O romancista, o polemista e o homem que ria para não se enforcar
O texto de Armando Frazão, publicado no jornal O Norte, em 12 de dezembro de 1956, apresenta uma contribuição singular para essa construção coletiva. Seu artigo, intitulado ‘O Romancista Allyrio Wanderley’, foi escrito pouco menos de dois anos após a morte do escritor e conserva, por isso, a força de uma memória ainda recente. Allyrio havia falecido em João Pessoa, em 15 de janeiro de 1955, mas sua presença continuava viva nas rodas culturais, nos debates literários e nas lembranças daqueles que haviam convivido com ele.
Armando Frazão não escreve como crítico distante. Não se limita a analisar romances ou a relacionar títulos publicados. Fala como amigo, interlocutor e participante das conversas que Allyrio mantinha com escritores, estudantes e intelectuais da capital paraibana. Conhecia sua obra, admirava sua inteligência, reconhecia a importância de sua produção literária e, ao mesmo tempo, não escondia as divergências que mantinha com ele.
Essa proximidade confere ao artigo valor documental especial.
Por meio de suas lembranças, Allyrio deixa de ser apenas o autor de Bolsos Vazios, Ranger de Dentes e As Bases do Separatismo. Surge como homem de carne e osso: vaidoso, espirituoso, inquieto, nervoso, contraditório, irreverente, profundamente racionalista e dotado de uma extraordinária capacidade de argumentação.
Armando Frazão apresenta Allyrio como um escritor em movimento. Mostra-o discutindo filosofia, defendendo o materialismo, provocando os amigos, rindo das próprias contradições, escondendo fragilidades, utilizando pseudônimos para participar de polêmicas, exibindo uma cultura que impressionava os interlocutores e alimentando uma permanente expectativa de glória.
O resultado é um dos mais vivos retratos de Allyrio produzidos por um contemporâneo. Se Edivaldo Motta destacou o escritor como patrimônio cultural da Paraíba; se José Mota Victor procurou compreender sua personalidade por meio de seus aforismos e pensamentos; se Diocleciano Pereira Lima identificou nele o romancista profundamente comprometido com a realidade nordestina; e se Bruno Gaudêncio o definiu como um ‘Bárbaro Iluminado’, Armando Frazão revela o Allyrio das conversas, das provocações e das contradições.
É o escritor visto de perto. É o intelectual fora das páginas dos livros. É o homem que discutia com os amigos e transformava qualquer encontro em experiência cultural. É, sobretudo, o romancista cuja inteligência parecia ocupar todos os espaços, mas que escondia, por trás do sorriso permanente, inquietações e medos que poucos conheciam.
Um destino sinuoso e adverso
Armando Frazão inicia seu artigo recordando a morte do escritor:
“Fez um ano, no dia 15 de janeiro, que partiu para sempre, desse mundo, o escritor Allyrio Xavier Wanderley”.
A referência cronológica estabelece o tom da homenagem. A morte ainda era recente. A ausência permanecia presente na memória dos amigos e admiradores. Mas Frazão não inicia seu texto celebrando apenas a obra. Antes de analisar o romancista, procura interpretar a existência do homem. O autor afirma:
“Marcado por um destino hostil, o seu destino foi sinuoso e adverso”.
A frase apresenta Allyrio como personagem de uma trajetória difícil. Sua vida não teria sido linear. Foi marcada por obstáculos, conflitos, incompreensões e experiências que contribuíram para formar sua personalidade.
O destino aparece como força adversa. Entretanto, a adversidade não produziu submissão. Produziu revolta. A experiência pessoal tornou-se matéria literária. A dificuldade converteu-se em consciência. A consciência transformou-se em obra.
Para compreender essa trajetória, Armando Frazão retorna à origem sertaneja. Allyrio nasceu em Patos, em uma região marcada por fortes contrastes sociais e pelas consequências das secas. O autor observa:
“Nascido em Patos, no sertão da Paraíba, e criado entre dois terríveis fantasmas – as secas desoladoras e a injustiça do meio, por assim dizer, semifeudal, onde o fazendeiro espolia o camponês – Allyrio Wanderley tornou-se um revoltado muito cedo”.
A passagem é fundamental para a interpretação apresentada. O sertão não aparece apenas como lugar de nascimento. É apresentado como espaço de formação. As secas e a injustiça social constituem os “dois terríveis fantasmas” que acompanharam a infância e a juventude do escritor.
A seca representa a violência da natureza. A exploração do trabalhador representa a violência das relações sociais. Entre esses dois extremos, desenvolve-se a consciência crítica de Allyrio.
Armando Frazão identifica uma relação direta entre experiência regional e produção literária. O escritor conheceu de perto a pobreza, as desigualdades e os mecanismos de exploração existentes no sertão.
