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Allyrio Wanderley visto por Antônio Pereira de Moraes – Da série “Allyrio Wanderley visto por…” (de José Ozildo)

Um livreiro, uma pequena livraria e o encontro com um escritor

Entre os muitos testemunhos que ajudam a reconstruir a trajetória humana e intelectual de Allyrio Meira Wanderley, a crônica escrita por Antônio Pereira de Moraes ocupa uma posição singular. Não se trata de um estudo crítico elaborado a partir da leitura de seus romances, tampouco de uma homenagem produzida por alguém que apenas conheceu a fama do escritor ou acompanhou sua presença nos jornais. O relato nasce da convivência, da observação direta e de uma amizade construída lentamente, a partir de encontros aparentemente simples, ocorridos no interior de uma pequena livraria da cidade de Patos, no sertão paraibano.

Antônio Pereira de Moraes conheceu Allyrio em circunstâncias que, à primeira vista, poderiam parecer corriqueiras. Antes de estabelecer uma relação pessoal com o escritor, já o havia visto na ‘Fruteira de Cristino’, em Campina Grande. O encontro decisivo, contudo, ocorreu em Patos, onde o cronista mantinha uma pequena livraria e agência de revistas. Foi naquele espaço modesto, destinado à circulação de livros, periódicos e novidades editoriais, que se iniciou uma relação que ultrapassaria os limites comerciais e se transformaria em amizade.

O livreiro havia se estabelecido em Patos em setembro de 1935. No ano seguinte, transferiu seu negócio da Rua Djalma Dutra para a Praça João Pessoa [atual Praça Edivaldo Motta], instalando-se no ponto em que anteriormente funcionara a ‘Casa Recife’. A aquisição do estabelecimento, feita junto a Gil Braz de Figueiredo, representou um passo importante para a consolidação de sua atividade comercial. Aos poucos, o negócio se desenvolveu, permitindo que Antônio Pereira passasse a receber diretamente as novidades literárias lançadas pela Companhia Editora Nacional.

Essa informação, aparentemente secundária, ajuda a compreender a importância cultural da livraria no ambiente patoense da década de 1930. Em um período no qual o acesso às novidades editoriais dependia de redes comerciais ainda restritas e de longos deslocamentos, uma pequena casa de livros podia exercer uma função que ultrapassava o comércio. Tornava-se ponto de encontro, espaço de circulação de ideias e lugar de aproximação entre leitores. A livraria de Antônio Pereira, embora modesta, colocava a cidade em contato com parte significativa da produção intelectual brasileira.

Foi nesse ambiente que Allyrio Wanderley passou a frequentar o estabelecimento. Suas visitas ocorriam em intervalos de aproximadamente quinze dias. Não era um cliente comum. O livreiro logo percebeu que estava diante de um leitor atento, exigente e metódico. Allyrio examinava cuidadosamente os livros disponíveis, fazia suas escolhas, efetuava o pagamento e deixava a loja. Falava pouco. Sua presença era discreta e silenciosa, mas a regularidade das visitas acabou despertando a curiosidade do proprietário.

A preferência do escritor recaía, principalmente, sobre os volumes da Coleção Brasiliana, uma das mais importantes iniciativas editoriais do país durante o século XX. A escolha não parece ter sido casual. A coleção reunia estudos e obras voltados para a compreensão do Brasil, de sua história, de sua formação social, de sua geografia, de sua cultura e de seus problemas. O interesse de Allyrio por aqueles livros revela um leitor preocupado em ampliar seu conhecimento e em refletir sobre o país, suas estruturas e seus caminhos.

Esse dado ganha maior importância quando relacionado à produção intelectual do próprio romancista. Allyrio não era apenas um homem que escrevia por impulso ou inspiração ocasional. Era um autor que lia muito, acompanhava as publicações disponíveis e buscava formar uma compreensão mais ampla da realidade brasileira. A leitura, em sua vida, não constituía um passatempo. Era parte de sua maneira de interpretar o mundo e, provavelmente, um dos fundamentos de sua criação literária e de suas posições intelectuais.

As visitas sucessivas modificaram gradualmente a natureza da relação entre o livreiro e o cliente. O silêncio inicial começou a ser substituído por conversas. A convivência tornou-se mais próxima e, pouco a pouco, surgiu a amizade. Antônio Pereira registra esse processo de maneira simples, sem ornamentação excessiva: “Com a continuação de suas visitas à nossa pequena loja, passamos a conversar e fizemos amizade”.

Nessa frase breve encontra-se a origem de todo o testemunho que seria posteriormente registrado. A amizade não nasceu de uma aproximação formal, nem da admiração imediata pela condição de escritor. Formou-se no cotidiano, entre livros escolhidos cuidadosamente, conversas iniciadas sem pressa e encontros repetidos ao longo do tempo. Antes de ser reconhecido por Antônio Pereira como autor de obras importantes, Allyrio foi, para ele, um cliente silencioso e um leitor assíduo.

Esse aspecto confere especial valor à crônica. O retrato produzido pelo livreiro não parte da imagem pública de Allyrio Wanderley, mas da experiência concreta de quem o viu entrar regularmente em sua loja, examinar livros e retornar após alguns dias. O escritor surge, inicialmente, como um homem comum, integrado à rotina da cidade, interessado em leitura e pouco inclinado a longas conversas. Somente depois o cronista tomaria conhecimento da dimensão da produção literária de ilustre cliente.

O leitor por trás do romancista

Antônio Pereira descreve Allyrio como “um homem inteligente, que lia muito”. A afirmação é direta, mas sintetiza duas características fundamentais: a capacidade intelectual e o hábito permanente da leitura. Em vez de apresentar o amigo apenas como romancista, o cronista destaca, antes de tudo, sua condição de leitor. Esse detalhe permite compreender que a obra de Allyrio se alimentava de uma intensa relação com os livros e com o conhecimento.

