos. E chegou a afirmar que:

“A franqueza não põe ninguém para diante”.

A frase revela desencanto. A sinceridade não garante reconhecimento. Em muitos ambientes, a hipocrisia parece mais útil.

Allyrio convenceu-se de que a convivência social era sustentada por disfarces. Sua incapacidade de ocultar opiniões provocava conflitos. Mas também preservava sua autenticidade.

O escritor preferia enfrentar as consequências da franqueza a adaptar-se às convenções. Essa postura ajuda a compreender o isolamento. A sinceridade pode afastar. O homem que fala o que pensa pode ser admirado e rejeitado. Allyrio experimentou as duas situações. Sua personalidade provocava fascínio e hostilidade. Era difícil ignorá-lo.

A morte solitária e a memória posterior

José Mota Victor encerra a trajetória lembrando um episódio doloroso. Quando os restos mortais de Allyrio chegaram a Patos para o velório, apenas poucas pessoas compareceram.

O féretro seguiu discretamente para o Cemitério São Miguel. A imagem contrasta com a importância posterior do escritor. O homem que havia produzido romances, estudos, artigos e traduções foi despedido por uma presença reduzida.

A solidão da morte parece prolongar a solidão vivida em determinados momentos. Entretanto, o esquecimento não foi definitivo.

A obra de Allyrio continuou sendo lida. Seu nome permaneceu presente na memória cultural. Autores, pesquisadores e admiradores passaram a recuperar sua trajetória. O próprio trabalho de José Mota Victor constitui parte desse processo. Ao reunir pensamentos e analisar a vida do escritor, o autor contribui para romper o silêncio. A memória transforma-se em reparação.

A reconciliação com Deus

Nos últimos dias de vida, Allyrio parece ter retomado a relação com a fé. O homem que afirmara dispensar Deus passou a escrever:

“Nada impedirá, de ora em diante, o meu progresso moral, o aumento da minha saúde, a acumulação da minha energia, o melhoramento das minhas condições de existência”.

A declaração demonstra desejo de transformação. Depois, Allyrio acrescenta:

“Só Deus tem para dar e, por isto, a ele imploro, humilde, mas confiante, aquilo do que necessito”.

A mudança é significativa. O homem revoltado torna-se humilde. O crítico passa a pedir. A relação conflituosa transforma-se em confiança. Entretanto, essa reconciliação não deve ser interpretada como negação de toda a trajetória anterior.

A vida de Allyrio foi marcada por dúvidas, revoltas e buscas. A fé final representa mais uma etapa dessa complexidade. O escritor não deixou de ser contraditório. Continuou sendo homem em transformação. Talvez a reconciliação revele que, mesmo nos momentos de maior revolta, a pergunta religiosa jamais desaparecera.

Allyrio segundo José Mota Victor

Ao concluir o capítulo, José Mota Victor afirma:

“Allyrio Meira Wanderley era assim.”

A frase é simples, mas contém uma síntese ampla. “Era assim” significa que não poderia ser reduzido a uma única definição.

Era enigmático. Era ferino. Era imodesto. Era pessimista. Era sonhador. Era sertanejo. Era cosmopolita. Era intelectual. Era autodidata. Era poeta da prosa. Era crítico das convenções. Era homem de fé e de revolta. Era personagem de si mesmo.

A grande contribuição de José Mota Victor está em não tentar organizar essas características em uma imagem perfeitamente coerente. Allyrio não era coerente no sentido convencional. Sua vida possuía rupturas e contradições.

O homem que desprezava a poesia escrevia prosa poética. O pessimista imaginava um mundo de felicidade. O rebelde desejara ser padre. O intelectual cosmopolita carregava uma faca sertaneja. O homem que dizia não amar descrevia a terra natal com ternura. O escritor que se considerava fracassado continuava produzindo porque, se não escrevesse, enlouqueceria. Essas contradições não diminuem a importância de Allyrio. Constituem sua humanidade.

O escritor revelado por suas próprias palavras

O olhar de José Mota Victor apresenta um Allyrio mais íntimo e vulnerável. Enquanto outros intérpretes destacaram o intelectual cosmopolita, o romancista social ou o pensador político, José Mota Victor procura revelar o homem escondido nos personagens.

A literatura torna-se autobiografia. Os romances transformam-se em arquivos de memória. As frases revelam sentimentos. Os personagens preservam experiências. A obra permite reconstruir uma existência.

Allyrio escreveu:

“Quem se liberta de si? Ninguém; nem os deuses”.

A afirmação resume o sentido do capítulo escrito por José Mota Victor.  O escritor não conseguiu libertar-se de sua terra, de sua infância, de sua família, de suas frustrações ou de seus sonhos.

Tudo retornou à literatura. A Fazenda Campo Comprido reapareceu nas narrativas. Os familiares foram transformados em personagens. A saudade tornou-se paisagem. A pobreza converteu-se em reflexão. A revolta transformou-se em linguagem. A esperança encontrou espaço na imaginação.

Ao escrever sobre Allyrio, José Mota Victor também realiza um trabalho de reencontro. Um patoense procura compreender outro patoense. Um escritor revisita a vida de um escritor.

Um homem de outra geração recupera uma trajetória marcada pela inteligência, pela rebeldia e pela solidão. O resultado é um retrato humano.

No texto escrito por José Mota Victor não existe tentativa de criar um herói perfeito. Existe o esforço de apresentar um homem real, com grandeza e fragilidade.

O “Louro do Jabre” aparece como intelectual de extraordinária capacidade, mas também como indivíduo que enfrentou pobreza, desemprego, frustrações e crises.

É o homem que sonhou com novos países e sentiu saudades da terra natal. É o escritor que dizia não escrever para ninguém, mas deixou uma obra capaz de atravessar gerações. É o pessimista que imaginava uma humanidade reconciliada. É o rebelde que terminou sua vida dirigindo-se novamente a Deus. Por isso, a frase final de José Mota Victor permanece adequada:

“Allyrio Meira Wanderley era assim”.

Mas talvez seja possível acrescentar:

Era assim porque não podia ser de outra maneira. Era assim porque viveu entre o sertão e o mundo, entre a memória e a invenção, entre a revolta e a esperança. Era assim porque fez de sua vida matéria literária e de sua literatura uma forma de revelar-se. E, ao transformar-se em personagem de si mesmo, deixou aos leitores não apenas uma obra, mas um enigma: Um livro escrito em idioma próprio. Um livro difícil de decifrar. Um livro que, mais de um século depois de seu nascimento, continua aberto.

José Ozildo dos Santos
Historiador e professor universitário