Essas experiências contribuíram para formar o revoltado. A revolta não era simples característica temperamental. Possuía origem histórica. Era resultado da observação da injustiça. Era reação às desigualdades. Era inconformismo diante das condições impostas ao “homem pequeno”.
O escritor do ‘homem pequeno’
Uma das mais importantes expressões utilizadas por Armando Frazão é ‘homem pequeno’. Segundo o autor, Allyrio: “Fixou, em páginas indeléveis, a tragédia que vive o ‘homem pequeno’”.
A expressão não se refere à ausência de grandeza humana. O “homem pequeno” é o indivíduo socialmente diminuído. É aquele que possui pouca riqueza, pouco poder e reduzida capacidade de influenciar os acontecimentos. É o camponês explorado. É o trabalhador sem proteção. É o sertanejo submetido às dificuldades econômicas. É o indivíduo que ocupa posição inferior em uma sociedade organizada por desigualdades.
A literatura de Allyrio procura dar voz a esse personagem. O romancista não escolhe como centro de suas narrativas os poderosos. Volta-se para aqueles que vivem à margem. Procura compreender suas dores. Registra suas dificuldades. Transforma suas experiências em matéria literária.
Armando Frazão afirma:
“Todos os seus romances são orientados por esta constante: a luta pelos direitos do homem, o que dá à sua obra um caráter de universalidade”.
Essa avaliação ultrapassa o regionalismo. Embora os romances estejam relacionados à realidade nordestina, os problemas apresentados não pertencem apenas ao sertão. A luta por direitos é universal.
A desigualdade pode assumir formas diferentes, mas está presente em diversas sociedades. O sofrimento do trabalhador nordestino dialoga com o sofrimento de outros grupos humanos. Por isso, a obra ultrapassa os limites regionais.
O sertão torna-se espaço de reflexão universal. A literatura de Allyrio parte de uma realidade concreta, mas alcança questões amplas: justiça, liberdade, dignidade e direitos humanos.
Armando Frazão identifica, assim, uma das principais características do romancista: a capacidade de transformar a experiência regional em interpretação humana.
Bolsos Vazios: o romance da inquietação social
Ao analisar Bolsos Vazios, Armando Frazão destaca a força com que Allyrio apresenta o problema do desajuste social. O autor escreve:
“Em ‘Bolsos Vazios’, ele trata com grande força de expressão do desajuste social”.
A expressão “desajuste social” indica uma sociedade incapaz de garantir equilíbrio e justiça. As relações sociais produzem exclusão. Na concepção de Allyrio, a pobreza não é simples condição individual: é consequência de uma organização desigual. Nesse romance, surge Jarjatã, descrito como: “O gigante de cabelos de sol.”
Armando Frazão acrescenta que Jarjatã seria o próprio autor. A interpretação aproxima personagem e escritor. A figura ficcional torna-se espécie de alter ego. Por meio dela, Allyrio expressa inquietações pessoais e políticas.
Jarjatã sonha com a revolução. A revolução aparece como necessidade de renovação. Não representa apenas mudança política. É desejo de transformação social. É esperança de superação das injustiças. É tentativa de construir outra realidade.
O personagem vive dominado por essa ideia. Tudo o inquieta porque a revolução ocupa o centro de suas preocupações. Armando Frazão observa:
“Tudo que o inquieta é ela, como uma necessidade de renovação”.
Em ‘Bolsos Vazios’, a literatura torna-se espaço de elaboração de um projeto social. A revolução aparece como resposta à desigualdade. O romance não se limita a descrever problemas. Procura imaginar alternativas. A inquietação do personagem revela a inquietação do autor. A obra transforma o pensamento político em experiência literária.
Ranger de Dentes e a continuidade da doutrina revolucionária Armando Frazão identifica continuidade entre Bolsos Vazios e Ranger de Dentes. Armando afirma que:
“Em ‘Ranger de Dentes’, o autor continua a pregar a sua doutrina revolucionária”.
A palavra “continua” é importante. A preocupação social não foi episódio isolado. Constituiu eixo permanente da produção. O pensamento revolucionário atravessava a obra. Com Allyrio, a literatura funcionava como espaço de defesa de ideias. Entretanto, Frazão apresenta uma observação crítica e bem-humorada:
“Dir-se-á que ele tinha no sangue o germe da revolução”.
A frase sugere que a revolta fazia parte da personalidade. Allyrio não se tornara revolucionário apenas por influência de teorias. A disposição para contestar parecia natural. Era característica do temperamento. O autor associa essa condição a uma frase atribuída a Ralph Waldo Emerson:
“Wherever a man comes, there comes the revolution.”