Somente depois de conhecê-lo como frequentador da livraria, Antônio Pereira soube que aquele cliente reservado era autor de vários livros. Entre as obras mencionadas estão As Bases do Separatismo, Bolsos Vazios, Ranger de Dentes e Os Brutos. A enumeração demonstra que, mesmo vivendo em Patos e mantendo uma rotina ligada às propriedades da família, Allyrio já possuía uma produção literária reconhecida e diversificada.

O cronista não realiza uma análise das obras, nem procura discutir suas características literárias. Seu objetivo é outro: registrar a surpresa de descobrir que o homem silencioso que comprava livros em sua loja era um escritor de produção expressiva. Essa descoberta alterou a percepção que tinha do amigo. O freguês reservado passou a ser visto também como um intelectual, alguém cuja vida ultrapassava os limites da cidade e alcançava o universo mais amplo da literatura brasileira.

A convivência permitiu a Antônio Pereira reunir informações sobre aspectos da vida de Allyrio que não apareciam necessariamente em seus livros. Segundo o cronista, o escritor passava parte do tempo em uma fazenda pertencente à família, onde trabalhava e lia. A imagem é significativa: de um lado, o homem ligado às atividades do interior; de outro, o leitor dedicado e o escritor de imaginação inquieta. Essas duas dimensões não se excluíam. Ao contrário, pareciam compor uma personalidade marcada pela união entre a experiência concreta da vida sertaneja e o interesse permanente pelas ideias.

Antônio Pereira também o descreve como um homem “corado, de físico forte” e “traquejado”. A caracterização contribui para afastar a imagem convencional do intelectual frágil, isolado e exclusivamente dedicado aos livros. Allyrio era apresentado como alguém de presença física marcante, habituado à vida prática e dotado de uma aparência vigorosa. O homem que escrevia romances e discutia ideias não estava separado do mundo cotidiano. Era também um sujeito moldado pela experiência, pelo trabalho e pelos deslocamentos realizados ao longo da vida.

O testemunho informa ainda que Allyrio viveu algum tempo no Sul do país e que teria viajado à Europa. Antônio Pereira não fornece datas nem detalhes sobre essas experiências, limitando-se a registrar informações que lhe chegaram por outras pessoas. Por essa razão, tais referências devem ser compreendidas como parte da memória do cronista, e não como uma reconstituição biográfica detalhada. Ainda assim, elas ajudam a compor a imagem de um homem que conheceu outros espaços e acumulou experiências para além do sertão paraibano.

Segundo o relato, Allyrio casou-se no Sul com uma jovem de ascendência alemã. Posteriormente, já em Patos, ficou viúvo. Antônio Pereira observa que nunca conheceu a esposa do escritor e que jamais os viu juntos. A informação demonstra que, embora fossem amigos, havia limites na convivência entre ambos. O livreiro conhecia aspectos importantes da vida de Allyrio, mas não participava de sua intimidade familiar. Seu relato é, portanto, o testemunho de um amigo próximo, porém não de um confidente absoluto.

Essa distinção é importante para a leitura da crônica. Antônio Pereira não pretende oferecer uma biografia completa nem afirmar que conhecia todos os pensamentos e sentimentos de Allyrio. Em vários momentos, reconhece implicitamente a existência de zonas desconhecidas. O amigo lhe parecia inteligente, culto e digno de consideração, mas também reservado, excêntrico e, por vezes, enigmático. A força do depoimento está justamente nessa combinação entre proximidade e incompletude.

O homem reservado e a imagem do excêntrico

A palavra “excêntrico” aparece mais de uma vez na caracterização de Allyrio. Para Antônio Pereira, ele não era uma pessoa inteiramente aberta ao convívio social. Falava pouco, mantinha certa reserva e parecia guardar para si muitos de seus pensamentos. Ainda assim, frequentava espaços de sociabilidade, participava de festas, viajava e mantinha relações cordiais com diferentes grupos.

O escritor frequentava o ‘Grêmio’, clube considerado um espaço de convivência da elite local e bastante frequentado por uma facção política da cidade. Antônio Pereira também participava daquele ambiente, o que ampliou as oportunidades de convivência entre os dois. Segundo o cronista, Allyrio possuía bom relacionamento no clube, embora não fosse muito dado a conversas.

Essa observação revela uma personalidade que não pode ser reduzida ao isolamento. Allyrio estava presente nos espaços sociais e era conhecido por diferentes pessoas, mas sua presença não significava necessariamente abertura emocional. Podia participar das atividades do Grêmio e, ao mesmo tempo, conservar uma atitude reservada. Essa aparente contradição talvez explique por que Antônio Pereira o considerava excêntrico.

O livreiro, contudo, não confunde reserva com hostilidade. Ao contrário, afirma que Allyrio o considerava amigo. A amizade entre ambos parece ter sido construída sobre uma confiança silenciosa, sem necessidade de longas declarações. O escritor não era expansivo, mas reconhecia o vínculo que havia formado com o livreiro. Essa relação se manifestava na convivência, nas viagens e na presença constante em determinados momentos da vida social.

Antônio Pereira já sabia que Allyrio havia sido perseguido em razão da publicação de ‘As Bases do Separatismo’ e que era identificado como um homem de esquerda. O cronista, porém, faz questão de afirmar que essa circunstância nunca abalou a amizade entre os dois. Mais do que isso: declara que jamais conversaram sobre o assunto.

A passagem revela um aspecto relevante do relacionamento. A amizade não dependia da concordância política nem da adesão às ideias defendidas por Allyrio. Antônio Pereira reconhecia que o amigo possuía posições próprias, algumas delas consideradas controversas, mas não permitiu que as diferenças se transformassem em motivo de afastamento. Havia, entre ambos, um respeito que antecedia qualquer debate ideológico.