A citação reforça a imagem de um homem cuja presença provoca mudanças. Onde Allyrio chegava, surgia a discussão. A conversa transformava-se em debate. O encontro produzia conflito intelectual. Sua personalidade parecia carregar a revolução. Mas Armando Frazão introduz uma observação irônica sobre Allyrio:
“Mas seria incapaz de lutar”.
O escritor seria revolucionário nas ideias, mas não na ação. O autor compara Allyrio a um general que oferece uma espada ao soldado e, no momento do combate, é o primeiro a fugir. Nas palavras de Armando Frazão, Allyrio:
“Era um autêntico revolucionário de gabinete”.
A expressão não deve ser interpretada como simples diminuição. Frazão reconhece a sinceridade das ideias revolucionárias, mas identifica os limites da personalidade. Allyrio discutia. Argumentava. Defendia teorias. Escrevia. Mas não possuía disposição para a ação física.
Em Allyrio, a revolução era intelectual. Sua arma era a palavra. O gabinete era o território da luta. Essa observação revela a liberdade que existia entre os dois amigos. Armando Frazão admirava Allyrio, mas não construía imagem idealizada. Reconhecia suas contradições. O grande intelectual também possuía fragilidades. O revolucionário era incapaz de enfrentar o combate. A crítica, entretanto, é apresentada com humor e afeto.
A obsessão pela glória
Outro elemento central do artigo é a busca de Allyrio pelo reconhecimento. Armando Frazão afirma:
“A obsessão de Allyrio era a glória”
A palavra “obsessão” demonstra intensidade. O escritor não desejava apenas publicar. Queria permanecer. Desejava alcançar posição de destaque. Esperava que sua obra fosse reconhecida. A glória representava continuidade. Era forma de vencer a morte.
Em Bolsos Vazios, Climaldo afirma que:
“Inscreveria no século, como um farol luminoso, o seu nome”.
A frase revela desejo de permanência histórica. O nome deveria atravessar o tempo. A obra seria farol. A literatura iluminaria o século.
Armando Frazão aproxima Climaldo do próprio Allyrio. A ambição do personagem representa a ambição do autor. O escritor desejava ocupar lugar importante na literatura brasileira. Não se contentava com reconhecimento local. Queria ser lembrado nacionalmente.
A busca pela glória também se manifestava em sua autoconfiança. Allyrio acreditava no valor de sua inteligência. Reconhecia a originalidade de sua obra. Considerava-se capaz de enfrentar os grandes nomes da literatura.
Essa confiança podia ser interpretada como vaidade. Mas também era resultado da consciência de suas capacidades. Armando Frazão apresenta essa característica sem condená-la.
A fome de glória aparece como força criadora. O desejo de reconhecimento estimulava a produção. O escritor buscava deixar marca. O ateu convicto e o materialista dialético
Uma das partes mais reveladoras do artigo trata das convicções filosóficas e religiosas de Allyrio. Em seu escrito, Armando Frazão afirma:
“Allyrio era um ateu consumado e costumava dizer: ‘Sou marxista por convicção, um materialista dialético’”.
A declaração apresenta o escritor como homem de posições definidas. Não se tratava de dúvida. Era convicção. O materialismo dialético oferecia instrumento para interpretar a sociedade. A realidade era compreendida por meio das relações materiais.
As mudanças históricas resultavam de conflitos. A desigualdade era analisada como produto de estruturas sociais. Essa concepção influenciava sua literatura. O pensamento marxista contribuía para explicar a presença da luta de classes e da revolução em seus romances.
O ateísmo também aparecia de maneira intensa. Armando Frazão observa que, em Bolsos Vazios, essa posição assume aspecto: “Brutal, agressivo, feroz”. O romance apresenta diálogos que expressam revolta contra Deus. Climaldo declara:
– “Descobri que Deus não gosta de mim”.
Outro personagem responde:
– “Que importa? Mande Deus às favas”.
A passagem revela uma crítica radical à religião. A divindade é apresentada como indiferente ao sofrimento humano. Em outro trecho, o autor escreve:
– “Há barreiras intransponíveis a separar o céu da terra”.
E acrescenta:
– “Deus não ouve o soluço dos homens”.
A frase expressa a experiência de abandono. O sofrimento humano parece não alcançar o céu. A distância entre Deus e os homens torna-se intransponível. Em seguida, surge a afirmação mais provocadora:
– “Deus está apodrecendo”.
A expressão possui caráter sacrílego. Mas também representa revolta. O escritor questiona a utilidade de uma fé incapaz de responder ao sofrimento. O ateísmo aparece como consequência da percepção da injustiça. Se Deus existe, por que permite a dor? Se ouve os homens, por que permanece silencioso? A literatura transforma essas perguntas em conflito.
A conversa sobre Deus
O artigo ganha intensidade quando Armando Frazão abandona a análise literária e passa a narrar uma experiência pessoal. O autor recorda:
“Um dia, conversava com ele. Quando o assunto foi, justamente, a existência de Deus, ele demonstrava que Deus não existe”.
A cena apresenta os dois amigos diante de um tema fundamental. Allyrio defendia o ateísmo. Armando Frazão mantinha a fé. A conversa reunia outras pessoas, que ouviam o escritor com atenção.
O autor observa:
“Havia outras pessoas que o ouviam religiosamente. O único a discordar da sua opinião fui eu”.
A expressão ‘religiosamente’ produz efeito irônico. Os ouvintes acompanhavam o ateu como se participassem de cerimônia. A autoridade intelectual de Allyrio parecia exercer fascínio. Armando Frazão, entretanto, discordou. Disse que acreditava em Deus. Argumentou que o mundo não havia sido criado pelo homem.
A conversa transformou-se em confronto filosófico. O escritor tentou demonstrar a inexistência de Deus. O amigo procurou defender a fé.
Frazão cita Bergson e seu “influencionismo”.
Allyrio riu de maneira forçada. E, quando soube que o interlocutor era tomista, escandalizou-se.
Aconselhou-o a abandonar aquela “crença tola”. Afirmou que a posição era consequência da idade. No entanto, a resposta de Frazão foi firme:
– “Jamais, que nunca deixaria de crer em Deus”.
A passagem demonstra que a amizade não dependia de concordância. Os dois mantinham posições opostas. Um era ateu e materialista. O outro defendia a fé e o tomismo. Entretanto, a divergência não destruiu a convivência.
Armando Frazão declarou:
“Era seu amigo, que o admirava intelectualmente, mas não concordava em sua opinião sobre vários pontos de vista”
Essa frase revela a maturidade de Armando. Na realidade, a admiração não exige concordância. É possível reconhecer a inteligência de alguém e discordar de suas ideias. A amizade pode sobreviver ao conflito filosófico. E isto entre Armando Frazão e Allyrio foi possível.
A convivência com Allyrio ensinava que o debate era parte da vida intelectual. As divergências não precisavam ser escondidas. Podiam ser discutidas.
“Vá com Deus” – “Antes mal acompanhado”
Depois da conversa, Allyrio despediu-se. Narra Armando Frazão que uma das pessoas presentes disse:
– “Já vá, Allyrio? Vá com Deus”.
O escritor voltou-se e respondeu:
– “Antes mal acompanhado”.
A frase provocou riso. O episódio sintetiza o humor irreverente. Allyrio transformava qualquer situação em oportunidade para a provocação. Mesmo depois de longa discussão sobre a existência de Deus, respondia com ironia.
A frase também revela a capacidade de improvisação. Em Allyrio, o humor era rápido. A resposta surgia imediatamente.
Armando Frazão observa:
“Ninguém pode conter o riso”.
A cena demonstra que o ateísmo não impedia a convivência. A discussão terminava com humor. A divergência não produzia hostilidade. O escritor provocava, mas também divertia. Essa capacidade de rir contribuía para sua presença marcante.
Com Allyrio, as conversas não eram apenas intelectuais. Possuíam teatralidade. Allyrio utilizava frases de efeito. Criava situações. Surpreendia os interlocutores. Com ele, a palavra era instrumento de pensamento e espetáculo.
O ateu que carregava uma Bíblia
Armando Frazão introduz, então, uma contradição surpreendente. Apesar das blasfêmias e do ateísmo declarado, Allyrio possuía uma relação particular com a Bíblia.
O autor escreve:
“Custa a crer que Allyrio Wanderley tivesse a sua religiosidade. Pois, tinha, ao menos suposta”.
A expressão “ao menos suposta” revela dúvida. Frazão não afirma que o escritor era religioso. Apenas reconhece comportamentos que pareciam contradizer o ateísmo. Certa vez, Allyrio foi convidado a realizar uma conferência em um centro cultural. O tema seria: “O Desenvolvimento do Brasil em Relação às demais Nações do Mundo”.
Quando chegou, trazia debaixo do braço uma Bíblia. A imagem é inesperada. O materialista dialético carregava o livro sagrado. O ateu utilizava as Escrituras.
Narrando esse episódio, Armando Frazão recorda um verso de Shakespeare, que diz:
“O demônio, quando lhe agrada, cita as Escrituras”.
A referência possui humor. O autor sugere que Allyrio utilizava a Bíblia não por fé, mas por conhecimento. As Escrituras poderiam servir como fonte histórica, literária ou argumentativa.
O intelectual conhecia os textos religiosos. Podia citá-los. Utilizava-os nos debates. A presença da Bíblia revela amplitude cultural que existia em Allyrio.