Esse posicionamento se tornará ainda mais claro no final da crônica, quando o autor afirma que não pretendia defender as ideias de Allyrio, mas sim o direito ao pensamento. A distinção é fundamental. Para Antônio Pereira, a amizade e a defesa da liberdade intelectual não exigiam concordância absoluta. Era possível discordar de um homem e, ainda assim, reconhecer sua inteligência, respeitar sua autonomia e defender seu direito de expressar convicções.

O testemunho do livreiro, portanto, apresenta Allyrio como uma figura complexa: leitor disciplinado, escritor conhecido, homem de presença física marcante, frequentador de clubes, amigo reservado, indivíduo de convicções políticas próprias e personalidade difícil de enquadrar em definições simples. A imagem construída não é a de um herói sem contradições, mas a de um ser humano cuja riqueza interior se manifestava de formas nem sempre compreendidas pelos que o cercavam.

É justamente nessa dimensão humana que a crônica de Antônio Pereira de Moraes se torna especialmente importante. Enquanto outros autores analisaram a obra, a inteligência ou a projeção pública de Allyrio Wanderley, o antigo livreiro de Patos registrou o homem que entrava em sua pequena loja, escolhia livros com cuidado, pagava, saía em silêncio e retornava dias depois. Foi a repetição desses gestos simples que permitiu o nascimento de uma amizade e, décadas mais tarde, a preservação de uma memória que ajuda a compreender o escritor para além de seus livros.

A gravata vermelha e o enigma do luto

Entre as recordações preservadas por Antônio Pereira de Moraes, uma se destaca pela força da cena e pelas indagações que permaneceu provocando no próprio cronista. Trata-se do episódio ocorrido no ‘Grêmio’, pouco tempo depois da morte da esposa de Allyrio Wanderley. O acontecimento, aparentemente simples, tornou-se para o antigo livreiro uma espécie de chave para compreender – ou, talvez, para reconhecer a impossibilidade de compreender inteiramente – a personalidade do amigo.

Antônio Pereira recorda que se encontrava no ‘Grêmio’, aguardando o início das festividades, quando Allyrio entrou no salão usando uma gravata vermelha. Em seguida, sentou-se numa mesa próxima onde ele estava tomando uma cerveja. A presença do escritor não passou despercebida. Os olhares dos frequentadores voltaram-se imediatamente para a mesa, carregados de curiosidade e de uma reprovação que, embora não expressada verbalmente, podia ser percebida no comportamento dos presentes.

A razão daquele desconforto estava relacionada à recente morte da esposa de Allyrio. Segundo Antônio Pereira, a mulher havia falecido havia poucos dias, talvez cerca de um mês. Na percepção de parte da sociedade local, a presença do viúvo em uma festa, vestindo uma gravata de cor viva e participando do ambiente social, parecia incompatível com o período de luto. Os olhares dirigidos ao escritor funcionavam, assim, como uma forma silenciosa de censura.

A cena permite compreender determinados valores sociais vigentes naquele tempo. O luto não era percebido apenas como uma experiência íntima, ligada à dor e à memória de quem havia morrido. Também possuía uma dimensão pública. Esperava-se que o sofrimento fosse exteriorizado por meio de comportamentos socialmente reconhecidos: o afastamento das festas, a adoção de uma postura mais recolhida e a demonstração visível de tristeza. A sociedade parecia estabelecer, ainda que de maneira não escrita, uma espécie de ritual coletivo para a manifestação da perda.

Allyrio, entretanto, encontrava-se no Grêmio. Sua presença rompia, pelo menos aparentemente, com as expectativas dos que o observavam. A gravata vermelha, por sua vez, assumia um significado ainda mais expressivo. A cor chamava atenção e podia ser interpretada como um sinal de alegria, descontração ou indiferença diante do luto. Não sabemos se o escritor escolheu a gravata com alguma intenção especial ou se o detalhe foi apenas uma circunstância casual. A crônica não fornece elementos suficientes para responder a essa questão.

Antônio Pereira não aderiu à condenação silenciosa que percebia ao redor. Afirma que encarou a situação com naturalidade, reconhecendo que nada poderia fazer diante dos comentários e das interpretações que se formavam. Em vez de assumir a posição de juiz, procurou considerar outra possibilidade: talvez Allyrio estivesse ali justamente para fugir da tristeza e tentar esquecer, ainda que por algumas horas, a dor provocada pela perda da esposa.

Essa hipótese revela sensibilidade e compreensão. O livreiro não ignorava que o comportamento do amigo poderia causar estranhamento, mas recusava-se a concluir, imediatamente, que a presença no Grêmio significava ausência de sofrimento. A dor não se manifesta da mesma maneira em todas as pessoas. Alguns procuram o isolamento; outros buscam a companhia de amigos; alguns se recolhem ao silêncio; outros tentam manter atividades habituais como forma de enfrentar a solidão.

A interpretação de Antônio Pereira é, portanto, mais humana do que moralista. Ao imaginar que Allyrio pudesse estar tentando esquecer a tristeza, o cronista reconhece que a participação em uma festa não era necessariamente prova de insensibilidade. Poderia representar, ao contrário, uma tentativa de escapar momentaneamente da angústia e do vazio deixados pela morte.

Apesar disso, a dúvida permaneceu. Muitos anos depois, o episódio ainda ocupava espaço em sua memória. O próprio cronista admite que nunca conseguiu compreender plenamente o comportamento do amigo e formula duas perguntas: teria Allyrio sido “um materialista insensível” ou “um homem que fugia da solidão”? Em seguida, encerra a reflexão com uma única palavra: “Um enigma”.

A conclusão é reveladora. Antônio Pereira não tenta resolver a contradição nem construir uma explicação definitiva. Reconhece que havia em Allyrio uma dimensão que permanecia inacessível, mesmo para alguém que o conhecera de perto. A amizade permitira observar o escritor em diferentes circunstâncias, mas não concedera ao cronista o poder de penetrar completamente em seus sentimentos.