O ateísmo não significava desconhecimento da religião. Allyrio conhecia aquilo que criticava. Essa característica reforça a imagem do polemista.
Para discutir qualquer tema, procurava dominar os argumentos. A Bíblia podia ser instrumento intelectual. Não precisava representar crença.
O homem sempre risonho
Uma das mais importantes contribuições do artigo de Armando Frazão é a descrição do temperamento de Allyrio.
Armando Frazão afirma:
“O curioso em Allyrio Wanderley era que ele nunca foi visto de mau humor, mostrando-se, ao contrário, sempre risonho, de conversação”.
A observação surpreende. O escritor era conhecido pelas ideias radicais. Possuía personalidade inquieta. Envolvia-se em polêmicas. Entretanto, não demonstrava tristeza: era sorridente. Gostava de conversar. Participava das rodas culturais. A presença era agradável.
Armando Frazão considera essa característica ainda mais curiosa porque Allyrio era homem nervoso. Segundo a interpretação de Frazão, o indivíduo neurastênico tende a ser introvertido, inacessível e facilmente irritável. Allyrio contrariava essa expectativa.
Apesar da inquietação interna, Allyrio mantinha comportamento sociável. A conversa funcionava como forma de defesa. O humor escondia a tensão. O sorriso protegia o homem. A alegria aparente podia ser resposta às dificuldades. Essa interpretação torna-se mais clara quando Frazão revela aspectos íntimos da vida de Allyrio.
O medo do sangue e a presença da morte
Armando Frazão informa que a esposa do escritor lhe contou sobre um medo intenso:
“Ele tinha um horror medonho a sangue”.
Allyrio não conseguia receber injeções. Temia observar a agulha. Tinha medo da dor. A informação humaniza o intelectual. O polemista invencível nos debates possuía fragilidades. O homem que enfrentava escritores e professores temia uma picada. A contradição é reveladora.
A coragem intelectual não significava coragem física. O revolucionário de gabinete também possuía medo do sangue. Armando Frazão acrescenta informação ainda mais surpreendente:
“Andava – coisa que talvez ninguém saiba – com duas ampolas de ‘coramina’ no bolso”.
O medicamento funcionava como proteção. Allyrio temia sofrer síncope fora de casa. Recusava-se a sair sem as ampolas. A preocupação era constante. O escritor vivia acompanhado pelo medo.
Frazão utiliza a palavra ‘tanatófobo’. O termo significa pessoa dominada pelo medo da morte. A revelação é importante.
Allyrio desejava a glória e a permanência. Queria inscrever o nome no século. No entanto, temia a morte.
A busca pela imortalidade literária pode ser relacionada a esse medo. A obra seria forma de sobrevivência. O escritor desapareceria, mas os livros permaneceriam.
A literatura venceria a morte. Era o sonho de Allyrio. Entretanto, o medo não aparecia publicamente.
Frazão observa:
“Mas não aparentava coisa nenhuma”.
O escritor escondia as fragilidades. Mantinha o sorriso. Continuava conversando. Participava dos debates. Em Allyrio, o humor funcionava como máscara.
A comparação final é extraordinária:
“Como Voltaire, ele ria para não se enforcar”.
A frase sintetiza o retrato. O riso não significava ausência de sofrimento. Era forma de resistência. O humor ajudava a enfrentar a ansiedade. A alegria escondia a inquietação. O sorriso protegia o homem do medo. Essa é uma das imagens mais humanas apresentadas por Armando Frazão.
A verve inesgotável e o escritor encontrado no espelho
O autor descreve Allyrio como homem de grande capacidade verbal:
“Allyrio era dotado de uma verve inesgotável”.
A expressão corresponde aos relatos de outros contemporâneos. O escritor dominava as conversas. Possuía respostas rápidas. Transformava temas complexos em debates. Sua inteligência manifestava-se oralmente. A conversa era extensão da obra.
Armando Frazão recorda uma situação reveladora. Allyrio perguntou quais livros da literatura brasileira ele havia lido e de quais tinha gostado.
Frazão citou diversos títulos. Incluiu Bolsos Vazios e faz questão de esclarecer:
“Não para lhe agradar, mas porque gostara, de fato, do livro que é um grande romance”.
A observação demonstra sinceridade. A admiração não era resultado da amizade. O livro possuía valor literário. Frazão realmente gostava da obra.
Depois, perguntou se Allyrio conhecia o autor. O escritor respondeu:
– “Conheço. Às vezes, me encontro com ele no espelho”.
A frase é uma das mais expressivas do artigo. Revela vaidade. Mas revela também humor. Allyrio reconhecia a própria importância. Sabia que era autor de uma obra relevante. Não demonstrava falsa modéstia.