Esse “enigma” talvez seja um dos elementos mais importantes de toda a crônica. Ele impede que o retrato de Allyrio se transforme em uma imagem simplificada. O escritor não aparece como um homem inteiramente previsível, transparente ou facilmente classificável. Sua personalidade conserva zonas de silêncio e contradição. Era inteligente e reservado. Sociável, mas pouco dado a conversas. Amigo, porém discreto. Leitor dedicado e homem de vida prática. Participante das festas, mas talvez profundamente marcado pela solidão.

A força do testemunho está justamente no fato de que Antônio Pereira não procura eliminar essas ambiguidades. Ao contrário, preserva-as. O cronista aceita que nem toda experiência humana pode ser explicada e que, muitas vezes, a memória é capaz de registrar um acontecimento sem conseguir decifrar completamente seu significado.

As viagens a Santa Luzia e o convívio para além de Patos

Depois do episódio ocorrido no ‘Grêmio’, a amizade entre Antônio Pereira e Allyrio continuou. O cronista informa que realizou diversas viagens ao lado do escritor para a cidade vizinha de Santa Luzia. Durante essas ocasiões, participavam de festas e dançavam.

A lembrança é breve, mas acrescenta novas dimensões ao retrato construído. O Allyrio apresentado nas primeiras páginas da crônica era o cliente silencioso da livraria, o leitor cuidadoso e o homem de comportamento reservado. Nas viagens a Santa Luzia, surge outra face: a do companheiro de deslocamentos, participante de festas e frequentador de ambientes animados.

A informação também demonstra que a relação entre os dois ultrapassou os limites da livraria e do ‘Grêmio’. Antônio Pereira e Allyrio passaram a compartilhar momentos de convivência em outras cidades. As viagens contribuíram para fortalecer a amizade e permitiram ao livreiro observar o escritor em circunstâncias diferentes daquelas vivenciadas no cotidiano patoense.

O fato de ambos irem a festas e dançarem ajuda a afastar a imagem de um Allyrio permanentemente isolado ou entregue exclusivamente à leitura e à produção literária. O escritor possuía uma vida social, apreciava encontros e participava de atividades recreativas. Sua reserva não significava rejeição absoluta ao convívio. Ele podia ser silencioso em determinadas situações e, em outras, integrar-se naturalmente ao ambiente festivo.

Essa multiplicidade de comportamentos reforça a complexidade de sua personalidade. Não há, na crônica, um único Allyrio. Existem várias dimensões que se complementam e, por vezes, parecem contraditórias: o leitor e o dançarino; o escritor e o homem ligado à fazenda; o intelectual de ideias próprias e o amigo que viajava para participar de festas; o indivíduo reservado e o frequentador do ‘Grêmio’.

A convivência também parece ter confirmado a confiança existente entre os dois. Antônio Pereira não apresenta as viagens como acontecimentos extraordinários, mas como parte natural de uma amizade que se consolidara com o tempo. O antigo cliente tornara-se companheiro de passeios e de celebrações. A pequena livraria, onde a relação havia começado, já não era o único espaço de encontro.

Ao recordar essas experiências, o cronista não procura atribuir-lhes significados grandiosos. A memória se manifesta por meio de fatos concretos: viajar, participar de festas, dançar, conversar e conviver. São gestos simples, mas fundamentais para a reconstrução do homem que existia por trás do escritor conhecido.

A liberdade do pensamento como fundamento da amizade

Após recordar as viagens a Santa Luzia, Antônio Pereira introduz uma reflexão que amplia o alcance de sua crônica. O texto deixa de ser apenas uma narrativa de lembranças pessoais e passa a discutir o valor da liberdade do pensamento. A mudança é significativa, pois revela que a memória de Allyrio estava associada, para o cronista, não somente à amizade, mas também ao direito de cada indivíduo de formular e expressar suas próprias ideias.

O autor afirma que, qualquer que fosse o pensamento político de Allyrio, o pensamento era livre. Em seguida, utiliza uma linguagem marcada por imagens de grandeza e amplitude: o pensamento poderia sair do cérebro dos gênios, atingir as alturas do infinito, sonhar com o inatingível e viajar por mundos de utopia e ilusão. Nenhuma força seria capaz de detê-lo.

A passagem revela uma concepção elevada da atividade intelectual. Pensar não significa apenas organizar ideias ou defender posições políticas. O pensamento é apresentado como força criadora, capaz de ultrapassar limites, imaginar novas possibilidades e transformar a realidade. A liberdade de pensar aparece como uma condição essencial para a existência humana e para o desenvolvimento da sociedade.

Essa reflexão possui relação direta com a trajetória de Allyrio. Antônio Pereira já havia mencionado que o escritor fora perseguido em razão de ‘As Bases do Separatismo’ e que era identificado com posições de esquerda. Embora não desenvolva historicamente esse episódio, o cronista sugere que a defesa do pensamento livre estava ligada às dificuldades enfrentadas pelo amigo em decorrência de suas convicções.

A posição de Antônio Pereira é especialmente importante porque ele não declara concordância com as ideias políticas de Allyrio. Ao contrário, faz questão de estabelecer uma distinção entre apoiar determinadas concepções e defender o direito de uma pessoa de formulá-las. Essa diferença demonstra maturidade intelectual. A liberdade de pensamento não deve ser concedida apenas àqueles que compartilham nossas opiniões. Seu verdadeiro significado se manifesta quando reconhecemos o direito de discordar.

A amizade entre os dois parece ter sido sustentada por esse princípio. Antônio Pereira conhecia a orientação política do escritor, sabia que ele havia sido perseguido e tinha consciência das controvérsias associadas à sua produção. Mesmo assim, nada disso destruiu a relação construída entre ambos. As diferenças não se transformaram em motivo de hostilidade.

Nesse sentido, a crônica oferece uma lição que ultrapassa o contexto histórico em que foi escrita. A convivência humana não exige uniformidade de pensamento. Pessoas com experiências, crenças e posições distintas podem estabelecer relações baseadas no respeito. A amizade não precisa ser resultado da concordância absoluta, mas pode nascer do reconhecimento da dignidade intelectual e moral do outro.

O escritor esquecido e a pergunta dirigida à sociedade

A reflexão sobre a liberdade conduz Antônio Pereira a uma questão mais ampla: por que o nome de Allyrio Wanderley, que em determinado momento alcançara grande projeção, teria sido relegado ao esquecimento? O cronista recorda que o escritor fora manchete em razão do brilho de sua pena e da autenticidade de suas obras. Apesar disso, sua presença teria diminuído, como se a sociedade tivesse deixado de reconhecer a importância de sua produção.

A pergunta formulada pelo antigo livreiro não recebe uma resposta definitiva. Ele considera diferentes possibilidades. Teria sido a indiferença? Teria sido a intolerância? Teria a sociedade sido injusta até mesmo com os mortos? As indagações permanecem abertas e revelam a inquietação de alguém que não compreendia por que um escritor de reconhecida inteligência e produção expressiva poderia desaparecer da memória coletiva.

Ao relacionar o esquecimento à coragem de Allyrio em externar suas ideias, Antônio Pereira sugere que a independência intelectual poderia ter contribuído para seu afastamento dos espaços de reconhecimento. O escritor talvez tenha pago um preço pela ousadia de pensar de maneira própria e de defender posições que contrariavam determinados setores da sociedade.

É importante observar, contudo, que o cronista não apresenta essa hipótese como uma verdade comprovada. Trata-se de uma reflexão construída a partir de sua percepção e de sua experiência. O texto não fornece elementos suficientes para estabelecer uma relação direta e exclusiva entre as ideias políticas de Allyrio e o posterior esquecimento de seu nome. O que se pode afirmar é que Antônio Pereira enxergava nessa possibilidade uma explicação plausível.

Ao mesmo tempo, o cronista reconhece que o nome do escritor voltaria a surgir. Utilizando uma imagem solar, Antônio Pereira afirma que Allyrio “despontasse como um novo sol”, voltando a brilhar no “firmamento da inteligência”.

A metáfora é carregada de esperança. O esquecimento não seria definitivo. Mesmo depois de períodos de silêncio, a obra e a memória de um escritor poderiam ser redescobertas. O brilho intelectual, temporariamente encoberto, teria condições de reaparecer.

Essa percepção aproxima a crônica de Antônio Pereira dos esforços posteriores de recuperação da trajetória de Allyrio Wanderley. O antigo livreiro, ao registrar suas lembranças, também contribuiu para impedir que o escritor desaparecesse completamente da memória. Seu texto não apenas questiona o esquecimento: atua contra ele.

Ao transformar as experiências pessoais em narrativa, Antônio Pereira preservou informações que talvez se perdessem com o tempo. A pequena livraria de Patos, as visitas quinzenais, os livros escolhidos, as conversas, o ‘Grêmio’, a gravata vermelha, as viagens à cidade de Santa Luzia e as dúvidas sobre a personalidade do amigo passaram a integrar o patrimônio memorialístico relacionado a Allyrio.

A crônica de Antônio Pereira, publicada em 1985, demonstra, assim, que a recuperação de uma figura histórica não depende apenas de estudos acadêmicos ou de grandes biografias. Muitas vezes, são as lembranças de pessoas comuns – amigos, comerciantes, colegas e contemporâneos – que conservam detalhes capazes de humanizar personagens conhecidos principalmente por suas obras.

No caso de Allyrio Wanderley, Antônio Pereira de Moraes preservou a imagem de um homem que lia muito, comprava livros com cuidado, mantinha suas convicções, participava da vida social e permanecia, mesmo para os amigos, parcialmente envolvido por mistério. Sua contribuição não está em oferecer uma interpretação definitiva, mas em registrar uma presença.

Livros, pensamento e liberdade

Ao aproximar a trajetória de Allyrio Wanderley da defesa da liberdade de pensamento, Antônio Pereira de Moraes recorre a duas referências que ampliam o sentido de sua crônica: o poeta Castro Alves e o filósofo Voltaire. As citações não aparecem como simples demonstrações de erudição. Elas constituem os fundamentos simbólicos de uma reflexão que procura explicar por que a leitura, a inteligência e a livre manifestação das ideias deveriam ser reconhecidas como valores essenciais à vida humana.

A primeira referência é retirada do conhecido poema “O Livro e a América”, de Castro Alves:

“Oh! Bendito o que semeia

Livros… Livros à mancheia…

E manda o povo pensar!”

Ao recordar esses versos, Antônio Pereira estabelece uma ligação direta entre o livro e a emancipação intelectual. O homem que distribui livros não oferece apenas objetos destinados à leitura. Contribui para despertar consciências, estimular a reflexão e ampliar a capacidade de compreender o mundo. O livro aparece, assim, como instrumento de formação e liberdade.

A presença dessa referência adquire um significado ainda mais expressivo quando relacionada à própria experiência do cronista. Antônio Pereira não era apenas um escritor que, no final da vida, reuniu suas lembranças no livro Vi, Ouvi e Senti’, publicado em 1985. Durante décadas, também exerceu a atividade de livreiro. Em sua pequena casa comercial, colocava obras e revistas ao alcance dos leitores de Patos. Foi naquele espaço que ele conheceu Allyrio e acompanhou seu interesse permanente pelos livros.

Desse modo, ao citar Castro Alves, o cronista parece valorizar também a função cultural desempenhada pela livraria. O estabelecimento comercial se transformava, simbolicamente, em um lugar onde os livros eram “semeados”. Cada obra adquirida podia conduzir a novas ideias, ampliar horizontes e estimular questionamentos. O livreiro participava, ainda que de forma discreta, do processo de circulação do conhecimento.