A resposta transforma a autoconfiança em brincadeira. O espelho apresenta o escritor ao próprio escritor. O homem torna-se leitor de si. A frase pode ser interpretada como manifestação de orgulho, mas também como consciência artística.
Allyrio acreditava no valor de Bolsos Vazios. O autor conhecia a obra. E conhecia o autor porque o encontrava diariamente. A resposta demonstra a capacidade de criar frases memoráveis.
O polemista que preferia os pseudônimos
Armando Frazão apresenta outra dimensão importante: a atividade polemista. E afirma:
“Polemista vigoroso, ainda assim, ele só gostava de aparecer sob pseudônimo”.
A utilização de nomes fictícios não significava medo. Frazão faz questão de esclarecer:
“E não se diga que era por medo. Lá isso não”.
O pseudônimo funcionava como estratégia. Permitia liberdade. Criava personagem. Aumentava o mistério. Possibilitava separar o escritor do polemista.
No Rio de Janeiro, Allyrio utilizou o nome Monte Cristo. Sob esse pseudônimo, participou de debates com importantes nomes da literatura brasileira, incluindo Tristão de Athayde.
Na Paraíba, utilizou outros nomes: Horácio Batista, André Luiz e André L. Filho, dentre outros.
A multiplicidade de pseudônimos demonstra gosto pelo jogo intelectual. O escritor criava novas identidades. Cada nome podia representar voz diferente. A polêmica adquiria dimensão teatral. O autor se ocultava, mas sua presença permanecia reconhecível.
Os pseudônimos também contribuíam para a construção do personagem Allyrio. O homem não possuía uma única identidade pública. Era romancista. Era crítico. Era polemista. Era tradutor. Era jornalista. E, em determinados momentos, assumia nomes diferentes. Essa multiplicidade tornava sua figura ainda mais complexa.
A lógica de ferro
Em seu artigo, Armando Frazão afirma:
“Allyrio Wanderley não tinha contendor, nem jamais encontrou quem o batesse, tanto na Paraíba como em outros lugares”.
A declaração demonstra admiração. Para o autor, ninguém conseguia vencer Allyrio em uma discussão. A razão estava em sua capacidade argumentativa.
Frazão explica:
“Quando discutia um tema, o fazia com habilidade de mestre, tornando-se logo senhor do assunto”.
A expressão “senhor do assunto” demonstra domínio. O escritor estudava. Relacionava ideias. Utilizava referências. Conhecia diferentes áreas. A conversa rapidamente se transformava em aula. A cultura era instrumento de argumentação.
Armando Frazão afirma:
“Dotado de uma cultura opulenta, vasta e sólida, argumentava com uma lógica de ferro”.
A expressão “cultura opulenta” sugere abundância. O conhecimento não era superficial. Era amplo. A cultura era “vasta”. E também “sólida”. Allyrio não acumulava apenas informações. Possuía capacidade de organizar ideias. A lógica transformava conhecimento em argumento. O raciocínio era difícil de contestar. A imagem da “lógica de ferro” demonstra força. Os argumentos eram resistentes. A discussão possuía estrutura.
O adversário encontrava dificuldades para responder. Essa característica explica o prestígio nas rodas culturais. Conversar com Allyrio significava enfrentar inteligência preparada. A conversa podia ser agradável, mas também exigia atenção.
O debate sobre a Universidade da Paraíba
Armando Frazão recorda episódio relacionado à criação da Universidade da Paraíba. Segundo o artigo, Allyrio, utilizando o pseudônimo de André Luiz, participou de uma polêmica com o professor Gláucio Veiga, da Universidade do Recife.
O autor afirma que o escritor patoense “calou o prof. Gláucio Veiga”.
A expressão demonstra vitória argumentativa. O debate envolvia questão importante para a cultura e a educação paraibanas. A criação da universidade representava projeto de grande significado.
A participação de Allyrio demonstra interesse por temas públicos. O escritor não permanecia restrito à literatura. Acompanhava discussões educacionais. Allyrio intervinha nos debates e utilizava a imprensa para defender posições.
A atuação confirma a imagem de um intelectual participante. Em Allyrio, a literatura era apenas uma dimensão. Seu pensamento alcançava a política, a educação e a organização social.
A pergunta sobre o maior escritor do Brasil
Armando Frazão retorna à questão da glória. Recorda que um estudante perguntou a Allyrio qual seria o maior escritor do Brasil. O jovem também quis saber se Tristão de Athayde ocupava essa posição.
A resposta foi direta:
– “Não sei, nem acho Tristão de Athayde o maior escritor do Brasil. Demais, ser o maior escritor do Brasil não é grande coisa.”
A frase possui diferentes sentidos. Primeiro, revela independência. Allyrio não aceitava automaticamente as hierarquias literárias. Não reconhecia um nome apenas por prestígio. Segundo, demonstra ambição.