A amizade entre Antônio Pereira e Allyrio nasceu justamente nesse ambiente. O primeiro vendia livros. O segundo os procurava, escolhia e levava consigo. Um contribuía para que as obras chegassem à cidade. O outro fazia da leitura uma prática constante. A relação entre ambos se formou, portanto, em torno de um interesse comum pelo universo intelectual.

A lembrança dos versos de Castro Alves também permite compreender a importância atribuída pelo cronista à leitura na formação do próprio Allyrio. O escritor era descrito como alguém que lia muito e que escolhia cuidadosamente os livros que desejava adquirir. Sua preferência pela ‘Coleção Brasiliana’ demonstra que não buscava apenas entretenimento. Interessava-se por obras relacionadas à compreensão do país e de sua realidade.

A leitura constituía, assim, uma das bases da atividade intelectual de Allyrio. Os livros alimentavam sua imaginação, forneciam elementos para a reflexão e ajudavam a formar uma visão própria do mundo. O homem que escrevia romances e defendia ideias também era o leitor que frequentava regularmente uma pequena livraria do interior para acompanhar as novidades editoriais.

Essa dimensão é particularmente importante porque aproxima o escritor do homem comum. Antes de ser o autor conhecido por suas obras, Allyrio aparece como alguém que buscava livros, fazia escolhas e dedicava tempo à leitura. A crônica devolve ao romancista uma experiência cotidiana que, muitas vezes, desaparece nas narrativas centradas exclusivamente em sua produção literária.

Ao mencionar a importância de “mandar o povo pensar”, Antônio Pereira também reforça a ideia de que a leitura não deve produzir conformismo. O pensamento pode conduzir à dúvida, à crítica e à formulação de novas possibilidades. A liberdade intelectual exige que os indivíduos tenham acesso ao conhecimento e possam construir suas próprias interpretações.

Essa concepção se relaciona diretamente com a trajetória de Allyrio. O escritor não se limitou a reproduzir ideias aceitas sem questionamento. Sua produção e suas posições revelavam uma disposição para refletir sobre temas políticos e sociais, mesmo quando suas opiniões provocavam controvérsias. Para Antônio Pereira, a possibilidade de pensar livremente era mais importante do que a concordância com qualquer ideia específica.

Voltaire e o combate à intolerância

Depois de recordar os versos de Castro Alves, Antônio Pereira menciona Voltaire e apresenta o filósofo como uma figura que utilizou a palavra e a escrita para combater a intolerância. Em seguida, atribui-lhe a afirmação de que, por meio da palavra e da pena, seria possível tornar os homens mais esclarecidos e melhores.

No contexto da crônica, a referência reforça a confiança no poder transformador da escrita. A palavra não é apresentada apenas como instrumento de comunicação. Possui capacidade educativa e moral. Por meio dela, os indivíduos podem ampliar seus conhecimentos, rever preconceitos e construir formas mais conscientes de convivência.

A intolerância, por sua vez, surge como uma força contrária ao desenvolvimento intelectual. Quando uma sociedade procura impedir a livre manifestação das ideias, limita a capacidade humana de pensar e de criar. O pensamento passa a ser visto como ameaça, e não como possibilidade de aperfeiçoamento.

É nesse ponto que a reflexão de Antônio Pereira se aproxima da trajetória de Allyrio Wanderley. O cronista já havia mencionado que o escritor fora perseguido em decorrência de ‘As Bases do Separatismo’. Também havia sugerido que o esquecimento de seu nome poderia estar relacionado à coragem de externar suas convicções.

A referência a Voltaire funciona, portanto, como uma crítica indireta às formas de intolerância que podem atingir os homens de pensamento. O escritor que manifesta ideias diferentes corre o risco de ser rejeitado, incompreendido ou afastado dos espaços de reconhecimento. A sociedade, em vez de discutir suas posições, pode tentar silenciá-lo ou reduzir sua importância.

Entretanto, Antônio Pereira não transforma Allyrio em símbolo de uma doutrina específica. Sua defesa possui um alcance mais amplo. O que está em jogo não é a aceitação obrigatória das ideias do romancista, mas o reconhecimento de que todo ser humano possui o direito de pensar e expressar suas convicções.

Essa distinção aparece de forma explícita quando o cronista declara:

“Não defendo aqui as ideias do escritor Allyrio. Mas defendo o pensamento”.

A frase resume a posição central do texto. Antônio Pereira não exige que o leitor concorde com Allyrio. Tampouco procura demonstrar que todas as suas ideias eram corretas. Seu argumento é outro: a liberdade de pensamento deve ser preservada independentemente da identidade religiosa, profissional, política ou social de quem pensa.

A afirmação revela uma compreensão democrática da convivência intelectual. O respeito à liberdade não pode depender da concordância. Se apenas as ideias aceitas pela maioria puderem ser expressas, não haverá verdadeira liberdade. O pensamento somente se torna livre quando também protege o direito à divergência.

A amizade entre o livreiro e o escritor oferece um exemplo concreto desse princípio. Antônio Pereira conhecia a orientação política de Allyrio, sabia que o amigo fora perseguido e reconhecia que possuía ideias próprias. Ainda assim, não permitiu que essas diferenças destruíssem a relação construída entre ambos. A amizade permaneceu porque estava fundamentada em respeito e reconhecimento mútuos.

O pensamento como força criadora e sagrada

Na parte final da crônica, Antônio Pereira amplia ainda mais sua reflexão. O pensamento não pertence exclusivamente a determinado grupo, religião, profissão ou posição política. Pode ser encontrado em um protestante ou em um católico, em um poeta ou em um homem de negócios, em um político honesto ou corrupto, em um ateu ou em um crente.

A enumeração procura demonstrar a universalidade da capacidade de pensar. As diferenças existentes entre os indivíduos não anulam essa condição comum. Cada pessoa, independentemente de suas crenças ou atividades, possui a possibilidade de refletir, criar e formular interpretações sobre a realidade.

Para Antônio Pereira, o pensamento é uma força “criadora e sagrada”, concedida por Deus ao ser humano. Essa definição confere à atividade intelectual uma dimensão espiritual. Pensar não é apenas exercer uma função racional; é utilizar uma capacidade que possui valor profundo e que deve ser respeitada.

A força criadora do pensamento permite que os seres humanos produzam conhecimentos, formulem projetos e realizem transformações. A inteligência torna possível imaginar mudanças e buscar soluções para os problemas da sociedade. Por isso, o pensamento não deve ser aprisionado pela intolerância ou pelo medo.

O cronista conclui que é por meio dessa força criadora que os homens encontram inspiração para transformar a realidade e promover mudanças em benefício da própria humanidade.

A ideia estabelece uma ligação entre pensamento e ação. As transformações sociais não surgem apenas da força material ou das decisões políticas. Antes de se tornarem realidade, precisam ser concebidas. Toda mudança começa como uma possibilidade imaginada, uma reflexão ou uma crítica dirigida ao estado existente das coisas.

Essa concepção ajuda a compreender por que Antônio Pereira valorizava tanto a liberdade intelectual de Allyrio. Mesmo sem declarar concordância com suas ideias, reconhecia que o escritor exercia uma capacidade fundamental: a de pensar de maneira própria e de transformar seus pensamentos em palavras e obras.

O romancista, portanto, não era importante apenas pelos livros que publicou. Representava também a figura do intelectual que se recusava a abandonar sua autonomia. Sua produção constituía uma manifestação da liberdade criadora, ainda que algumas de suas posições provocassem resistência.

A reflexão final da crônica ultrapassa, assim, os limites de uma homenagem pessoal. Antônio Pereira utiliza a memória do amigo para defender um princípio universal. Ao falar de Allyrio, fala também do direito de todos os indivíduos de pensar, criar, discordar e buscar novas possibilidades.

O testemunho de um amigo

A importância da crônica de Antônio Pereira de Moraes não está apenas nas informações que oferece sobre a vida de Allyrio Wanderley. Seu maior valor reside no tipo de olhar que apresenta. O antigo livreiro não escreve como crítico literário, historiador ou biógrafo. Escreve como alguém que conheceu o escritor em situações cotidianas e preservou lembranças construídas ao longo de uma amizade.

Esse olhar permite que Allyrio apareça em uma dimensão mais humana. O leitor encontra o homem que frequentava uma pequena livraria, examinava cuidadosamente os livros, conversava pouco e retornava depois de alguns dias. Conhece o escritor que passava parte do tempo em uma fazenda, trabalhava e lia. Observa o frequentador do Grêmio, o companheiro de viagens e o amigo cuja personalidade permanecia parcialmente envolvida pelo mistério.

A crônica não procura transformar Allyrio em uma figura perfeita. Antônio Pereira registra suas qualidades, mas também reconhece aspectos que não conseguia compreender. A reserva, a excentricidade e o episódio ocorrido após a morte da esposa são apresentados sem tentativas de ocultação.

Essa honestidade aumenta a credibilidade do testemunho. O cronista não constrói um retrato idealizado. Aceita que a amizade não significa conhecimento absoluto. Mesmo convivendo com Allyrio, não era capaz de explicar todos os seus comportamentos ou penetrar completamente em seus sentimentos.

O episódio da gravata vermelha demonstra essa postura. Antônio Pereira não condena o amigo, mas também não afirma conhecer suas motivações. Formula hipóteses, reconhece a dúvida e termina definindo-o como um “enigma”.

A palavra permanece como uma das sínteses mais expressivas do retrato construído. Allyrio era conhecido, mas não inteiramente decifrado. Era amigo, mas conservava espaços de silêncio. Era um homem presente na vida social, mas possuía uma interioridade que não se deixava revelar facilmente.

Talvez seja justamente essa complexidade que torna o testemunho tão importante. As grandes figuras literárias tendem a ser reduzidas a imagens fixas: o romancista, o intelectual, o político, o homem de ideias. A crônica de Antônio Pereira restitui a dimensão contraditória e imprevisível da experiência humana. Nela, Allyrio não aparece apenas como autor de ‘Ranger de Dentes’ ou ‘Os Brutos’. Surge como leitor, cliente, amigo, viúvo, viajante, frequentador de festas e homem de personalidade singular. A literatura continua presente, mas deixa de ser a única chave para compreendê-lo.

Antônio Pereira de Moraes e a preservação da memória

Ao reunir sua produção literária no livro Vi, Ouvi e Senti’, Antônio Pereira transformou lembranças pessoais em registro histórico. A crônica dedicada a Allyrio Wanderley preservou acontecimentos que provavelmente não seriam encontrados em documentos oficiais, estudos literários ou relatos políticos.

A memória do livreiro registra detalhes concretos: a data em que se estabeleceu em Patos, a mudança para a Praça João Pessoa, o desenvolvimento da livraria, a chegada das novidades da Companhia Editora Nacional e a presença regular de um cliente que escolhia livros da ‘Coleção Brasiliana’.

Esses elementos ajudam a reconstruir não apenas a trajetória de Allyrio, mas também o ambiente cultural de Patos no final da década de 1940. A pequena livraria aparece como espaço de circulação de livros e de encontro entre pessoas interessadas na leitura. A amizade entre o livreiro e o romancista revela que a cultura não se desenvolve apenas em grandes centros urbanos. Também se forma em estabelecimentos modestos, nas conversas cotidianas e nos vínculos construídos em torno do conhecimento.

O testemunho possui ainda um valor afetivo. Antônio Pereira escreve sobre alguém que conheceu e estimou. Mesmo quando manifesta dúvidas, mantém uma postura de respeito. A amizade orienta sua narrativa, mas não elimina sua capacidade de observar criticamente.