Ser o maior escritor brasileiro seria pouco. O horizonte era maior. A glória desejada ultrapassava fronteiras nacionais.
Terceiro, a frase contém provocação. Allyrio gostava de desafiar expectativas. O estudante esperava elogio. Recebeu resposta desconcertante.
Armando Frazão observa:
“O rapaz ficou desapontado”.
A reação demonstra o efeito das palavras. Allyrio não buscava agradar. Preferia surpreender. A resposta também pode ser interpretada como crítica à ideia de grandeza. O escritor não desejava ser medido apenas por títulos. A literatura deveria alcançar dimensão universal.
A imortalidade fora da Academia
Armando Frazão apresenta uma reflexão sobre a Academia Brasileira de Letras. Afirma:
“Eram assim o grande Allyrio Wanderley, que não entrou na Academia, não se tornou ‘imortal’”.
A ausência da Academia não significaria ausência de permanência. A imortalidade não depende de cadeira. Depende da obra.
Em um determinado momento, Armando escreve que Allyrio:
“[…] iria imortalizar-se com sua monumental obra – ‘Materialismo Estético’.”
A referência demonstra a expectativa de que o escritor deixaria contribuição duradoura. Mesmo sem reconhecimento acadêmico, seria lembrado. A obra representaria verdadeira imortalidade.
Armando Frazão conclui:
“Em verdade, a despeito da inveja de muitos, Allyrio Xavier Wanderley está imortalizado na sua obra”.
A frase apresenta a literatura como espaço de permanência. O corpo desaparece. O escritor continua. Os livros preservam ideias. As personagens permanecem. A memória atravessa gerações. A imortalidade literária não depende de instituição. Depende da capacidade de continuar sendo lido.
O reconhecimento entre autores universais
No final do artigo, Armando Frazão apresenta informação que considera significativa. O Clube do Livro, organização editorial do Rio de Janeiro, estava reeditando obras de Allyrio. E em um boletim, aparecia a indicação:
“Wanderley – ‘Ranger de Dentes’ 15,00”.
O nome do escritor estava relacionado a autores como: Anatole France, Théophile Gautier e Gustave Flaubert.
A presença entre autores reconhecidos internacionalmente era interpretada como sinal de valorização. O escritor paraibano não estava isolado. Sua obra circulava. Era publicada. Chegava aos leitores.
Armando Frazão enxergava nesse reconhecimento a confirmação de suas convicções. A posteridade faria justiça.
Em seu artigo, Frazão também afirma que em relação a Allyrio:
“A posteridade há de fazer-lhe justiça”.
A frase possui caráter profético. O autor acreditava que o tempo corrigiria esquecimentos. A obra seria reconhecida. A importância literária se consolidaria. A conclusão do artigo de Armando Frazão é categórica:
“O certo é que não se pode falar de literatura brasileira sem incluir o nome do autor de ‘Bolsos Vazios’”
Essa é a tese final do artigo. Allyrio não deveria ser lembrado apenas como escritor paraibano. Ele pertencia à literatura brasileira. Sua produção ultrapassava limites regionais. O autor de Bolsos Vazios ocupava lugar necessário na história literária.
O Allyrio visto por Armando Frazão
O artigo permite identificar um retrato complexo. Para Armando Frazão, Allyrio Wanderley era: um sertanejo marcado pelas secas e pelas injustiças sociais, um escritor preocupado com a tragédia do “homem pequeno”, um romancista defensor dos direitos humanos, um intelectual de pensamento revolucionário, um “revolucionário de gabinete”, um homem dominado pela busca da glória, um ateu convicto e materialista dialético, um polemista capaz de utilizar a religião como tema de provocação, um leitor da Bíblia e crítico da fé, um homem sempre sorridente, um indivíduo nervoso que escondia os medos, um tanatófobo que temia a morte, um humorista que ria para enfrentar a angústia, um escritor vaidoso que encontrava o autor de Bolsos Vazios no espelho, um polemista que utilizava pseudônimos, um intelectual de cultura vasta, um argumentador de “lógica de ferro”, um homem que não aceitava hierarquias literárias e, um escritor que alcançaria a imortalidade por meio da obra.
A multiplicidade demonstra que Allyrio não pode ser reduzido a uma definição. Era contraditório. Defendia a revolução, mas temia o combate. Negava Deus, mas carregava uma Bíblia. Buscava a glória, mas utilizava pseudônimos.
Possuía nervosismo, mas permanecia sorridente. Temia a morte, mas desejava permanecer. Era vaidoso, mas utilizava o humor para falar de si. Essas contradições não diminuem a personalidade: tornam-na humana.