A crônica também demonstra que a preservação da memória pode começar com uma lembrança pessoal. O cronista não possuía a pretensão de escrever uma biografia definitiva. Registrou aquilo que viu, ouviu e sentiu. Entretanto, ao fazer isso, deixou uma contribuição importante para a compreensão de Allyrio Wanderley.

O título de seu livro parece resumir o método utilizado. Antônio Pereira escreveu a partir da experiência: viu o amigo em diferentes circunstâncias, ouviu informações sobre sua vida e interpretou os acontecimentos por meio de suas próprias sensibilidades. O resultado é uma narrativa marcada pela subjetividade, mas também pela riqueza dos detalhes vividos.

O livreiro que guardou a memória do escritor

A crônica de Antônio Pereira de Moraes acrescenta uma dimensão indispensável ao conjunto de testemunhos sobre Allyrio Wanderley. Enquanto outros autores destacaram o romancista, o intelectual, o homem público ou o pensador, o antigo livreiro de Patos preservou a memória do amigo que entrava silenciosamente em sua pequena loja para comprar livros.

Foi entre estantes, revistas e novidades editoriais que se iniciou uma amizade. O cliente cuidadoso tornou-se companheiro de conversas, frequentador dos mesmos espaços sociais e parceiro de viagens. Com o passar do tempo, o livreiro descobriu que aquele homem reservado era autor de obras importantes e possuía uma trajetória marcada por experiências, convicções e controvérsias.

O Allyrio apresentado por Antônio Pereira é um homem de múltiplas faces. É leitor e escritor; trabalhador e intelectual; reservado e participante da vida social; amigo e enigma. Sua personalidade não se ajusta a definições simples. Mesmo os que conviviam com ele não conseguiam compreender completamente seus sentimentos e motivações.

O episódio da gravata vermelha permanece como símbolo dessa complexidade. Diante dos olhares de reprovação, Antônio Pereira recusou-se a condenar o amigo. Preferiu imaginar que aquele homem pudesse estar procurando escapar da solidão e enfrentar a dor à sua própria maneira. Não encontrou uma resposta definitiva e reconheceu o mistério.

Essa atitude revela uma das maiores qualidades do testemunho: a disposição de respeitar aquilo que não se conhece inteiramente. O cronista compreendeu que a amizade não concede o direito de julgar a interioridade do outro. Pode oferecer proximidade, mas não elimina o mistério que existe em cada ser humano.

Ao defender a liberdade de pensamento, Antônio Pereira ultrapassa a lembrança pessoal e formula uma reflexão de alcance universal. Não era necessário concordar com as ideias de Allyrio para reconhecer seu direito de pensar. A inteligência humana, apresentada como força criadora e sagrada, deveria permanecer livre para imaginar, questionar e transformar.

Nesse sentido, a crônica também se transforma em uma defesa do próprio escritor. Não uma defesa de todas as suas posições, mas de sua autonomia intelectual. Allyrio poderia ser contestado, criticado ou interpretado de diferentes maneiras; não deveria, porém, ser reduzido ao silêncio ou condenado ao esquecimento.

A pergunta formulada pelo livreiro continua carregada de significado: por que um nome que um dia alcançara destaque, graças ao brilho de sua pena e à autenticidade de suas obras, teria sido relegado à indiferença? A resposta permanece aberta. Talvez o esquecimento tenha resultado de mudanças culturais, da ausência de novas edições, da fragilidade da memória literária ou da resistência provocada por suas ideias. A própria crônica, contudo, sugere que a intolerância pode ter contribuído para esse processo.

Seja qual for a explicação, Antônio Pereira acreditava que o nome de Allyrio poderia voltar a brilhar. Sua imagem do escritor como um “novo sol”, reaparecendo no firmamento da inteligência, expressa a confiança de que a obra verdadeira possui capacidade de sobreviver aos períodos de silêncio.

A história posterior confirmou, ao menos em parte, essa esperança. A memória de Allyrio continuou sendo retomada por pesquisadores, escritores, jornalistas e admiradores. Seus livros voltaram a ser discutidos, sua trajetória passou a despertar novos interesses e sua presença foi gradualmente recuperada no cenário cultural paraibano.

Entre as vozes que contribuíram para essa preservação encontra-se a de Antônio Pereira de Moraes. O antigo livreiro não escreveu uma obra extensa sobre o amigo. Deixou uma crônica breve, construída a partir de lembranças pessoais. Mas, dentro dessas páginas, guardou imagens que nenhum estudo puramente bibliográfico poderia oferecer.

Guardou o cliente que aparecia de quinze em quinze dias. Guardou o leitor que escolhia cuidadosamente os livros. Guardou o escritor reservado, o frequentador do Grêmio, o companheiro de viagens e o homem cuja dor permanecia incompreendida. Guardou, sobretudo, a convicção de que nenhuma divergência deveria impedir o exercício da liberdade intelectual.

Por isso, ao recordar Allyrio Wanderley, Antônio Pereira também registrou uma parte da história cultural de Patos. Sua pequena livraria tornou-se cenário de um encontro entre o livro e o escritor, entre o comércio e a cultura, entre a leitura e a amizade.

Décadas depois, o testemunho continua a falar. Não apresenta um Allyrio monumental, distante e inacessível. Revela um homem real, visto de perto por alguém que o conheceu no cotidiano e soube conservar suas lembranças. E talvez resida aí a maior contribuição do livreiro: enquanto outros registraram a projeção pública de Allyrio Wanderley, Antônio Pereira preservou o homem que existia por trás do nome.

O escritor podia ter sido temporariamente esquecido. A memória, porém, continuou encontrando caminhos para devolvê-lo à história. E, entre esses caminhos, havia uma pequena livraria de Patos, um leitor silencioso e um amigo que, muitos anos depois, decidiu contar aquilo que viu, ouviu e sentiu.

Campina Grande, novembro de 2020.

José Ozildo dos Santos
Historiador e professor universitário