A convivência como fonte de conhecimento
A principal contribuição de Armando Frazão está na convivência. O autor conheceu Allyrio. Participou de suas conversas. Ouviu seus argumentos. Discordou de suas ideias. Riu de suas provocações. Recebeu confidências. Conversou com sua esposa. Conheceu medos que o escritor não demonstrava publicamente.
Essa proximidade permite revelar dimensões ausentes nos estudos exclusivamente literários. O crítico analisa livros. O amigo observa comportamentos. O pesquisador interpreta ideias. O companheiro recorda gestos.
Armando Frazão reúne essas perspectivas. Seu texto combina crítica, biografia e memória. O artigo não apresenta Allyrio como estátua. Apresenta-o como presença. O escritor fala, ri, provoca, argumenta, discorda e brinca.
A memória devolve movimento. Essa é a importância documental. O artigo de Armando Frazão preserva a voz de Allyrio. Registra diálogos. Mantém frases. Apresenta cenas. Permite imaginar o ambiente das rodas culturais de João Pessoa, frequentadas pelo grande escritor patoense. Em relação a Allyrio e Armando, a convivência transformou-se em fonte histórica.
O escritor que viveu entre a revolução e o riso
O Allyrio Wanderley visto por Armando Frazão é um homem de grandes ideias e profundas contradições. Nele, a experiência sertaneja produziu consciência social. A injustiça despertou revolta. A revolta alimentou a literatura.
Através de Allyrio, a literatura transformou o sofrimento do “homem pequeno” em questão universal. O escritor acreditava na revolução, defendia o materialismo, questionava deus, participava de polêmicas, buscava a glória, mas também possuía medos: temia o sangue, carregava medicamentos, receava a morte e escondia a ansiedade por meio do sorriso.
Essa dualidade constitui a força do retrato. Allyrio não era apenas o intelectual seguro, era também homem vulnerável. Não era apenas revolucionário, era pensador. Não era apenas ateu, era leitor da Bíblia. Não era apenas polemista, era amigo. Não era apenas escritor, era personagem de sua própria história.
Armando Frazão demonstra que a grandeza de Allyrio não estava na ausência de contradições. Estava na capacidade de transformá-las em pensamento.
Em Allyrio, na visão de Armando Frazão, a literatura funcionava como espaço onde revolta, medo, ambição e esperança encontravam expressão.
O escritor desejava inscrever o nome no século. Queria transformar sua obra em farol. Temia a morte, mas acreditava na permanência.
A busca pela glória, promovida por Allyrio pode ser compreendida como desejo de vencer o desaparecimento. Nesse sentido, a frase final de Armando Frazão adquire significado especial:
“A posteridade há de fazer-lhe justiça”.
A posteridade, entretanto, não age sozinha. A justiça depende da memória. Depende da preservação dos livros. Depende de novas edições. Depende da pesquisa. Depende da leitura.
Ao recuperar e analisar um artigo publicado em 1956, nossos esforços contribuem para renovar essa presença.
O texto de Armando Frazão mostra que, pouco depois da morte, Allyrio permanecia vivo nas conversas dos amigos. Seu humor era lembrado. Suas frases continuavam circulando. Suas ideias ainda provocavam. Sua obra permanecia em discussão.
Hoje, muitas décadas depois, o testemunho conserva valor. Permite conhecer o homem que existia por trás do romancista. Permite compreender a amizade entre dois intelectuais paraibanos. Permite perceber que a cultura se constrói também nas rodas de conversa, nos debates, nas divergências e nas lembranças. E, sobretudo, confirma que Allyrio Wanderley não foi apenas autor de grandes romances.
Foi uma presença intelectual, foi um provocador, foi um homem de vasta cultura, foi um polemista, foi um sertanejo comprometido com a realidade social, foi um revolucionário de gabinete, foi um ateu que carregava uma Bíblia, foi um intelectual que discutia com lógica de ferro, foi um homem que desejava a glória e temia a morte e foi, nas palavras mais humanas de Armando Frazão, alguém que, “como Voltaire, ria para não se enforcar”.
Talvez nenhuma outra imagem sintetize tão bem o Allyrio revelado por seu amigo. Por trás da inteligência brilhante, existia a inquietação. Por trás da provocação, existia a sensibilidade. Por trás da vaidade, existia o desejo de permanecer. Por trás do riso, existia o medo. E por trás do homem contraditório, permanecia o escritor que transformou a experiência do sertão, a revolta contra a injustiça e a luta pelos direitos humanos em literatura.
Assim, o Allyrio visto por Armando Frazão é o romancista que viveu entre a revolução e o riso, entre a glória e a morte, entre a razão e a contradição – e que encontrou na literatura a forma mais duradoura de permanecer.
Campina Grande, abril de 2019.
José Ozildo dos Santos
Historiador e professor universitário
